A casca de laranja nas mãos de Olívia Santos conta a história do país nas últimas semanas. “São frescas, mas estas chuvas só estragam as frutas.” Mostra as manchas brancas, como quem examina uma cicatriz. Tem 52 anos e trabalha no Mercado da Ribeira há 37, numa banca de frutas e legumes. Diz que 90% do que vende é nacional – os citrinos são do Algarve e as hortícolas da zona Oeste – e o resto vem de Espanha. Mas teme que isso, tal como os preços, estejam prestes a sofrer uma revolução nos mercados de Lisboa.
Lisboa, terça-feira, duas semanas desde a tempestade Kristin – o início de um “comboio de tempestades” que fustigou terras e estufas pelo país, como em Leiria, Marinha Grande, Alcobaça, Torres Vedras, Coimbra e Ourém. No Mercado da Ribeira, as bancas estão todas abertas, mas os corredores enchem-se a passo lento – a chuva que se instalou no país não convida a entrar muitos clientes. Os comerciantes andam pelas bancas de caneta e papel na mão a trocar os preços.
Aqui, a conta é simples: quanto mais sobe o nível da água nos campos do Oeste, mais esvaziam as bancas e mais encolhe o poder de compra dos lisboetas. Entre o tomate que duplicou de preço e a couve que apodrece na terra, a agricultura nacional está em estado de sítio.
Olívia confessa que tem havido algum burburinho de preocupação neste mercado. “Tenho as hortaliças debaixo de água. Estamos com uma escassez de mercadoria e não conseguimos fazer preços. Quanto menos há, mais caro se torna”, avisa.

Veja-se o exemplo da alface lisa de estufa que, segundo o Sistema de Informação de Mercados Agrícolas (SIMA), na zona do Ribatejo e Oeste registou um aumento das cotações (preço médio praticado no mercado de abastecimento) em 16%. A nível nacional, a alface está a 0,87 cêntimos. O alho francês teve uma subida de 40% a nível regional – o preço médio nacional fixou-se nos 0,74 cêntimos (subindo dez cêntimos em relação à semana anterior). Tudo por motivos de maior procura e uma oferta “quase nula”, revela o SIMA.
“Isto está mesmo mau, e o pior é que daqui a 1 mês, podemos não ter nenhum produto nacional para comprar.”
Olívia Santos, Mercado da Ribeira

Uma colheita de estragos
Anabela Soares tem 62 anos, trabalha no Mercado da Ribeira desde 1987, a vender frutas, legumes e frutos secos. Diz que praticamente nasceu neste mercado. Mas, com mais de três décadas de trabalho, nunca assistiu a um cenário semelhante. “Nós temos os clientes para servir e tentamos arranjar os produtos que eles querem, mas se não há produtos, fica complicado”, desabafa.
Há produtos nacionais nesta banca, mas muitos outros são importados de Espanha, Costa Rica e África. Anabela diz que, “mesmo assim, também está difícil de arranjar os produtos importados”. Por exemplo, os de Espanha, país também afetado pelas tempestades.

É a importação que vai mantendo algumas bancas à tona. No mercado de Alvalade, a banca de Anabela Patrício continua cheia de cores. Com uma caixa de morangos na mão, confessa que ainda não tem falta de produtos, porque, apesar de ter nacionais, os importados neste momento são a sua razão de estabilidade. “Os frutos tropicais vêm dos países mais quentes como o Brasil e Costa Rica.”
Mas, a partir de março, a história pode ser outra. Anabela avizinha tempos mais negros para o seu negócio. “Se não fossem alguns campos do Alentejo e do Algarve, é que não tínhamos mesmo nada.”


Historicamente, as regiões do Oeste e Ribatejo têm um papel ativo na produção nacional. Veja-se os seguinte gráficos, com estatísticas agrícolas do território nacional, por número de explorações e volume de trabalho:


Dados do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP)
Quase todos os comerciantes vão abastecer no MARL (Mercado Abastecedor da Região de Lisboa), em Loures, onde também há quem esteja com dificuldade para arranjar mercadoria para vender e distribuir. O ambiente pelas 18:00 da tarde é atribulado. Já lá vão mais de 15 dias desde que o país acordou com as notícias dos efeitos das tempestades no país. As máquinas transportadoras andam de um lado para o outro, os camiões chegam e saem do recinto, os trabalhadores arrumam a mercadoria. Mas esta azáfama reflete uma preocupação comum.
Num dos corredores, está Daniel Alves. Tem 51 anos e é o CEO da empresa Jóia do Campo. Queixa-se das dificuldades para arranjar produtos de qualidade e em grandes quantidades “só se apanha, não se consegue plantar”. “Os campos estão inundados.”



Os dados da CAP – Confederação dos Agricultores de Portugal confirmam a intempérie: os prejuízos já são superiores a 775 milhões de euros, causados pelos recentes episódios climáticos. Os agricultores aguardam uma resposta do governo para ajuda financeira.
*Texto editado por Catarina Reis

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