Quando o Manohar e a Pabita, um casal nepalês que tem um restaurante em Almada Velha, na Rua Capitão Leitão (o Mr. Masala), e um dos filhos numa das salas de pré-escolar da AIPICA, nos falaram do Festival das Luzes, o Diwali, e do que significava, sentimos que, numa altura em que tanto mundo e tanta gente mergulha na escuridão da ignorância, da intolerância, da guerra, do extremismo e das trincheiras, nos faziam falta as luzes de uma celebração assim.

O Tihar ou Diwali ou Festival das Luzes é uma celebração do bem, da gratidão, dos afetos, da paz, da luz. Tem flores e mandalas desenhadas no chão com farinha de arroz de todas as cores, tem velas e lanternas que iluminam, tem cânticos e danças que se cantam e dançam em conjunto, tem elogios e histórias e presentes que se trocam entre vizinhos, tem homenagens aos animais domésticos e tem comida que se partilha.

Fazia todo o sentido. Numa das nossas unidades educativas – o Castelo –, onde quase metade das crianças são nepalesas, indianas e paquistanesas e não falam português, tínhamos iniciado um projeto-piloto de integração que passa por trabalhar com as famílias e envolvê-las na escola e na aprendizagem da língua do país onde agora vivem. Era, portanto, um excelente pretexto para trazer as famílias à escola.

Avançámos. A AIPICA – Associação das Iniciativas Populares para a Infância do Concelho de Almada – organizou, em parceria com a Almada Mundo e a União das Freguesias de Almada, Cova da Piedade, Pragal e Cacilhas, o Festival das Luzes. Foram semanas de preparação, das lanternas, dos cestinhos de oferta, das flores, das danças, das cantigas, das luzes, do espaço.

Todas as famílias que têm crianças na AIPICA foram convidadas a participar, assim como todas trabalhadoras e toda a comunidade de Almada, através da Almada Mundo e da União das Freguesias.

No chão da sede da AIPICA, com farinha de arroz colorida por corantes de várias cores, a Pabita desenhou rangolis, que durante o Diwali ou Tihar são representados nas várias casas a simbolizar a alegria, a energia positiva e dar as boas-vidas, mandalas e até o símbolo da AIPICA. Do teto pendiam lanternas pintadas pelas crianças e por todo o lado luzes e flores.

Foi neste cenário que o Manohar e a Pabita contaram como era vivido o Festival das Luzes no seu país, dramatizando o périplo pelas casas dos vizinhos, história que o João Tempera, ator e um dos responsáveis pela biblioteca itinerante Aletria, recontou e reinterpretou em português.

Depois vieram as danças tradicionais, interpretadas por uma bailarina indiana, a que se foram juntando mães e pais e crianças. A chuva, que tememos que ameaçasse a festa não veio, talvez intimidada por tanto calor humano. Foi bonita a festa e à despedida, quando percebi a tanta gente que veio e o sorriso com que saiu (a maioria não era do Nepal ou da Índia, países onde é tradicional o Diwali ou Tihar), dei-me conta de que há muita gente a preferir a luz.

Temos é de nos juntar, juntar os vizinhos, juntar as comunidades, juntar as boas vontades, para impedirmos a entrada nas trevas que nos querem impingir.

Namasté!

Nota em jeito de declaração de interesses: além de jornalista, avessa a auriculares que me fazem alergias nos ouvidos, sou vice-presidente, em regime de voluntariado, da AIPICA, uma IPSS que tem 11 infantários no concelho de Almada, e sobre a qual se fala nesta crónica.


Catarina Pires

É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 50 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *