A Gazetta do Bairro, jornal comunitário de Chelas, volta a ganhar vida pelas mãos do empreendedor cultural Nuno Varela, que acredita na importância de um bairro aprender a narrar a si próprio. O projeto quer recuperar a memória e o orgulho do território, dando espaço às histórias, à cultura e às pessoas que raramente aparecem nas páginas dos grandes jornais, e tornando o jornal em um espaço onde as vozes locais ganham visibilidade e reconhecimento. Em uma frase, Varela deixa clara sua missão: “o objetivo principal é mudar vidas”.

Nuno Varela é um nome conhecido em Chelas, por trás de projetos como Chelas é o Sítio, Kriativu e Hip Hop Sou Eu, uma plataforma que marcou a cultura urbana em Lisboa e deu palco a dezenas de jovens
artistas. Os projetos ganharam projeção, mas Varela percebeu que, apesar do impacto, falava sobretudo para quem já fazia parte daquele universo: um público jovem, ligado à música e à cultura hip hop. Faltava um canal que chegasse à generalidade das pessoas do bairro.

Foi dessa inquietação que nasceu a Gazetta do Bairro, originalmente concebida no âmbito do programa BIP/ZIP, uma parceria com a Câmara de Lisboa, como uma forma de comunicação comunitária capaz de refletir a vida de Chelas em todas as suas dimensões. Depois, lançado oficialmente com o apoio da Mensagem de Lisboa e da FCSH, vencedor de uma bolsa do Journalismfund.

Embora tenha sido criado em Chelas, o objetivo de Nuno Varela não é fazer um jornal apenas sobre seu bairro, e sim a partir de Chelas — tomando o território como ponto de partida, não de chegada. Para ele, “bairro” é uma ideia universal”.

Nuno Varela: A Gazetta do Bairro como contraponto à forma como os media costumam retratar territórios como Chelas. Foto: Rita Ansone.

“O objetivo é que seja comunicação de qualquer bairro. Quando digo bairro, digo favela no Brasil ou digo um bairro em Barcelona que tenha uma história interessante de contar. Portanto é uma plataforma que sai de um bairro que pode comunicar a vários bairros, sejam eles aqui ou na África ou na Ásia ou mesmo outros bairros aqui de Lisboa.”

A Gazetta pretende assim ser um espaço onde diferentes realidades locais possam dialogar, partilhando experiências, desafios e formas de viver que se cruzam na condição comum de quem constrói identidade e cultura a partir das margens.

Pretende ainda ser um contraponto à forma como os media costumam retratar territórios como Chelas. Nuno Varela acredita que é preciso pegar em todas as coisas boas que estes territórios fazem — a gastronomia, a cultura, a arte, as histórias de quem vive ali — e trazê-las para o centro da narrativa.

Contrariar a “visão limitada” dos média

Varela reconhece que há dificuldades e negligências, tanto das entidades públicas quanto dos próprios moradores, mas defende que isso não deve definir a identidade dos bairros. Uma identidade que tem sido percebida só por uma das faces da moeda e é aí que a Gazetta do Bairro quer atuar, contrariando a “visão limitada” que associa os bairros apenas à violência ou à criminalidade, mostrando um outro lado.

Apesar de querer destacar o lado positivo dos bairros, Varela sublinha que a Gazetta do Bairro não pretende ignorar temas difíceis. Se surgirem situações de violência ou problemas de criminalidade, o jornal também deverá abordá-los, mas de forma construtiva, sem reforçar estigmas, e sim, compreender as causas e contribuir para a mudança

“Imagina que – espero bem que não – mas imagina que agora a criminalidade aumenta. Há que se fazer um estudo sobre isso, mas sempre com o objetivo de mudar a realidade e trabalhar no terreno nesse sentido.”

O conteúdo da Gazetta do Bairro será diversificado e sem uma linha rígida de comunicação. A publicação pretende abordar desde temas culturais, musicais e gastronómicos até notícias sobre o território, entrevistas com artistas e desportistas locais e coberturas de eventos da comunidade. A ideia é mostrar a variedade de atividades e iniciativas que acontecem no bairro.

Varela pretende que a Gazetta do Bairro seja reconhecida como uma plataforma de confiança e credibilidade. Ele quer que a publicação tenha relevância e destaque, sendo uma referência para a comunidade e também para quem acompanha o bairro de fora: “Por aparecer na Gazetta do Bairro já tem quase como um selo de confiança, de que isso é bom”.

Ele aspira que as pessoas fiquem orgulhosas ao aparecer na Gazetta “da mesma forma que nós sabemos que muita gente fica orgulhosa por aparecer no Jornal das Oito ou na RTP1”.

Para Varela, a Gazetta do Bairro pode funcionar também como um espaço de formação e envolvimento para os jovens da comunidade, especialmente aqueles interessados em jornalismo. A participação no projeto pode despertar assim o interesse por esta área e, eventualmente, inspirar alguns a seguir uma carreira na comunicação social, oferecendo experiência prática na área.

Funcionar como o Hip Hop Sou Eu para o próprio Varela, que abriu caminhos e oportunidades que transformaram sua vida, proporcionar aos jovens do bairro o mesmo tipo de experiência, colocando-os em posições ativas dentro do projeto, para que possam explorar seu potencial e assumir protagonismo na Gazetta.

Para Nuno Varela, o projeto da Gazetta do Bairro também é uma oportunidade para os jovens de Chelas mudarem de vida. Foto: Rita Ansone

“O mais importante para mim neste momento é a criação de oportunidades para estes jovens que eu vejo que estão em alguma situação de risco, em que se calhar precisam de um incentivo como um projeto desses para poderem mudar as suas vidas”, afirma, reforçando o foco social e comunitário da iniciativa.

Além de desenvolver habilidades jornalísticas, o projeto busca oferecer uma chance concreta de mudança de vida, permitindo que os jovens contribuam para suas famílias e construam percursos profissionais promissores. O objetivo central de Varela com a Gazetta do Bairro é, portanto, criar oportunidades reais e impactar positivamente a vida daqueles que participam do projeto.


Vinícius Paz

Nasceu em Brasília, capital do Brasil, e vive em Lisboa há sete anos, onde cursa o mestrado em Jornalismo na Universidade NOVA de Lisboa. Interessado em jornalismo político e narrativas que conectam comunidades locais a questões sociais mais amplas.

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