
Olá vizinho, vizinha!
Olá, quem lhe fala aqui é o Ricardo Farinha.
Quando terminei a escola, fui para a faculdade, um passo natural, para mim. Mas esse não é ainda o padrão deste país, desta cidade. Certamente não da periferia de Lisboa onde cresci, Queluz.
Eu fui para a faculdade, vários colegas da minha idade, que viviam a meros cinco minutos de mim, foram para a prisão.
Uns nessa altura, outros pouco tempo depois. As nossas vidas cruzaram-se na mesma escola durante uma série de anos, mas tiveram desfechos distintos.
Soube, por isso, o contexto em que o crime parece a única opção – que não é, mas pode bem parecer por causa da pobreza, falta de apoio familiar, exclusão social. Nesta temática só podemos falar em zonas cinzentas — uma pessoa não é o crime que cometeu, quando muito é as circunstâncias todas que a levaram a cometer esse crime. Não quer dizer que não tenha errado, mas ignorar todas as condicionantes à volta parece-me, também, francamente incorreto. E sempre senti empatia por aqueles que, à partida, estavam muito mais condenados do que eu a terem esse desenlace. Por não terem o meu privilégio.
Quando soube que o Dino D’Santiago — que conheço, admiro e cujo trabalho acompanho — estava a trabalhar num projeto musical na Prisão do Linhó, não hesitei. Eu e a Inês Leote aventurámo-nos, resolvemos sair fora de pé e entrar pela primeira vez numa prisão para conhecer estas histórias — e um projeto chamado De Dentro para Fora, uma ideia do professor Filipe Gameiro das Neves que juntava reclusos e músicos profissionais a gravar canções, do rap à música cigana, que eventualmente irão resultar num disco.

Fazendo o movimento inverso, fomos De Fora para Dentro. Deixámos tudo menos as nossas roupas e ferramentas de trabalho no carro. Fomos identificados, registámos o nosso material, passámos no detetor de metais, fomos conduzidos a uma pequena sala de espera, passámos a primeira porta, e estávamos no pátio do Linhó, uma prisão de alta segurança de que sempre ouvíramos falar. Depois de um corredor de segurança, só um cadeado nos separava dos reclusos. Não os conhecíamos, não fazíamos ideia do ambiente. As nossas referências eram os filmes de Hollywood que pouco significam ali.
Acompanhados pelo professor Filipe Gameiro das Neves e pelo realizador Yannick Monteiro, que se voluntariou para dirigir os videoclips para todas as músicas deste disco, estávamos na escola do Linhó, onde este projeto acontece como uma atividade extracurricular. Cumprimentamos todos os reclusos, um a um, olhos nos olhos. Sem medos, sem desdém, com respeito e consideração, de igual para igual. Não éramos ninguém para julgar quem já estava a cumprir uma pena. Pelo contrário, estavamos ali para compreender as circunstâncias e para contar a história deste projeto que dá esperança e promove a reinserção.
Várias idas ao Linhó depois, uma após a outra, fomos quebrando o gelo. Conversámos sobre as suas histórias de vida, partilhámos gostos musicais, descobrimos o que os levou a quererem fazer música. Tal como na génese deste projeto artístico, registámos as suas vozes. Ouvimo-los enquanto indivíduos, num meio em que é difícil exporem as suas vulnerabilidades e onde são tratados como uma mancha homogénea… de criminosos. E percebemos que, acima de tudo, muitos deles queriam ser ouvidos.
Falámos com o professor Filipe Gameiro das Neves, com o impulsionador Dino D’Santiago, com o realizador Yannick Monteiro ou a diretora do estabelecimento prisional, Ana Paula Pardal.

Agora toma a palvra a Inês Leote.
A edição deste trabalho demorou alguns meses queríamos esperar que o álbum estivesse quase terminado. Ao editar o vídeo, ouvi os testemunhos do AC e do Poupaz dezenas de vezes, apaixonados por cantar a vida boa e as dores da vida, que conhecem desde novos. Imaginei os cadernos cheios de letras na cela de cada um, de que todos falavam com tanto apego, como se de livros sagrados se tratassem.
Revivi muitas vezes o entusiasmo do Dino ao ouvir um rap gravado à primeira, sem falhas, sobre um beat não programado. Ouvi e tornei a ouvir o Tsunami cantar Nininho Vaz Maia, com esperança de lhe mostrar que era fã. Ouvi que o melhor da prisão é a escola. Que a música une. Que a música salva.
Arrisco-me a dizer que histórias destas também salvam.
E leiam a crónica que este projeto inspirou ao Ferreira Fernandes:
Transportei-me para o pátio da escola do Linhó tantas vezes durante os últimos meses… e a primeira coisa que quis fazer quando a história saiu foi lá voltar.
Voltem connosco!
Até para a semana!
Inês Leote e Ricardo Farinha

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