Diga-me onde ainda se come um bolo de arroz e dir-lhe-ei quanta vida resta ao seu bairro. Este bolo simples, acessível e transversal a gerações não tem nada de “gourmet” nem sequer um artefacto turístico que pode ser misturado com nata ou com bacalhau. Está associado a rotinas estáveis, a hábitos familiares e, sobretudo, a espaços onde o tempo, o consumo rápido e o lucro não eram predominantes. Agora, dá nome a um projeto promovido pelos Vizinhos em Lisboa, que nasce de uma constatação simples, incómoda e cada vez mais evidente no terreno: os cafés e pastelarias tradicionais estão a desaparecer de Lisboa sem debate público, sem instrumentos eficazes de salvaguarda e, muitas vezes, sem aviso prévio.

Não estamos perante uma nostalgia urbana estéril nem perante uma defesa romantizada do passado pelo passado. Estamos, com efeito, perante um problema estrutural de Lisboa, com impactos diretos na coesão social, na vida dos bairros e na própria identidade urbana da cidade.

Por isso, criámos o projeto “O Último Bolo de Arroz de Lisboa”: um mapa de cafés e pastelarias tradicionais portuguesas em Lisboa – e aqueles que desapareceram recentemente.

Quando fecha um café tradicional, não desaparece apenas um negócio. Perde-se vida comunitária, perde-se vigilância informal do espaço público, perde-se segurança pública porque o espaço se desertifica, perde-se uma rede de proximidade social que, em muitos bairros, foi durante anos essencial até para sinalizar situações de isolamento, doença ou morte.

Durante décadas, estes cafés funcionaram como extensões do espaço público e da comunidade local. Eram lugares de encontro intergeracional, de leitura de jornais, de conversa quotidiana, de apoio informal entre vizinhos (p. ex. na pandemia de covid-19) e, em muitos casos, pontos de atenção comunitária essenciais. A sua erosão não resulta de um alegado “progresso económico” nem de uma inevitabilidade histórica. Resulta de escolhas políticas concretas, de omissões e esquecimentos deliberados e estratégicos que extravasam por vários mandatos autárquicos (nomeadamente na liberalização do arrendamento comercial, na ausência de regulação eficaz da turistificação, na proliferação de grandes cadeias empresariais e na falta de instrumentos municipais de monitorização e intervenção preventiva) – apesar das competências atribuídas às autarquias pelo Regime Jurídico das Autarquias Locais e pela legislação do urbanismo e do ordenamento do território.

O logótipo do projeto dos Vizinhos de Lisboa

A ideia de mapear estes espaços perdidos surgiu na fértil mente do nosso coordenador do núcleo da “Vizinhos em Lisboa” em Arroios, uma das freguesias mais pressionadas pela turistificação intensiva, pelo aumento abrupto das rendas comerciais, pela multiplicação de bares e esplanadas geradoras de ruído e pela entrada agressiva de grandes redes. Todos estes fenómenos estão interligados e alimentam-se mutuamente.

O momento de ruptura foi claro: a explosão deste tipo de ocupação comercial e, de forma particularmente simbólica, o encerramento da Confeitaria Vitória, na Estefânia, que reabriu pouco depois como uma cadeia global de fast food. Não houve sinais públicos de falência ou de crise económica. Houve apenas substituição rápida e silenciosa. E outras “Vitórias” estão a acontecer neste momento e irão acontecer nos próximos anos se nada de muito rápido e decisivo for feito.

Usar o “bolo de arroz” como critério central de identificação foi também uma forma de introduzir objetividade num conceito frequentemente tratado de forma vaga de “comércio tradicional”. A este critério juntam-se outros, como a dimensão familiar do negócio ou a sua associação clara à memória coletiva dos moradores pelo que, de facto, acabámos por introduzir uma certa flexibilidade nesta métrica.

Este mapeamento da Vizinhos em Lisboa não é, assim, um gesto simbólico nem um exercício de memória. É um ação de registo cívico e de produção de dados num contexto em que a própria administração pública raramente dispõe de inventários atualizados e operacionais deste património imaterial. Sem dados, não há política pública séria. Sem identificação do que se passa no território, não é possível discutir medidas de proteção, incentivos ou exceções regulatórias: sem dados não pode haver decisão informada e de qualidade.

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Afinal, quantos cafés e pastelarias Lisboa perdeu?

A 30 de janeiro deste ano estavam identificados 275 espaços, dos quais 24 já “óbitos” recentes.

Obviamente que, nos últimos dois ou três anos desapareceram muitos mais, mas estes 24 têm algo de concreto e palpável porque resultam – todos – de relatos de moradores que sentiram a sua perda e nos relataram a mesma. Este número – ainda provisório porque o mapa está incompleto e ainda não alcança todos os bairros de Lisboa -, por si só, desmonta a ideia de que estamos perante casos isolados ou residuais.

A cidade não se torna mais “moderna” por apagar estes lugares. Torna-se mais frágil, mais anónima e mais desigual e morta. Torna-se menos viva e vibrante.

Convém ser claro: projetos cidadãos não salvam sozinhos o comércio tradicional. Não têm meios financeiros nem instrumentos regulatórios. Isso compete às autarquias, ao Parlamento e ao Governo. O mapa “Bolo de Arroz” não é uma varinha mágica. Mas gerou atenção pública e exerce pressão simbólica sobre os decisores políticos. E o tempo, neste contexto, é um factor crítico.

O objetivo último do projeto “O último Bolo de Arroz” da Vizinhos em Lisboa é claro: que este trabalho influencie políticas públicas. Falta hoje em Lisboa um sistema de monitorização contínua do comércio tradicional que permita identificar riscos antes do encerramento, avaliar mitigações e cruzar dados com políticas de habitação, ruído, turismo e licenciamento. Sem isso, a ação pública continuará a ser tardia e reactiva.

O mapeamento recorrente é, por isso, uma ferramenta de vigilância urbana. Serve para documentar, criar memória, produzir dados, identificar padrões e anomalias territoriais e contrariar a narrativa confortável de que esta perda é inevitável. No caso do “Último Bolo de Arroz de Lisboa”, mapear é um ato político não-partidário no sentido mais clássico do termo: tornar visível o que está a desaparecer para que já não possa desaparecer em silêncio. Porque a cidade não se protege depois de desaparecer. Protege-se enquanto ainda existe e pode ser salva.

As reações ao projeto têm sido intensas: moradores partilham memórias, rotinas e histórias de vida associadas a cafés que já fecharam ou que estão em risco. Comerciantes expressam simultaneamente alívio e preocupação. Alívio por sentirem reconhecimento da sua existência enquanto parte viva da cidade. Preocupação porque sabem que a visibilidade que este projeto lhes dá não resolve, por si só, problemas estruturais como rendas incomportáveis, fiscalidade, burocracia ou os desafios impostos pelas transições geracionais.

Extratos de algumas das dezenas de mensagens recebidas no decurso deste projeto:

“Fiquei muito sensibilizada com o vosso projeto “O último bolo de arroz em Lisboa” e gostaria de me colocar à vossa disposição para contribuir no projeto. Organizei, recentemente, uma petição para tentar evitar o encerramento da pastelaria Centro Ideal da Graça. No entanto, esta acabou por fechar no final de Setembro de 2025.
Uma vez que tinha, na altura, reencaminhado a petição para as entidades responsáveis, teve lugar na quarta-feira passada, uma reunião de apreciação da petição na assembleia municipal. Dado que a pastelaria já tinha encerrado, a discussão voltou-se para as medidas que devem ser tomadas para evitar o fecho de mais cafés históricos, uma vez que este fenómeno tem acontecido de forma quase sistemática. Embora não se tenha chegado a nenhuma conclusão concreta, gerou muito debate. Enquanto promotora da petição tentei reforçar, perante a comissão presente, a falta de valorização, proteção e legislação do património imaterial.”

“Ficaria particularmente contente se pudesse continuar a contribuir para esta causa e a não deixar que os nossos cafés e pastelarias de bairro desapareçam.”

“Temos ainda a Pastelaria Orion, em funcionamento desde 1945, com fabrico próprio e receitas tradicionais incluindo Bolo de Arroz.
É um negócio familiar, que já vai na 3ª geração, situado na Calçada do Combro n° 1, 1200-110 Lisboa, mesmo às portas do Bairro Alto, quem sobe do Chiado, passa o elevador da Bica, e fica mesmo na esquina que leva ao Miradouro de Santa Catarina, mais conhecido por Adamastor.
Para além do bolo de arroz, o pastel de nata é um verdadeiro clássico, especialidade da casa, cuja receita já vem desde o fundador, e tem sido passada de geração em geração.”

“Bela iniciativa!
Na Rua Alexandre Herculano, onde é agora o restaurante Pizzaiolo, existia até há cerca de um ano a Pastelaria Orquídea, onde parava muito, quando era vivo, o escritor Antonio Tabucchi”

“Antes de mais parabéns pela iniciativa de recensear as pastelarias/cafés tradicionais que ainda sobrevivem. Sou moradora do bairro de Campo de Ourique, desloco-me pela cidade de Lisboa, por vários bairros, e gostaria de ajudar e contribuir para aumentar a lista, pois vejo que há zonas onde o recenseamento ainda não chegou.
Agradeço também que indiquem se podemos fazer mais alguma coisa para “salvar” mais cafés/pastelarias.”

“Relativamente ao tema e ao pedido em concreto, tenho a dizer que encerrou a Pastelaria Mujique na rua Luciano Cordeiro, local que frequentava esporadicamente, bem perto a Rampa, snack-bar e restaurante onde ainda se comia bem e barato e pelo que sei na rua de Santa Marta e São José poderão muito em breve encerrar mais um ou dois dos estabelecimentos mais antigos que ainda se mantêm abertos.
Estarei atento e partilharei informações que consiga recolher sobre estabelecimentos que possam eventualmente estar para encerrar por achar, como bem diz, sempre que algum encerra Lisboa perde mais um pouco da  identidade e autenticidade que a levou a ser tão procurada por turistas e visitantes.
obrigado e parabéns pela ideia”

“Dando desde já os parabéns pela iniciativa e projecto, pergunto:
“…E onde é que, em Lisboa, se come o melhor bolo de arroz?””

“Esta tem uns bons Jesuítas, pastéis de nata e palmiers recheados com creme de manteiga que já são uma raridade, a Sequeira na AV da República era especialista nesses palmiers, mas fechou há alguns anos.
Pastelaria Manaus
R. do Sacramento a Alcântara 54, 2865-140 Lisboa
Aqui temos os melhores bolos de arroz
Ceifeira Real
Passeio dos Mastros 5b, 1990-377 Lisboa
Obrigada pela partilha sou aficionada de pastelaria portuguesa e vejo que estão na listagem algumas das minhas pastelarias preferidas de Lisboa como a Tentadora , a 1800 o Careca”

Se conhece um destes cafés tradicionais de Lisboa: envie um e-mail com o nome do café, arruamento e n.º de porta para geral@vizinhos.org


Rui Martins

Rui Martins nasceu em Lisboa, numa Rua da Penha de França, num edifício com uma das portas Arte Nova mais originais de Lisboa. Um ano depois já tinha migrado (como tantos outros alfacinhas) para a periferia. Regressou há 18 anos. Trabalha como informático. Está ativo em várias associações e movimentos de cidadania local (sobretudo na rede de “Vizinhos em Lisboa”).

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