No alto da colina, a vida insiste em ser mais do que existir, e é aqui que surge uma mancha verde. Um Bloco? À espreita, no domingo de Carnaval, apareceu gente pronta para envolver o Largo da Igreja num forró capaz até de fazer dançar a nossa cinzenta cidade e acordar o Lagarto da Penha adormecido aqui por baixo. Este bairro não vive de ilusões nem de provocações intelectuais, pois carnavalar só poderá ser a afirmação de muitos, de todos os corpos. E este bloco de gente trouxe a energia do Sul, com tão má fama por estes dias.
Não conto nenhuma novidade, o Carnaval de Lisboa sempre foi coisa meio deprimente. Corpo meio descoberto, a outra metade pronta para regressar ao sofá. Um carnaval frio, pobre, desorganizado. Ou, pior, demasiado organizado. Mas as caixas de comentários na segunda-feira pareciam bares às três da tarde: vazios, silenciosos, apenas com dois rezingões ao balcão.
O Carnaval transformou-se, pelo menos aqui na Penha de França. Um equilíbrio instável entre disciplina e caos. A sonoridade deixou de se limitar ao samba previsível ou ao pimba tímido. Os blocos brasileiros trouxeram diversidade, ousadia e pulsação. Existem ajustes, existirão mal-entendidos. Claro, mas percebe-se a abertura para reinventar a festa em convivência. A Penha descobriu a força da comunidade brasileira que já criou tradição. O novo tradicional. Espírito coletivo, capacidade de mobilização, desejo de festejar o simples facto de estar vivo. Um cruzamento luso-brasileiro, íntimo e singular. Não faltarão os que clamam “ocupação!” ou “e os nossos caretos?”, mas serão, como sempre, os mesmos que se rendem a outras hegemonias culturais embaladas em inglês e estratégia de marketing. Hallo, ween?
Descemos a Poço dos Mouros e o sol reaparece como se tivesse sido convocado por carta atlântica. Tochas verdes, sorrisos pincelados em rostos similares, tanta gente que a Penha parece maior que alguma vez foi. O Lagarto da lenda continua sereno lá em cima, a observar tudo, enquanto milhares de corpos serpenteiam as suas esquinas. Faz-se Carnaval de carne, família sem sangue, irmãos a bater o osso no alcatrão. A língua nos une. “Agarra-me, beija-me” e oiço a canção. Assaltam-me as palavras do profeta contemporâneo, Bad Bunny: mais forte que o ódio, só o amor.
Sinto uma força a romper as nossas noites recolhidas, fechadas entre paredes, como morcegos aprisionados a descarregar frustração em álcool e amargura acelerada. O Carnaval brasileiro é luz, laços, celebração sem pudor. Talvez tenhamos algo a aprender. Talvez tenhamos aprendido algo com os irmãos atlânticos.
Aqui não se difama, reinventa-se. A monotonia ganha cor, a mágoa converte-se em ritmo. A Penha experimentou uma resposta desarmada ao receio: sair para a rua, dividir o espaço, zelar uns pelos outros. Festejar pode ser o acto político mais ousado que ainda nos pertence. Sim, apesar de não parecer, festejar rima com resistir.
Caro leitor, fica o convite para 2027. Venha (vi)ver. Aqui na Penha de França com o Bloco Qui Nem Jiló, ninguém o julgará. É Carnaval, ninguém fala mal, e se falar o tambor abafa.
Fotos: Comunicação da JF da Penha de França
O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico

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