O que se passou com o Benfica no Estádio da Luz, a 17-02-2026 – terça-feira mais do que errada – precisa de ser cotejado com outra data: Alemanha, Estádio de Frankfurt, a 24-04-1938 – um domingo abjeto. Este dia de há 88 anos foi indigno: a seleção de futebol alemã estreava sua camisola com a suástica ao peito.

Na terça-feira passada, sentado, numa bancada à distância curta de um telemóvel que filmava, usando o cachecol como um guardanapo, um adepto pensava que o símbolo do seu clube exposto podia ser limpo. Não é “podia”, é: não precisava! Ele, o adepto, é que devia ser limpo. Todo o pobre diabo era um equívoco. 

A mulher dele gritava e ele assobiava, ambos protestavam, mas tinham direito a isso, caramba, era um estádio, lugar de emoções. Outra coisa foi ele ter mimado um gorila e com ombros agitados gritar: “Ho… Ho… Ho…” Um soslaio à mulher, e ficámos todos a saber, pelo telemóvel que os filmava, que a mulher o desprezava. Enojada pelo racismo dele, ela calou-se e olhou em frente, como se tivesse vindo à bola sozinha.

Ele lá ficou, o sorrisinho encabulado. Sentença? Podíamos ser duros: deixá-lo entrar no próximo jogo do Benfica na Luz (sábado, contra o Aves) e exibir-lhe o vídeo nas trombas, durante o intervalo. O clube, se o quiser, sabe onde encontrar o vídeo.

Além deste tolito, esta terça, houve um 25 com chuteiras e camisola de futebol, mas um disparatado em geral. Chutando, era para o poste de luz do estádio; entrando na grande área alheia, tropeçava no próprio tornozelo e pedia penalty… A falar, não sei se era um racista, mas era (vá lá, não tão grave) um cobarde: corria para o adversário como quem queria lançar um remoque, mas escondia o que dizia para dentro da própria camisola.

Os da comunicação do Benfica aproveitaram para se escudar também atrás da tecelagem: se os fios não permitiam ouvir o que o desbocado (literalmente, de boca tapada) dizia, como é que os acusadores podiam acusar de haver racismo? Neste ponto estou de acordo: “mono”, “sono” ou “quimono”, “hermano” o que foi dito? Sei lá.

Mas confirmado o tresler comunicativo do 25, tão prejudicial para o clube, não seria mais útil começar a pensar como despachar o inútil?

Olhem, o brasileiro Vinícius Jr. pode não ser melhor na comunicação, demasiado espaventoso para meu gosto, mas o chutar dele para o longínquo canto direito, vai buscar, é mais certeiro.

E aproveito a pequena autocrítica que me faço – que tenho eu a ver com o espavento que um futebolista faz em campo, se cumpre as leis do jogo e do país? – passo às palavras pessoais mais comprovadamente irresponsáveis daquela noite. Crime, houve – e de racismo, gravíssimo – mas mesmo os que se ouviram não se podem ainda imputar a alguém.

Agora, esta terça, mais do que um crime, uma falta, fez José Mourinho, de forma comprovada. A frase já foi dita contra Napoleão – significa aquilo que, mais do que um facto imoral ou criminoso, pode ser um erro irresponsável e de consequências incalculáveis.

Falo daquela sonsa comparação de Mourinho: “Falei com as duas partes” (o seu jogador, Prestianni, acusado de racismo e o acusador Vinicius Jr., do Real Madrid). Dito isto, o treinador do Benfica acrescentou que “o estranho” era que estes incidentes aconteciam sempre só com o Vinicius Jr. vítima. Comparação tola quando a polémica mais recente aconteceu no estádio Santiago de Bernabéu, do Real Madrid, as vítimas eram futebolistas do Barcelona e a polícia espanhola prendeu os racistas.

Mas José Mourinho teve o descuidado de especificar outra coisa: que Vinicius Jr. marcava belos golos, mas depois estragava-os. Que ele exagerava demasiado no festejo dos seus golos e isso levava à natural indignação dos goleados. Cujos protestos levavam a protestos de Vinicius Jr. E assim por diante.

Pára o baile. 

Para já, ouvir Mourinho criticar exuberâncias histriónicas públicas dá para rir a quem já o viu em pinotes nos estádios. Mas até a isso não lhe nego o direito, embora num treinador nunca há contexto de causa e efeito que mereça tamanha jactância pública. É que o feito de treinador é sempre menos visível do que quando um atleta o faz. Sim, no precedente Benfica – Real Madrid, ele mandou avançar, e bem, o seu guarda-redes Turbin para a grande área contrária. Mas o que fez o Turbin foi mais notável: cumpriu a ordem e consumou-a. O que não impediu Mourinho de dar pinotes.

Ele será o Special One, mas os artistas são ainda mais especiais. A estes é que são reconhecidos os feitos. Por isso mais anseiam publicamente por aplausos e festejam mais exuberantemente.

Para os treinadores, o reconhecimento da ciência dos textos de António Tadeia e Jorge Valdano. O Vinicius Jr. é mais para mim, do povo ignaro, mero espectador. Eu que já estive naquele estádio, agarrado a um polícia, aos pulos, a celebrar um crime de outro goleador de letra tardia, Vata, um golo marcado com a mão.

Quer um treinador de futebol policiar os festejos de golo, no país do Cristiano Ronaldo que também viola sempre a bandeirola de canto e repete o grito do conquistador? Quer regulamentar os festejos? Eu também preferia os meneios de Ronaldinho Gaúcho, com o seu eterno sorriso gentil, em vez da dança de um tipo tão feio como o Vinicius Jr, ou o anúncio comercial do Cristiano Ronaldo, e depois? 

Ora, quando no nosso estádio (seja ele qual for) começa a aparecer um adepto fingindo de gorila, coros racistas cobrindo ilhas que se expandem nas bancadas, comentadores televisivos que sugerem que as vítimas de insulto, elas, estavam era a pedi-lo, futebolistas que já insultam, embora, ainda abafado pela camisola – é uma tolice (mais do que crime, uma falta) que um importante treinador chute para canto o racismo e se refugie em 4-3-3 e conversa de médios-ala, como se estivéssemos em tempos de táticas da tanga para combater a indignidade.

E tudo, ou quase tudo, sem saber como provar a ponta de um corno do racismo, embora com convicções indignadas – e, pior, com boas probabilidades de se confirmarem – que os racistas estão aí e organizados para estarem mais aí.

Os tempos são os seguintes, como disse no início desta crónica. Esta terça-feira do Estádio da Luz foi errada e temos de a comparar com outra data, na Alemanha, no Estádio de Frankfurt, um domingo abjeto, 1938. Nesse dia, a seleção de futebol alemã estreava sua camisola com a suástica ao peito. O racismo não era um provável grito de bancada, que talvez tivéssemos ouvido, talvez só mero engano. Passara a ser lei.

Era lei. Não era aparência, era mais que facto, era coisa para cumprir. És macaco, não porque da bancada pareces mais prognata, mandíbula mais forte, mas porque a lei diz que és inferior.

Comecemos então pelo nojo daquele dia alemão para sublinharmos o despropósito de termos chegado ao quase nojo recente desta última terça-feira portuguesa. Não, não somos isto que esta terça-feira parece. Peguemos na câmara de um filme que ainda não foi feito, e deveria.

Vou mostrar-vos o que somos. Que ninguém me convence que não somos.

Numa manhã de 1938, corriam dois homens pelo cais da Estação de Rossio, em brincadeira que era também competição. Um deles escreveu, na autobiografia, um capítulo que abria assim: “O Sud-Express abalou da Estação do Rossio levando consigo a Equipa Nacional de Futebol, da qual, graças a Deus eu fazia parte. Como suplente? Como efetivo?”

Quem escrevia era o branco africano Fernando Peyroteo, avançado-de-centro do Sporting, nascido na Humpata, Angola (1918). E o outro era o negro europeu Guilherme Espírito Santo, avançado-do-centro do Benfica, nascido em Lisboa (1919).

BD da série Crónicas de Lisboa, por Nuno Saraiva e Ferreira Fernandes.

Graças aos dois e ao nascimento da radiofonia, o futebol destronou o ciclismo e, no final da década de 30, tornou-se o maior desporto nacional. Em Montalegre, Trás-os-Montes, o Campo das Amoreiras era tão famoso como os campos de batatas; em Loulé, Algarve, todos sabiam quem era Peyroteo e quem era Espírito Santo, e poucos quem era o negro e quem, o branco.

No campeonato, os dois disputavam quem marcava mais, quem seria campeão e qual deles, na seleção, iria jogar. Tanto para disputar. Vejamos como lutavam entre eles.

Naquela corrida no cais, eles disputavam o beliche de cima daquele compartimento de dois lugares. O selecionador Cândido de Oliveira, lenda do futebol português e Mestre de homens, juntara os dois rivais, porque eram os mais notórios amigos do grupo.

O benfiquista, esguio (foi também recordista português de salto em altura durante 20 anos), quis ficar no beliche de cima: “Senão fico esborrachado com os teus 80 quilos bem pesados!” Os companheiros atiçavam a brincadeira: “Se ao jantar ou almoço, no comboio, o Guilherme, por gentileza, me servia vinho, logo alguém comentava: «Isso, isso, embebeda-o, assim jogas tu…»”

Resumindo, escreveu Peyroteo: “Guilherme Espírito Santo e eu fomos companheiros inseparáveis”. Não só partilhavam o compartimento do comboio, como o quarto do hotel e a descoberta, de passagem por Paris, as novidades da Europa: umas máquinas de espreitar, que a custo de uma moedinha de cinco francos iam desnudando uma mulher que corria. 

Tinham 20 e 22 anos, os nossos rapazolas. O negro e o branco? O sportinguista e o benfiquista? Sei lá! Riam e abraçavam-se, os amigos.

Em Frankfurt, o estádio estava cheio e a anormalidade patenteada na camisola alemã, com a cruz gamada. Território e equipa só de brancos e não só por razões demográficas, a lei não permitiria outra coisa: se toda Alemanha passara a ser raça pura e superior, quanto mais o deveria ser uma seleção dela…

Enfim, o treinador Cândido de Oliveira decidiu quem seria o avançado-de-centro português. Escolheu Peyroteo, possante e de chuto forte. Para a sua estreia internacional ele era o mais adequado para defrontar uma defesa atlética. Ora, num jogo amigável, a escolha poderia ter sido feita para não ofender os anfitriões, ainda por cima aliados do governo de Lisboa. Peyroteo era africano, mas branco…

Que bom isto ser uma história de homens lisos. É que não é possível admitir que Cândido de Oliveira decidisse fazer uma equipa por razões políticas! Pouco depois, em 1942, ele seria preso pela polícia política de Salazar, torturado, com os dentes partidos e mandado para o campo do Tarrafal, em Banco Verde.

Foi pena as razões táticas do futebol, as únicas a que se sujeitava Cândido de Oliveira não tivessem apontado para o benfiquista Guilherme Espírito Santo. No dia em que pela primeira vez a supremacia da raça branca foi proclamada numa equipa europeia, Portugal teria alinhado com um lisboeta negro a ponta-de-lança…

Essa sim, em 1938, seria a lógica natural e simples daquele clube que na terça-feira passada passou por uma diarreiazita passageira e anómalos protagonistas.

Como aqui na Mensagem de Lisboa repetidamente se conta, porque assim é e assim tem sido e tão importante é saber-se. O Sport Lisboa e Benfica foi dirigido durante sucessivas eleições, de 1917 a 1926, por Bento Mântua, um mestiço, nascido em Luanda, de mãe negra. Contemporâneo, entre muitos exemplos, do mestiço Aníbal Paciência, que viria a jogar no Sporting de Lisboa, ao lado de Peyroteo.

Um mestiço, presidente de clube português, quando outro português, por acaso, nascido no bairro de Benfica, Lisboa, era presidente do Vasco da Gama, Rio de Janeiro. Este, José Augusto Prestes, que em 1924 publicou uma carta, que ficou célebre como Resposta Histórica. Era um simples “não”. Não, dizia o lisboeta a todos os outros presidentes dos clubes do Rio, não, o Vasco da Gama não aceitava retirar doze dos seus jogadores, por serem negros e mestiços. Foi campeão com eles em 1923 e 24, e tendo de os despedir, o Vasco da Gama preferiu não participar no campeonato de 1925.

Nesses anos, preciso de o lembrar?, o presidente do Benfica de Lisboa era um mestiço. Em 1958, o Brasil foi pela primeira vez campeão do Mundo e na final, 7 jogadores brasileiros eram negros ou mestiços e, dos 5 golos marcados, 4 foram partilhados, por 1 negro e 1 mestiço. 

Não é aritmética. É o mundo a avançar. Atraso é Louis Armstrong ser despedido porque aquele clube de jazz não aceita negros.

Quando em 1908, o Sport Lisboa e Benfica estava quase sem jogadores e não tinha campo, foi um miúdo de 16 anos, o santomense Marcolino Bragança, que foi ter com os colegas mais velhos e respeitados e os convenceu a juntar os juniores à equipa principal, quase exangue. A ressurreição fez-se.

Em 1969, o Benfica, já bicampeão europeu, foi a Luanda. A equipa foi visitar Marcolino Bragança, que os recebeu na casa dele, em Luanda, vejam a foto do velhinho negro, no quintal, cercado pelos já bicampeões europeus, mitos que foram agradecer a quem permitiu o mito. Entre os visitantes, Eusébio e Coluna. 

Coluna, o mestiço “Sr. Coluna”, como nós ouvíamos os brancos Simões, Cavém ou José Augusto, tratar o seu capitão. Há 60 anos, quando tão poucos não brancos havia nas equipas europeias, quanto mais um capitão! 

O que me irrita a humilhação que uns merdosos me causaram na terça-feira. 

Eusébio que está no Panteão Nacional, ao lado da Amália, e antes disso impunha silêncio ao estádio inteiro. Não é que na Luz se gritasse “Macaco! Macaco!” Era silêncio, mesmo, tão profundo como Amália tinha antes de cantar um fado. O negro Eusébio ia marcar um livre a trinta metros da baliza. Daqueles livres que ainda há dias (a exposição acaba hoje), o Canadá ofereceu a Portugal, num quadro retratando-o, perna esticada e certa, braço erguido de vontade. E nós, cidadãos, em silêncio. Como nos compete a quem tanto devemos.

Homenagem aos Afro-portugueses notáveis que tanto fizeram por Portugal, chama-se a exposição canadiana. É gentil a exposição canadiana, mesmo, muito. Já a fazíamos também há muito. Com silêncio.

No fim da digressão de 1938, a seleção foi jogar contra a Suíça à cidade italiana de Milão. Num dos dias de repouso, a equipa preferiu uma americanada no cinema. Só os nossos amigos foram ver os bastidores do Scala. Um porteiro, a quem Peyroteo e Espírito Santo se apresentaram, abriu-lhes a Ópera, “fez subir e descer cenários, mostrou os camarins de cantores célebres como o tenor Gigli, a soprano Caniglia e o barítono Bechi…”

Não está escrito, mas deito-me a adivinhar o que tanto violino italiano levou dois futebolistas portugueses a conversas. “Por que sabes tanta ópera, Fernando?”, lançou um. “Conheço nada, Guilherme, mas uma minha irmã, a Berta Bívar, cantora lírica, foi casada com o Vianna da Motta”. E o outro, deliciado pela coincidência: “Sabes que o maestro nasceu na mesma ilha da minha mãe, São Tomé?” Há destinos assim, tão viajados e tão reencontrados.

No ano anterior, 1937, num Sporting-Benfica, Peyroteo marcou o seu primeiro golo em Portugal e repetiu; o seu adversário e amigo também marcou dois golos e outro sportinguista e mestiço luandense marcou um. Num jogo de 5-3, na autobiografia, Peyroteo sublinhou os golos da sua identidade misturada: “Espírito Santo, Aníbal Paciência e eu a marcar.”

Em 1949, Espírito Santo e Peyroteo acabaram a carreira. O clube do sportinguista combinou um jogo amigável com o Atlético de Madrid para arranjar uns cobres para o seu jogador. Peyroteo impôs um desejo: antes desse desafio, a seleção de Lisboa jogaria com a seleção dos africanos que jogavam em Portugal. O angolano Peyroteo, nesse dia, jogou pelo seu Sporting e pela sua seleção de africanos (com o amigo ao lado, claro).

Espírito Santo, lisboeta, continuou a praticar atletismo no seu Benfica. E a praticar outras coisas com os seus camaradas da Casa dos Estudantes do Império, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Amílcar Cabral, futuros líderes das independências africanas.

Eu chamaria a esta minha crónica Autobiografias, história de homens. The End, coisa para prosseguir.

Desculpem, desculpem, só mais uma coisinha.

Peyroteo também foi selecionador nacional, foi ele que chamou pela primeira vez Eusébio. E da última vez que Peyroteo selecionou, foi para o Inglaterra-Portugal, em Wembley, 1961, que vou descrever com este texto: “Costa Pereira, Cavém, Lúcio, Hilário, Mário Lino, Coluna, Pérides, Vicente, Águas, Eusébio e Iaúca.” 

Só um jogador era do retângulo europeu português, Cavém. E mesmo esse, nascido em Vila Real de Santo António, que esteve para nos falhar por poucos metros. Nada como a ironia para desarmar os que insistem em não entender Portugal.

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Ferreira Fernandes

Nasceu em 1948 em Luanda. Jornalista – um ponto é tudo.

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1 Comment

  1. Caro Ferreira Fernandes,
    Qual a razão para uns serem mestiços e Eusébio ser negro?
    O pai de Eusébio era tão branco como o pai de Peyroteo, embora angolano de Malange.

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