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Tinha como certo que não existiam bons Bolos de Arroz. O conjunto de palavras Bolo de Arroz, ditas nesta ordem, soavam e ecoavam a qualquer coisa de bafiento na minha cabeça.

O rótulo envolvente é sempre o mesmo e imaginava que só uma modesta fábrica o produzia em massa para Portugal inteiro se deleitar, abrindo portas ao monstro da diabetes.

Tivesse o superpoder para me recordar de sonhos e pesadelos e saberia que o meu maior pesadelo é levar com um cubo de açúcar proveniente de um bolo de arroz na tola e perder os sentidos.

Enquanto crianças, tendemos a associar o açúcar a recompensa, a entretenimento, a felicidade. Não conhecemos limites e sabe-nos bem após a ditadura da sopa e da papa à qual se segue a realidade castradora da cantina e da rotina.

Sedento de sensações fortes, o paladar ainda deseducado exalta tanto quanto a sua ingenuidade.

Sem que um acontecimento catastrófico tenha sucedido pelo meio, começamos a olhar de forma diferente para aquele honesto bolo de arroz, um livro aberto desde o primeiro dia.

A idade, não só mata sonhos como tem o condão de ensinar a distinguir o que merece ser perseguido.

Acontece que o choque com a realidade acabou sendo mais brando e o banho de humildade aterrou cheio de requinte através da Confeitaria Nacional, clássico dos clássicos da pastelaria da Baixa Pombalina, porque num instante o Bolo de Arroz deixou de representar uma estrada de montanha no pico do inverno repleta de cubos de gelo ameaçadores para ser o sol que iluminou aquela tarde.

É o primeiro Bolo de Arroz que não peca por excesso, e que não peca de forma alguma. Apresenta-se elegante, pose marcial, uma presença celestial no cenário tradicional da confeitaria. Não chega a estar torrado, é esponjoso na conta certa.

Será este o verdadeiro Bolo de Arroz ou será o Bolo de Arroz obra do diabo que a mais nobre confeitaria amassou?


* Analista de dados com 33 anos, nascido e residente em Lisboa, embora criado nas redondezas. Uma infância a olhar para Lisboa como um lugar longínquo onde tudo acontecia. Hoje, intransigente defensor de uma certa Lisboa tradicional, que evolua também a pensar nos lisboetas. Deteta padrões e encontra soluções, este eterno apaixonado pela sua cidade. Pela Lisboa dos altos e baixos, literal e figurativamente. Nutre o gosto pela escrita, apenas superado pelo da comida, e por uma ideia de imperfeição e de sacrifício, que caracterizam a identidade alfacinha.

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