Durante a maré cheia, no meio a arrozais, sapais e pastagens, no silêncio das lezírias no estuário do Tejo, centenas de pássaros cortam os céus e banqueteiam-se nas três lagoas de água doce do Evoa – Espaço de Visitação e Observação de Aves. É novembro e os bandos de aves migratórias começam a chegar para o inverno.
É assim todos os anos, quando entre setembro e novembro as aves migratórias invernais veem passar a estação fria do continente europeu em locais específicos do estuário do Tejo, especialmente nas lezírias – como são chamados os terrenos alagadiços às margens dos rios – uma zona húmida de importância internacional ao ponto de ser reconhecida pela Convenção Ramsar (um dos primeiros tratados intergovernamentais globais sobre conservação adotado em 1971 na cidade iraniana que o batiza) e área incluída na Rede Natura 2000.

As aves do norte da Europa continuam a chegar nos meses seguintes, de dezembro a fevereiro, até somarem milhares de indivíduos de mais de 200 espécies que se espalham pelos arrozais e lagoas nos terrenos da Companhia das Lezírias, gestora do Evoa, um projeto que remonta a 2001, no âmbito da iniciativa Business and Biodiversity e do Programa Operacional Regional de Lisboa – PORLisboa/QREN.
Com a parceria da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira e do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, entre outras entidades, e com o apoio do patrocinador fundador – a empresa Brisa – Autoestradas de Portugal – o Evoa tem objetivos bastante claros quanto à preservação deste refúgio especial no estuário do Tejo para as aves estuarinas invernantes.
Harmonia entre os habitats naturais e agrícolas A conservação da avifauna e dos habitats naturais e agrícolas no estuário do Tejo e é um dos principais objetivos do Evoa, pois isto cria atração para uma maior diversidade de aves que ali encontram refúgios de maré para se alimentarem e nidificarem.
“Assim, proporciona-se também o estudo científico, a divulgação da importância das aves para o ecossistema estuarino e cria-se também as condições para a observação destas aves em tranquilidade”, enumera a coordenadora Sandra Silva.
É nas lagoas de água doce, semi-escondidas pela vegetação de caniços, localizadas nos terrenos do Evoa que somam um total de 70 hectares, que as centenas de aves migratórias poisam. São três zonas húmidas onde as aves encontram áreas de refúgio e locais de nidificação e de muda. Há um contraste de paisagens, com valas, campos agrícolas, sapais e pastagens que harmoniosamente se complementam e exibem a tradição do uso da terra e a inovação dos métodos contemporâneos de gestão.
Atualmente está também a ser recuperada a Salina de Saragoça, com reabilitação das comportas, para ser mais um habitat de refúgio e zona de nidificação especialmente para as aves anatídeas (patos, gansos e cisnes).
“Temos um modelo de auto-sustentabilidade na gestão de conservação da Natureza aqui nas lezírias, especialmente na gestão da água que tem origem na vala principal em Mar de Cães e é distribuída através da gravidade e de comportas pelas três lagoas – a Lagoa Principal, a Lagoa Rasa e a Lagoa Grande”, explica a coordenadora do Evoa.

As três lagoas e a variedade de aves
Há todo um controlo tanto das características físico-químicas e bacteriológicas da água, como seu fluxo e altura do espelho de água nas lagoas de forma a adaptar-se às estações do ano e às preferências das diversas espécies de aves migratórias que ali passam o inverno.
A própria vegetação também é controlada e constituída na maioria por caniços e arbustos (mostardeiras) e valverde dos sapais, uma planta halófita tolerante à salinidade do solo. As lagoas, os acessos, os observatórios e o sistema de gestão da água do Evoa baseiam-se em consultoria realizada à Wildfowl and Wetlands Trust (WWT), entidade com larga experiência na conceção e gestão de zonas húmidas.
A observação constante e as análises regulares da água permitem uma gestão eficaz que evita problemas sanitários ou a acumulação excessiva de matéria orgânica que possa provocar a crescimento de algas e plantas aquáticas.
As três lagoas proporcionam assim habitats diversificados, adequados aos diferentes grupos de aves, não só as invernantes como também as nidificantes como os patos, gansos e cisnes (anatídeos), as garças e socós (ardeídos), o maçarico, o pernilongo, o abibe, a andorinha e as demais aves que vivem no limo (limícolas) e os estorninhos, os cartaxos, os pintassilgos e uma variedade de espécies conhecidas como passeriformes, uma grande ordem na classe de aves.
E há também as garças – as grandes, as pequenas, as reais, as vermelhas -, as íbis-preta, os flamingos, os colhereiros, as galinhas d’água… e a agitar os bandos pousados nas lâminas de água sempre paira uma invernante águia-pesqueira ou uma residente águia-sapeira ou um milhafre preto, uma espécie estival que vista as lezírias. Com sorte pode ser avistada também uma espécie exótica como o bispo-de-coroa-amarela, de origem africana introduzida em Portugal no final da década de 1980.
O Projeto Evoa tem a distinção de ter criado e recuperado habitats aquáticos para as aves migratórias e autóctones. Houve todo um trabalho de movimentação de terras a fim de modelar locais atrativos para as aves selvagens e ao mesmo tempo proporcionar boas condições de observação para os estudiosos, cientistas e público em geral.
A partir de orientações do WWT, em 2009 e 2010, o terreno foi modelado para a criação das lagoas e a inclusão de caminhos pedonais para percursos pedestres à volta das lagoas, onde também foram instalados pontes e passadiços. O acesso às lagoas é camuflado por barreiras de terra, vegetação e paliçadas, e há três observatórios, um em cada lagoa, para permitir a visualização da avifauna presente em cada área.
As espécies autóctones da vegetação foram replantadas: a tamargueira, para a fixação das margens, o triângulo ou junquilho-dos-salgados, o bunho. O caniço, típico da região resguarda as áreas mais sensíveis e margeia o lado norte da lagoa principal, local de entrada da água, funcionando como um tipo de estação de tratamento dos afluentes.
Convite para ver sem ser visto
Existem quatro observatórios nas três lagoas, três abrigos de fotografia estrategicamente colocados e dois pontos de observação camuflados de forma a garantir a tranquilidade das aves e maximizar a experiência e conforto dos visitantes. A ideia é que as aves nem sequer notem a presença de humanos na área e a recomendação do Evoa aos visitantes é ver sem ser visto.

Permitindo um olhar privilegiado para as lagoas, os observatórios construídos em madeira podem acomodar diferentes números de pessoas, chegando a abrigar até 15 pessoas como na lagoa principal e na lagoa rasa. Largas janelas à frente e nas laterais proporcionam 180º graus de visão das paisagens e do horizonte onde bandos de aves revoam no céu. Já o observatório da lagoa grande está direcionado para observadores e profissionais mais experientes.
Há também um Centro de Interpretação onde os visitantes são recebidos e onde decorrem diversas atividades de lazer, sensibilização e educação ambiental, contando com auditório e salas multiusos, bar com vista privilegiada sobre as lagoas, loja e instalações sanitárias.
Uma exposição permanente está patente na sala principal – Evoa, onde o mundo encontra o Tejo – envolvendo o visitante numa viagem pela cultura e hábitos da região nas diferentes épocas, estações do ano e marés. Detalhes dos habitats existentes entre o estuário e a lezíria e também pelo mundo, demonstram a trajetória das aves ao longo das migrações e o papel do estuário do Tejo nestas rotas aladas.

*Nysse Arruda é jornalista especializada em náutica, fundadora e curadora do Centro de Comunicação dos Oceanos- CCOceanos – série de palestras a abordar temas relacionados com os oceanos, conectando os países de Língua Portuguesa e tornando Portugal um polo de partilha de informação atualizada sobre os oceanos.

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Evoa fica na Companhia das Lezirias, e esta companhia no concelho de Benavente desde o século XlX
Deve ser dito.