“À vontade do freguês” é uma série de 24 reportagens sobre coletivos que fazem da cultura território participado. Um por freguesia de Lisboa. Entre as histórias de quem os dinamiza e a reflexão sobre o associativismo, percorremos espaços que resistem ao tempo ou que acabam de nascer, mas que partilham a vontade de cultura e de comunidade. No fim, teremos o mapeamento de uma geografia imperfeita, mas profundamente generosa. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
À porta da Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense (SFUCO), numa sexta-feira à noite, está um grupo de mulheres e homens à conversa, copo na mão, ritual que se percebe que vem de trás. Vivem perto, ali nos Olivais, uns foram trazendo outros e hoje já nem precisam de combinar, sabem que, se vierem, encontrarão alguém.

“É uma espécie de ponto de encontro. Mesmo na pandemia, quando isto estava fechado, vínhamos e ficávamos ali no parque de estacionamento, fora dos carros, a conversar”, conta Magda. Filomena, lisboeta a viver em Oeiras, só se não puder é que não vem todas as sextas-feiras. E Raquel, na casa dos 40, é frequentadora desde os 14. “Eu e a minha irmã tínhamos uma amiga que tocava aqui na banda e vínhamos com ela. Ficávamos aqui enquanto ela ensaiava.”
Os laços foram-se criando, já nem se lembram como, mas é o convívio que os traz cá. E não faltam memórias sobre os tempos em que havia grandes bailes, festas e arraiais.
“Isto enchia-se de gente. Também havia o snooker, o dominó, as cartas, faziam-se torneios, a malta vinha ver os jogos de futebol na televisão. O bar chamava muita gente”, lembra Sebastião.
Magda acena que sim. “O espaço é ótimo, lá dentro e cá fora, na esplanada. Isto tem imenso potencial. Mas quem assegura o funcionamento são pessoas da direção, voluntárias. São só três e estão mais velhos, já não têm a mesma disponibilidade. Antigamente, isto fechava às tantas. Hoje fecha às dez.”

Joana lamenta que o dinamismo da SFUCO não seja o mesmo de há umas décadas, mas teme sobretudo pelo futuro da coletividade. “O coração desta casa é a banda filarmónica. Eu nunca toquei, mas gosto muito de estar aqui em baixo e ouvi-los lá em cima a ensaiar. O meu avô estava ligado às bandas filarmónicas, por isso é que sou sócia, para apoiar. Não imagino os Olivais sem a SFUCO”, diz.
Numa conversa à porta do bar, a maioria dos dilemas com que a SFUCO se debate: o que foi, o que continua a ser e o que poderá vir (ou voltar) a ser.
“Temos muito orgulho em apresentar sempre a ‘prata da casa’”
Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense. Fundada em 1 de Junho de 1886. Instituição de Utilidade Pública. 139 anos (quase 140) ao serviço da cultura.
A carolice da direção tem permitido manter a escola de música, a orquestra juvenil e a banda filarmónica, que conta com cerca de 60 músicos, quase todos formados na casa. Por aqui já passaram milhares de jovens músicos e daqui já saíram excelentes instrumentistas que fizeram da música profissão.

O trabalho desenvolvido é espelhado por uma programação regular: concertos de Ano Novo, Primavera, aniversário, o Festival de Bandas Filarmónicas, participações externas, encontros, intercâmbios.
A conduzir a banda da SFUCO está há 13 anos, o maestro Luís Ferreira, cujo percurso começou longe de Lisboa, numa banda filarmónica da Maiorga, perto de Alcobaça, onde se estreou “com 11 anitos”.
Cresceu nesse ambiente exigente das bandas de aldeia, “às vezes acabávamos à uma da manhã e no dia a seguir estávamos às oito a começar outra festa”, antes de seguir para o Conservatório Nacional e, mais tarde, integrar a Banda da Marinha.
Chegou à SFUCO por uma rede de contactos típica do meio musical: “nesta coisa da música nós vamo-nos cruzando”. Veio substituir o anterior maestro, iniciando um trabalho que entende como coletivo.
A sua visão da casa organiza-se em torno de um percurso formativo claro, da escola de música até à banda. “Está tudo estruturado: aprendizagem individual, orquestra juvenil e depois a banda”, explica, sublinhando a importância desse caminho gradual.

Ainda assim, reconhece as dificuldades: “se tiver dez alunos e conseguir três ou quatro que cheguem à banda, já é um bom rácio”. Num tempo em que “é tudo muito rápido” e há múltiplas distrações, a música exige persistência e trabalho individual – “é um trabalho solitário, é preciso estudar” – o que faz com que muitos desistam pelo caminho. Apesar disso, a escola continua ativa, com uma equipa de professores e novas gerações a entrar, num ciclo constante de renovação.
Como maestro, faz questão que a banda se apresente sempre com “prata da casa”, entre adolescentes e veteranos, espelhando a diversidade da própria coletividade. Ensaiam duas vezes por semana, à segunda e à sexta, e asseguram uma programação de concertos ao longo do ano, entre datas fixas e convites externos.
“Tenho muito orgulho no trabalho que temos conseguido fazer”, diz, destacando o carácter partilhado desse esforço.
À renovação de que fala não será alheio o facto de a escola continuar a funcionar com mensalidades simbólicas, instrumentos cedidos e um corpo docente qualificado. “Hoje temos seis professores, todos com formação superior”, explica Luís Ferreira. “E estão cá quase por missão, não pelo que recebem.”
“Na banda, somos todos iguais”
No palco onde decorre o ensaio, o ambiente é de boa disposição. A banda é quase família, quando não é mesmo, porque laços de parentesco não faltam na SFUCO, onde a música está no ADN e vai passando de geração em geração.
Inês, de 15 anos, e a irmã mais nova, que entrou agora, já são a terceira geração. O pai, Nuno Gomes, que atualmente faz parte da direção da coletividade, tocou na banda, assim como o bisavô, avô do pai. E como Inês, há vários.
Carla, flautista, prepara-se para celebrar 50 anos de casa. Entrou aos oito. “Isto é um vício”, diz. “Mesmo quando tento ficar em casa, começo a pensar porque é que não estou aqui.”
Recorda um tempo em que os ensaios tinham público: “Os pais e os avós vinham assistir, traziam o croché, os piqueniques. Era muito divertido.”




Catarina, que entrou também em criança, porque o pai queria que as filhas tivessem formação musical, confirma essa dimensão afetiva: “Ainda não cheguei aos 50 anos de banda, como a Carla, porque só tenho 38, mas já vou nos 25 de SFUCO e 20 de banda. Fiz uma interrupção de ano e meio, mas quando o maestro Luís Ferreira entrou, voltei, pelo gosto de tocar, mas também pelo ambiente e pelas pessoas”, diz.
“A Carla e o Luciano que estão cá há 50 anos, são casos raríssimos, atualmente”, diz o maestro.
A história de Luciano Salgueiro, 63 anos, é curiosa. Entrou aos 10, em 1972, trazido pelo pai, também músico, com um objetivo: “queria que eu aprendesse música para, quando fosse para a tropa, não ir para a frente de batalha”. A guerra colonial acabou pouco depois, com a revolução de Abril de 1974, mas Luciano ficou. “Isto é praticamente a minha segunda casa”, diz, resumindo cinco décadas de ensaios, concertos e convivência.
Ao longo desse tempo, construiu ali as suas relações mais forte: “as minhas principais amizades estão aqui”. Mesmo tendo seguido uma carreira fora da música – licenciou-se em gestão, trabalhou toda a vida na banca e só recentemente se reformou –, manteve-se sempre na banda.

Mas, para Luciano, a importância da SFUCO vai além da música. É “uma escola social importantíssima”, onde se aprende a ouvir os mais velhos, onde se fomenta a partilha e o espírito de equipa, e onde se diluem as diferenças sociais.
“Aqui não interessa se és licenciado ou tens a quarta classe, se és rico ou pobre ou que cor de pele tens. Vivemos todos na mesma casa e somos todos iguais. Se tocas trombone, és trombonista, se tocas clarinete, és clarinetista. Trabalhamos todos para o mesmo objetivo e esse espírito é muito importante”, diz Luciano, sem querer desvalorizar o papel cultural “fundamental” da SFUCO, sobretudo por garantir o acesso quase gratuito ao ensino da música.
“Só quem não quer é que não vem aprender. Estas coletividades são os primeiros conservatórios”, espaços abertos a todos, independentemente da origem ou condição.
“Quem não fosse sócio da SFUCO… não era um bom olivalense”
Perto de completar 140 anos de existência, a SFUCO atravessou regimes políticos, alterações sociais, transformações urbanas e mudanças profundas na vida social dos Olivais sem nunca interromper a atividade. Essa continuidade é, para quem a dirige, um dos seus maiores patrimónios.
“Conseguimos manter-nos fiéis à ideia original: promover a cultura associada à filarmonia”, diz Nuno Gomes, um dos mais recentes elementos da direção. “Podíamos ter seguido outros caminhos, como muitas coletividades fizeram, mas mantivemos este foco.” Um foco que se materializa na escola de música e na banda filarmónica – os núcleos duros da coletividade.
Joaquim Silva, 82 anos, presidente da direção há 20, tem sido um dos guardiões do património de que fala Nuno Gomes.



A ligação à SFUCO vem do berço. Bisneto de um dos fundadores – João Maria da Silva – Joaquim brinca dizendo que nasceu lá. Não terá sido bem assim, mas crescer, cresceu, sempre acompanhando o pai, que tocou na banda “até morrer”. Já ele nunca aprendeu música, preferiu dedicar-se ao associativismo e é por isso que leva mais de metade da vida como dirigente da coletividade.
“Se tivesse aprendido música vinha à segunda e à sexta… assim tenho que vir dia sim, dia não, mesmo doente”, queixa-se. Dir-se-ia que quem corre por gosto não cansa, mas Joaquim Silva está aflito de um joelho, não pode correr. Mesmo assim vem.

Como desenhador projetista, esteve profundamente envolvido no projeto e na construção da atual sede, inaugurada em 1991, propriedade da SFUCO. Recorda esses anos como um período difícil, entre obras inacabadas, mudanças provisórias e o risco de a banda desaparecer.
“Ensaiámos em vários sítios, andávamos com os instrumentos às costas, mas tinha de ser porque se a banda acabasse, a casa perdia o sentido. Foi preciso ter muito amor a isto”, diz.
Um amor que lamenta não ver hoje nos sócios da coletividade, que já foram três mil e atualmente andam pelos 560. Antigamente, “quem não fosse sócio da SFUCO e do Sport Club dos Olivais não era bom olivalense”, diz, a rir. Um riso que esmorece quando lembra a dificuldade que tem tido em formar listas para a direção.
“Chegámos a ter aqui vinte dirigentes, hoje somos oito. Fazíamos os arraiais dos Santos Populares e não cabia nem mais uma pessoa. Lembro-me tantas vezes das passagens de ano aqui. Era tão bonito. Porque é que já não há? Porque não há gente. A minha mulher muitas vezes dizia-me: leva para lá a cama. Isso já lá vai o tempo”.
Poderia pensar-se que Joaquim Silva ouviu a conversa do grupo de amigos à porta do bar (e está a dar-lhes uma chazada).
“Somos a casa da música e da cultura dos Olivais”

A sede da SFUCO impressiona quem entra. Um espaço exterior fantástico com uma esplanada que, em dias de sol, será certamente muito agradável e um edifício de quatro pisos (valha-lhes o elevador), com um bar enorme, uma biblioteca e sala de leitura, salas de convívio e de jogos, no piso térreo, um auditório com mais de 300 lugares no primeiro piso, salas de arrumos e acesso ao balcão no segundo piso e salas de aula e da direção no terceiro piso. Um conjunto de condições raras numa coletividade urbana.
Tanto Jorge Ribeiro, vice-presidente, como Nuno Gomes, secretário, concordam com o grupo à porta do bar relativamente ao potencial do espaço, mas também eles, que são dois dos elementos mais novos da direção, partilham o lamento de Joaquim Silva. A falta de gente para aproveitar esse potencial.
“Temos ideias, temos espaço, mas não temos pessoas”, diz Jorge. “Já não se faz malta como o Zindo, o Pita e o Ferreira, que fazem turnos, trabalho voluntário, para assegurar o bar, que é a nossa principal fonte de receita. Hoje, cada um tem as suas vidas profissionais, os seis afazeres e isto exige tempo e presença.”
“É verdade, todos reconhecemos o potencial, mas falta o mais difícil, que é o capital humano para fazer as coisas acontecer. É muito mais fácil identificar que o espaço podia ser mais dinamizado do que envolver-se na dinamização”, reforça Nuno.



Ainda assim, Jorge defende uma maior abertura da coletividade ao exterior e à comunidade, seja através de parcerias, seja com iniciativas que tragam novos públicos. Evoca experiências bem-sucedidas – concertos cheios, colaborações pontuais, atividades com escolas – como sinais do que poderia ser feito com mais continuidade.
“E temos feito. Ainda agora, a 21 de março, demos aqui um concerto – Bandas Sonoras da Nossa Vida – que teve casa cheia, tal como o de Ano Novo, e sempre com repertórios diferentes”, diz Jorge Ribeiro, referindo que, também este mês, os ensaios livres dos coros infantil e juvenil Regina Coeli de Lisboa, da Concertato, associação com a qual têm estreita relação, tiveram grande adesão.
“E em janeiro, tivemos cá a Big Band da Metropolitana. Isto para dizer que, num bairro como os Olivais, temos condições que já não existem em muitos sítios do país”, sublinha, convidando os olivalenses a virem mais.
Nascido e criado nos Olivais, Jorge Ribeiro tem com esta casa uma relação familiar. O pai é músico e sempre esteve ligado à banda e Jorge seguiu-lhe os passos. Trombonista desde miúdo na filarmónica, fez da música profissão e, durante quase 40 anos, integrou a banda da GNR. A SFUCO sempre foi a continuação de casa. “A maior parte dos meus amigos vem daqui”, diz, lembrando os tempos dos bailaricos cheios e da intensa atividade cultural.

Hoje, vê na SFUCO, da qual aceitou ser vice-presidente, uma coletividade que continua a ter impacto – sobretudo entre os mais novos e os mais velhos que ali encontram convívio – mas menos central na vida do bairro. É por aí que, acredita, passa o futuro da coletividade, por uma reaproximação e aprofundamento da relação com os Olivais. A freguesia só tem a ganhar com isso, com esta casa centenária de cultura, de música e de pertença.

Catarina Pires
É jornalista e mãe do João e da Rita. Nasceu há 51 anos, no Chiado, no Hospital Ordem Terceira, e considera uma injustiça que os pais a tenham arrancado daquele que, tem a certeza, é o seu território, para a criarem em Paço de Arcos, terra que, a bem da verdade, adora, sobretudo por causa do rio a chegar ao mar mesmo à porta de casa. Aos 30, a injustiça foi temporariamente corrigida – viveu no Bairro Alto –, mas a vida – e os preços das casas – levaram-na de novo, desta vez para a outra margem. De Almada, sempre uma nesga de Lisboa, o vértice central (se é que tal coisa existe) do seu triângulo afetivo-geográfico.

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