Ser Florentino Ariza

É muito difícil encontrar em Lisboa alguém por acaso. Claro, a coisa bate certo se se é do mesmo bairro, se se tem em comum o mesmo grupo. Fora isso, volta e meia estamos anos sem ver esvoaçar um cabelo a que um dia achámos graça. Quem ama à primeira vista vira Florentino Ariza. Ela passa – uma qualquer – e ei-la Fermina Daza.

Em vez de Manel e Márcia, vamos usar nomes que tenham mais laivos de tensão, até porque ninguém acreditaria que um qualquer Manel amasse tanto tempo, e uma qualquer Márcia fosse amada sem saber.

Por isso, Florentino coçou o bigode no Jardim da Estrela, e Fermina passou falando com a avó. O amante ficou louco por ela, ela pensou quem sabe se. Durante meses, o amor foi um caminho – nem era preciso inventar nada, bastava percorrê-lo. Florentino sabia – julgava – que o futuro era para eles; Fermina existia, alvo de um amor que bate em cheio.

Trocaram cartas ou, em 2024, mensagens no Instagram. O que os puxava um para o outro tinha a força de um foguete e não foi o destino que os separou, foi a voz dele. Assim que Florentino teve o desplante de lhe falar fora da distância do écran, o encanto desapareceu por uma voz tão de rapaz.

Fermina desfez o equívoco, com a sua voz tão de garça, tão de seta, e acabou por casar com o doutor Urbino, das Avenidas Novas. Para lá se mudou depois da missa, ou seja, da ida ao registo civil. Fermina perdeu-se na lassidão do dia-a-dia: na longa conversa que é um casamento, uns dias falava a bem, outros a mal. Mas, sem outro remédio, nunca deixou de trocar frases e nunca deixou de as ouvir, ainda que houvesse semanas inteiras, às vezes meses, que eram monólogo e mais nada.

Florentino manteve-se intocado, virgem aos trinta, casto aos quarenta, inexperiente aos cinquenta, pedra bruta aos sessenta, sempre à espera de um dia ser polido, talvez ainda nos setenta. Tudo isto se passou em menos de três anos, e em tão pouco tempo ela conseguiu cinco ou seis filhos, e estes vieram também a ter filhos e netas, e de Fermina, que era uma só mulher, e logo qual, nasceu uma árvore genealógica inteira – ela sempre flor a regar quem a via.

Ilustração: Nuno Saraiva.

Florentino, que seguiu o destino inglório dos amantes, parecia uma personagem de um romance latino-americano, e penava o amor que lhe faltava, e só não chegava a invejar o casal feliz porque sabia que tudo era pedra na calçada – o doutor Urbino viraria episódio, e ele o claro amor da vida inteira.

Assim envelhecia junto ao Tejo, ouvindo Fausto, Vitorino, Aldina, fadistas que tratava pelo primeiro nome e por tu, e não se metia numa caravela ou numa nau porque lhe sabia demasiado a mar – e Fermina era uma coisa de terra e céu ao mesmo tempo. Lá foi ficando, enrugando-se, com as costas cada vez mais curvadas, a voz cada vez mais asma.

Uns dias, via os candeeiros a óleo, os poetas que passeavam com cartolas, fraques, bigodes finos. Outros, a meio do amor, já os homens haviam mudado e saíam à rua de calções. Assim passou a vida – sabia dela por ouvir, mas naqueles quatro anos nunca se cruzaram.

Para Florentino, pesem embora os dois AVCs e um cancro, não havia desespero porque ainda tinha esperança, ainda que um amor sem resposta desse uma vida de cão: um só ano durava cerca de setenta.

O amante passou demasiado tempo a ler. O mal da literatura é ser raro as histórias ficarem por concluir – quem se mete a escrevê-las quer chegar ao fim. Se não houver uma história decente a fazer de chão, entra o artifício da ficção, e inventa-se só para amansar os críticos, para que falem do arco das personagens, da narrativa calibrada, do diabo a sete ou a setenta.

Metido nessas engrenagens, julgando que são iguais à vida, Florentino esperou-a a cada anoitecer, a cada entardecer. Bem o vi uma vez, a olhar para o chão, tombado pela cervical doente e a vida torta, a vida doente e a cervical torta, recebendo uns raios de sol de fim de tarde a espreitar pelas araucárias do Jardim da Estrela. Ia lá tantas vezes ver se os passos dela pisavam aquele chão mais uma vez – e nada, nada dela, só a sombra, e a memória a fazê-la arder devagarinho.

Passados mais dois meses de nada, que souberam a mil anos – já os trinetos de Fermina tinham netos, e já Fermina estava morta –, Florentino deixou de estar à espera. Em vez disso, começou a procurá-la activamente. Espreitou a padaria em que a vira com a mãe – não estava lá. Foi ao Jardim da Parada, onde lhe inventara poemas – veja-se que triste, que pacóvio – tantas vezes – não estava lá. Acelerou o passo e meteu pelas Amoreiras – nada. Marquês de Pombal – népia. Saldanha – nicles. Campo Pequeno, Médio e Grande – zero.

Desceu a Almirante Reis – nem sombra. Até num cemitério de carros e motas à espera do abate fez caminho – e, perguntando, soube que ninguém sabia sequer quem era Fermina Daza. Extenuado por fazer Lisboa a pé numa só tarde – bem podia ter ido de burro –, voltou ao ponto de partida. Encostou-se a uma alfarrobeira. Tirou o lenço de mão do bolso do colete.

A cidade era demasiado grande para a encontrar por acaso – e ela, casada, a amar tanta família junta, já cadáver, deixara de actualizar as redes sociais. Florentino fechou os olhos, suspirou e, como isto é uma história de amor trágica, anacrónica, ridícula, morreu, coitado.


Ana Bárbara Pedrosa

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. Na mesma casa, pôs a cabeça em Vizela e escreveu Amor Estragado. Algumas voltas pelo mundo culminaram em Viagens com o Mehdi. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *