Quando ouvi pela primeira vez falar nos “loucos do Júlio de Matos” pensei que era uma perigosa gangue lisboeta, capitaneada por um perigoso Júlio que promovia insanidades por Alvalade. Foi logo quando cheguei ao bairro e alguém comentou “cuidado, os loucos do Júlio estão à solta por aí” e imediatamente voltei a olhar para trás dos ombros, ressabiado, como fazia no Brasil.
Só depois descobri que os “loucos do Júlio” eram os pacientes do vizinho hospital psiquiátrico Júlio de Matos que, nos finais de semana, assim como em tantos internatos, costumam ser liberados para deixarem os muros do sisudo prédio e circularem entre nós, os ditos “normais”.
Se soubessem o perigo que correm, os pacientes pensariam duas vezes antes de ir para as ruas.
“E lá sou louco para andar por aí junto destas pessoas…”, concluiriam.
O curioso é que realmente é muito difícil distinguir um dos Loucos do Júlio das outras pessoas nas ruas. Eu, mesmo, muitas vezes ando por aí perdido em meus pensamentos, errante e vacilante, meio esquisito, falando comigo mesmo, e devo ter sido facilmente confundido com um dos internos à solta.
É preciso, portanto, bastante treino e um olhar minucioso. Nesse tempo todo, já identifiquei dois deles, um rapaz alto que anda com luvas mesmo no verão e uma senhora sempre à porta do supermercado, falando com um e com outro sobre a possibilidade de lhe comprar algo. Um dia, foi a minha vez:
“O que a senhora precisa?”
“Qualquer coisa”
“Qualquer coisa?”
“Sim”
E lá fui eu percorrer as prateleiras em busca de “qualquer coisa” até encontrar algo que se encaixava no perfil desejado.
“Aqui está. Era isto?”
“Era sim.”
“Que bom”
A missão parecia cumprida, até que ela veio com esta:
“O senhor é médico?”
Fiquei sem saber o que dizer. Coitado de mim. Houve uma época que até pensei em enveredar pela psicanálise, li bastante, fiz alguns cursos para concluir que a minha vocação não era para terapeuta.
Mas para paciente.
Outros Loucos do Júlio eu reconheci no barbeiro que costumo ir no final da avenida de Roma. Uma barbearia que é um exemplo da idiossincrática desconexão portuguesa com a realidade, pois se chama Barbearia Carlos, mesmo que não haja um Carlos a trabalhar nela. E nenhum cliente nem os funcionários parecem achar isso estranho.
O que não me impede de, mais estranho ainda, compulsivamente – e os terapeutas de plantão podem dizer o porquê – de chamar todos os barbeiros lá de Carlos mesmo que, no fim, quem parece que é louco sou eu.
Bem, como a barbearia fica próxima ao hospital, geralmente às sextas os pacientes aparecem por lá para dar um trato no visual e, sejamos justos, todos os Carlos – desculpem, é mais forte do que eu – que trabalham lá prestam um excelente serviço, pois se é difícil saber o que passa na cabeça de um cliente comum em relação a um corte de cabelo, imagine na de um interno psiquiátrico.
Numa destas idas, entretanto, surgiu um Carlos que nunca tinha visto, um senhor sério de jaleco branco, apontando para que sentasse no cadeirão. O comando foi tão peremptório que não ousei contrariá-lo. Só depois de acomodado na poltrona é que me dei conta: e se for um daqueles loucos que fingem ser médicos, no caso, barbeiros?
Era tarde demais. O Carlos que nunca vi antes afiou a navalha com a destreza e o esmero de um serial killer e passou a dançar com a lâmina no meu pescoço. Era inverno e eu tremia, mas não era de frio. Em dez minutos, porém, estava feito. E bem-feito. Nem reparei no avental ensopado de suor.
Nunca mais vi o Carlos que nunca vi antes na barbearia. Uma pena, pois nenhum dos outros Carlos conseguiu fazer a barba daquele jeito.
E nunca mais, para ser sincero, nenhum outro dos Carlos fez a barba do mesmo jeito.
Há um tempo, minha relação com os Loucos do Júlio ganhou um novo capítulo, quando a médica de família me achou meio ansioso em relação a algumas coisas – como a situação geopolítica atual – e me aconselhou umas sessões de terapia no serviço público de saúde.
Esperei um tempo pela cartinha – o que não ajuda em nada na ansiedade – até que o carteiro tocou a campainha.
Qual foi a minha surpresa: o consultório da terapeuta ficava no Júlio de Matos. Achei o sinal de alguma coisa, só não soube precisar do que era. Bem, rumei meio receoso, atravessei o imenso portão de ferro com jeito de entrada de presídio e contornei os prédios tristes e severos até o encontro da doutora. Tudo tranquilo.
E tem sido assim desde então.
Durante esse tempo, nas minhas idas ao Júlio tenho feito algumas descobertas, como o restaurante aberto ao público que até um dia destes tinha o melhor nome de restaurante de Lisboa: Psicoprato. E serve uma dourada grelhada de primeira, daquelas de se perder o juízo.
A terapia vai bem, tanto que a doutora tem começado a falar em me dar alta, o que antes de ser uma boa notícia, é um problema: o que mais há dentro de um hospital psiquiátrico é quem se ache normal, e andar por lá a se vangloriar “eu sou normal, eu sou normal ” acaba por ser a melhor maneira de nunca mais sair dele.
Bom, se não ouvirem mais falar de mim por estes dias é que fica difícil escrever com a camisa-de-força e o wi-fi nem sempre funciona na solitária.
Mas não se preocupem, estou bem.
Eu e os demais Loucos do Júlio.

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Algumas vezes, nas minhas passagens por Lisboa (Alvalade), me deparei com os pacientes do Hospital. São tranquilos … Breve estarei aí e vou prestar atenção se identifico o autor. Rssss