“Água fria, da ribeira…”. Houve um tempo em que Lisboa era a “aldeia da roupa branca”, como cantou Beatriz Costa, e os lisboetas acorriam aos tanques com os seus baldes de roupa para que as “lavadeiras” as enxaguassem com água, sabão ou lixívia, a troco de dinheiro. Uma lavandaria de outros tempos, portanto. Aqui, a coreografia era sempre a mesma: havia que molhar a roupa e torcê-la, para depois esfregar, primeiro entre duas mãos e, por fim, contra a pedra do lavadouro.
A maioria dos lavadouros é hoje apenas monumento na cidade. Como é o caso do lavadouro do Alto do Pina, na Penha de França. Mas este é um pouco mais do que apenas uma memória longínqua: é o lugar que marca a luta atual de um grupo de lisboetas que decidiu lançar uma petição, para que o lavadouro seja recuperado.
O que é feito dos lavadouros de Lisboa?
De lavadouro a espaço cultural
Uma nova tendência que parece estar lentamente a emergir é a da transformação dos lavadouros, espaços de memória na cidade, em lugares de cultura. O lavadouro do Lumiar é também exemplo disso: desde 2022 que todos os anos se tem tornado palco da iniciativa Cinema no Estendal, um festival de curtas-metragens itinerantes.
Um outro exemplo é o Lavadouro de Carnide, onde, desde 2011, graças a um protocolo entre a Junta de Freguesia de Carnide e o Teatro do Silêncio (uma estrutura de teatro fundada pela criadora Maria Gil), o lavadouro se transforma, pontualmente, em espaço de apresentação de projetos e ações culturais. Ali, já se dinamizaram visitas guiadas, residências artísticas e exposições.


Num dos lavadouros de Santa Maria Maior, no Beco do Mexias, a associação do Património e da População de Alfama também já organizou sessões de fado. E, em 2017, o projeto de um espaço cultural no lavadouro da Ajuda venceu o Orçamento Participativo (OP). Porém, a ideia ainda não avançou.
De espaços comunitários, ainda utilizados por quem não tem onde lavar a roupa em casa, a espaços culturais, os lavadouros ainda resistem na cidade, uma memória viva de outros tempos que os lisboetas lutam para preservar.





Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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