Quem passa pelo número 175 da Rua da Beneficência, nas Avenidas Novas, dificilmente imaginaria que o espaço onde está hoje o restaurante e pastelaria Galão 2 – bem conhecido pelos residentes daquele bairro, o Bairro do Rego – fora já um clube de rock, o ponto de encontro de uma juventude pós-25 de Abril de 1974, amantes de música e sedentos por ouvir aquela que já se fazia ouvir em Londres ou Nova Iorque. Chamavam-lhe o Rock Rendez Vous, inaugurado a 18 de dezembro de 1980, e foi aqui que tantos artistas e bandas emergentes ganharam palco – muitos dos quais ainda hoje trauteamos de cor as canções.

Luís Carlos Amaro sabe a história de cor. Foi baixista na banda A Jovem Guarda, que chegou a participar no Concurso de Música Moderna do clube. Paralelamente aos ensaios com a banda, estudava “Económicas” no ISEG (na altura denominado de ISE), e foi aqui, inclusive, que começou a dar os primeiros concertos, na cantina da universidade. Numa outra vez, organizou com João Peste – membro da banda Pop Dell’Arte – um concerto em cima das mesas da sala de convício do ISCTE, onde estudava o amigo.

Luís é um dos responsáveis pelo novo livro sobre o Rock Rendez Vous. Foto: Rita Ansone

Mas era o palco do Rock Rendez Vous que mais ambicionava: lá, tinha condições que as cantinas das universidades não tinham, um sistema de som e iluminação montado, que tinha “promoção”, e onde iam os seus “pares” – músicos, jornalistas, produtores, editores. Luís “não compreendia porque ainda ninguém se tinha lembrado de fazer um registo de memória do legado que este clube deixou”.

O Rendez Vous fechou a 27 de julho de 1990, uma morte anunciada e que tantos apelidaram de “previsível”. Mas a saudade desses tempos deu agora (e finalmente) um livro: Rock Rendez Vous: Uma história em imagens, que chega às livrarias já no dia 18 de abril – e Luís é o coordenador.

Fotografia da entrada do Rendez Vous, nas Avenidas Novas, que pode ser vista em exposição. Foto: Rita Ansone

Luís Carlos Amaro foi também autor do documentário Rock Rendez Vous – A Revolução do Rock, realizado por Ricardo Espírito Santo em 2010. O filme fez parte da programação inaugural do Avenidas, no dia do 42.º aniversário do RRV – no dia 18 de dezembro de 2022. Foi também neste dia que Tim dos Xutos & Pontapés deu a notícia que estaria a ser pensado um espaço inspirado no antigo RRV, no Oriente.

E, no início deste ano, a 6 de janeiro, este sonho tornou-se realidade.

João Santos (conhecido por “Pita), antigo técnico de som deste clube de rock e programador de sala juntou-se aos sócios João Moreira, ao DJ Xharlie – nome artístico de Carlos Almeida – e a Alexandre Basto, para inaugurarem o Rock Station – um espaço localizado a 10 minutos a pé da Estação Oriente, na antiga fábrica da Kores.

Xharlie diz que a ideia “não é ser uma continuação, mas sim um modelo de negócio parecido àquele que era o Rock Rendez Vous”.

Alexandre Basto e Xharlie estão a dar uma nova morada às memórias do Rendez Vous. Foto: Rita Ansone

Um encontro de velhos amigos

O espaço Avenidas – Um Teatro em Cada Bairro, no Bairro do Rego, no bairro do Rego, foi o sítio escolhido para o lançamento deste livro no passado dia 11 de abril. Otília Moreira, coordenadora do espaço, reconhece o simbolismo que há em apresentar este livro no bairro.

Este é o resultado da agregação de centenas de fotografias de Rui Vasco, Fred Somsen, Céu Guarda e Álvaro Rosendo, assim como de outros fotógrafos que já morreram, como Peter Machado, Pedro Lopes e José Faísca. Os textos são de Ana Cristina Ferrão e de Pedro Félix.

Neste livro podemos ver imagens únicas de Rui Veloso – que atuou na inauguração do RRV – , mas também de bandas como Heróis do Mar, Sétima Legião, Mler Ife Dada, Xutos e Pontapés, Pop Dell’Arte, Ocaso Épico, Mata-Ratos, entre outros.

Aqui estiveram presentes músicos que tiveram a oportunidade de atuar naquele célebre clube de rock, fotógrafos, antigos espectadores e curiosos sobre a história do sítio. Mas o lançamento foi, também, um encontro de amigos, em honra dos “bons velhos tempos”. “Foi muito bom ver a malta!”, repetiam.

Álvaro Rosendo, acompanhado pelos dois filhos que nasceram tarde de mais para conhecer o Rock Rendez Vous, não conseguia conter a felicidade e entusiasmo por ser um dos envolvidos neste livro. Relatou algumas das histórias desse passado e a forma como Vitor Silva, antigo manager dos Xutos & Pontapés, apoiou o seu trabalho enquanto fotógrafo, oferecendo-lhe o alojamento e alimentação quando iam atuar a alguma cidade mais longe.

É também no espaço Avenidas que podemos ver até maio a exposição “Rua da Beneficência 175“, com fotografias a preto e branco daqueles tempos.

A entrada na exposição é gratuita, ao contrário dos 200 escudos que se pagava no início do RRV para entrar – ou 300, caso estivéssemos a falar de um dia em que houvesse música ao vivo, com direito a parte do consumo (o que hoje em dia equivaleria a cerca de 1,50 euros).

Um palco que já foi cinema: as vidas do Rendez Vous

O RRV foi inaugurado a 18 de dezembro de 1980 por Mário Guia, seu proprietário. Durante mais de meio século, e antes de ser um clube de rock, foi uma sala de cinema – falamos do Cine Bélgica de 1928 a 1931, Bélgica-cinema até 1968, Cinema Universitário até 1974 e Cinema Universal até 1977.

Inspirado nas suas deslocações a Londres, onde teve a oportunidade de frequentar o The Marquee, um clube de música inglês, Mário decidiu transformá-lo noutra coisa, uma casa do rock em Portugal.

Foi também ele o impulsionador do Concurso de Música Moderna que ali acontecia, como uma maneira de criar mais dinamismo no meio musical nacional e de dar mais visibilidade ao espaço. Para além de possibilitar que as novas bandas emergentes se dessem a conhecer, o prémio do concurso permitia a gravação e edição de um álbum pela Dança do Som, editora criada para o efeito. As sete edições deste projeto tiveram um grande impacto social, no sentido em que foram capazes de motivar as bandas a cantar em língua portuguesa.

Luís Carlos Amaro lembra uma iniciativa chamada “Rock & Boxe“, organizada por Mário Guia, já no final da década de 80, em parceria com o grupo excursionista Os Económicos, que tinha uma secção de boxe e que era na vizinho do clube. Numa tentativa de “se relacionar bem com a vizinhança” e de modo a ajudar o grupo financeiramente, permitiu que os atletas fizessem uma ou duas exibições intercaladamente com o concerto da noite em questão.

Era um país e uma cidade diferentes aqueles da altura, lembra o antropólogo Pedro Félix, que participou no livro. “Um país que não tinha sequer uma forma burocrática de licenciar salas como o RRV, razão pela qual este ficou registado como espaço para ‘fados e guitarras até às 3 horas'”, lê-se no livro.

Esta e outras histórias inusitadas estão contadas na obra:

“Na noite de 2 de Junho de 1989, num concerto dos Mão Morta, no calor do momento, o vocalista fez um corte na sua perna. A situação ganhou imediatamente contornos de mito. Era o fim de uma época, da época em que no palco do Bairro do Rego foi montado o PipocaShow (1987), onde se simulou sexo em palco, em que os Pop Dell’Arte intercalaram as canções com combates de boxe, em que os Ocaso Épico serraram bonecos durante as atuações. Para alguns, era o descontrolo; para outros, a chave de ouro com que se fechavam os anos loucos de maravilha e excitação”

– excerto de Rock Rendez Vous: Uma história em imagens

O livro foi lançado no espaço Avenidas, onde nos encontramos com Luís Carlos Amaro. Foto: Rita Ansone

O Rock Rendez Vous encerrou oficialmente a 27 de julho de 1990, tendo sido demolido.

No livro fala-se de um fim anunciado e “previsível”. O espaço começava a descaracterizar-se e a ter alguns problemas financeiros. Além disso, clube “começou a tornar-se pequeno” face ao sucesso que certas bandas alcançaram. O próprio Bairro Alto “estava a ganhar outro destaque, já tinha muita oferta e vários espaços” e “o mundo foi-se deslocando”, o centro do rock foi-se descentralizando e outras cidades passaram, inclusive, a desenvolver os seus próprios concursos de música moderna.

Para Ana Cristina Ferrão “as salas podem fechar, mas as memórias não se apagam”. Foi em abril que se deu o último concerto do RRV e em junho, durante dois dias, foram leiloados uma série de objetos do clube.

Os vizinhos do Rock Rendez Vous

Na exposição do Avenidas, podemos ver um “comunicado” da direção do RRV que dá conta do seu encerramento, a mando de uma ordem do Governo Civil de Lisboa, após vários abaixo-assinados terem sido organizados pelos moradores do bairro, que alegavam “desassossego”.

Mas, “para o bem da Música Moderna Portuguesa”, a direção já estaria a “diligenciar no sentido de conseguir a sua reabertura”. O documento termina do seguinte modo:

“Haja calma, a situação é grave / mas não é desesperada.”

Foto: Rita Ansone

Luís Carlos Amaro reconhece que o barulho, o facto de os vizinhos verem uma “malta com um ar ‘muita’ estranho ali na rua” e algumas “brincadeiras parvas” que possam ter sido feitas levaram a este fecho.

O Rendez Vous poderá ter causado algum “sobressalto” em alguns dos vizinhos mas, por outro lado, outros relembram-no com saudade. Teresa Calado, cliente assídua do Galão 2 e antiga vizinha do clube, conta que sempre gostou do movimento que dava ao bairro. “Teresinha”, como é conhecida pelos mais próximos, dizia ser alguém muito “prafrentex” e “muito dada à vida citadina”, características que diz ter herdado do pai. Encarna em si esta “democracia” tantas vezes citada no livro que agora folheia.

No lugar do velho Rendez Vous vive hoje o restaurante e pastelaria Galão 2. Foto: Rita Ansone

Toda a gente podia entrar no clube, desde que comprasse o bilhete, toda a gente cabia lá dentro. Nas palavras de Ana Cristina Ferrão, “o RRV deu um pontapé na estrutura patriarcal e, finalmente, as mulheres – que tinham a vontade, a coragem e o engenho na gestão familiar para o fazer – podiam divertir-se sem constrangimentos”.

Teresa, que conta hoje com quase 74 anos, chegou a ir ao clube algumas vezes com o marido e o grupo de amigos, principalmente ao sábado. “Deixava o meu filho com a minha mãe e lá ia”.

Quando olha para as fotografias deste recém-lançado livro, relembra com carinho aquele tempo… “mas tudo passa”. Demora-se em cada página e, apesar de não se lembrar dos nomes, reconhece bem as caras, vislumbres da sua própria juventude.

Agora, o antigo Rendez Vous dá lugar ao Galão 2 que, apesar de não ter qualquer ligação à música, continua a ser um importante espaço de convívio no Bairro. Nas paredes do restaurante, tenta-se manter viva a memória daquilo que já foi aquele espaço e as suas variadíssimas vidas através de uma coleção de fotografias.

Um conceito impossível de replicar? O sucessor do clube de rock

Álvaro Rosende acredita que “é impossível de replicar aquilo”, mas houve quem tentasse. E o espaço sucessor do Rendez Vous, no Oriente, é a prova disso.

Este sítio esteve quase para se chamar Rock Rendez Vous mas, por questões de marca e por não quererem “um ligar total ao passado”, nem sequer tentaram – Alexandre Basto recusa que sejam “os velhos do Restelo”, agarrados a um passado que não é adaptado aos dias de hoje.

Apesar de na altura terem bastantes bandas de covers, gostavam de ter mais bandas de originais. “Primeiro temos uma banda, depois temos um DJ”, mas “o principal é sempre a banda”. Xharlie acredita que “[têm] casa para dar voz a todas as bandas novas”, assim como as condições necessárias, um bom sistema de luz e som.

Ainda que a ideia inicial tenha sido virar o espaço para a música rock e pop, parece que o Rock Station deu agora um passo atrás. Já na altura Alexandre Basto tinha percebido que “a palavra rock também afunila um bocadinho a perspetiva”. Por este motivo, o espaço estará em transformações durante este mês de abril: como avança a NiT, este passará a ser chamado de Music Station, sendo esta uma maneira de trazer mais géneros musicais a palco, e ser mais chamativo para os jovens.

Na opinião de Xharlie, “se fosse hoje em dia, provavelmente ninguém iria [ao Rock Rendez Vous]”: 

“Não tinha grandes condições; era um cinema aproveitado para ser sala de espetáculos. Não tinha grandes condições, nem em termos de som, nem em termos de iluminação… mas resultava. Era a única casa que havia em Lisboa que podia fazer aquilo.”

Mas, 45 anos depois da abertura do Rock Rendez Vous, fica a certeza da sua importância na história nacional. O RRV é “parte da cidade de Lisboa” e deu significado à “descoberta da língua portuguesa” na música nacional, diz Luís Carlos Amaro.

Por aqui passaram mais de 1500 espetáculos e mais de 300 bandas. Um clube que marcou o seu tempo e que continua a inspirar as gerações mais novas, filhos daqueles que hoje o recordam com saudade.


Ariana Moreira

Natural de Rebordosa, em Paredes, Ariana Moreira é aluna de licenciatura em Ciências da Comunicação na Universidade Nova FCSH, em Lisboa. Está a estagiar na Mensagem de Lisboa.


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2 Comments

  1. A rua da Beneficência, 175, não se situa nas Avenidas Novas. Fica no Rego. São localizações diferentes em Lisboa.
    É demasiado mau esse erro.

  2. Boa noite, Pedro
    Obrigada pelo comentário.
    O bairro do Rego pertence, na verdade, à freguesia das Avenidas Novas. Alguma coisa que nos esteja a escapar?

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