Escassos centímetros separam agora a Linha de Cascais do mar. O passeio ciclopedonal que liga Algés à Cruz Quebrada, inaugurado em 2015, é a última linha de defesa de uma das mais importantes linhas de comboio do país. Mas, ano após ano, regista colapsos com o efeito da erosão marítima. Agora, a força destas tempestades levou a que uma secção do passeio desabasse por completo. A Linha ficou pousada sobre terreno instável e a oferta de comboios foi reduzida em mais de 50% nas horários de ponta, com queixas de quem utiliza diariamente o comboio.
Nos últimos dias, o mar alcançou mesmo a linha, empurrando pedras e detritos para lá da vedação que separa a linha do passeio marítimo. Este último colapsou integralmente em algumas secções do troço de passeio construído há mais de 10 anos, nesta que é a zona da Linha de Cascais com menos proteção face à erosão marítima.
A situação, que coloca em causa a estabilidade da linha ferroviária, obrigou a Infraestruturas de Portugal (IP), enquanto gestora da infraestrutura, a encerrar a via mais próxima do mar, deixando apenas uma via disponível para a circulação de comboios. O que obrigou à diminuição da oferta na linha no passado dia 5 de fevereiro, que agora circula apenas com dois comboios por hora em cada sentido.
As consequências foram imediatas. A deterioração das condições de circulação ferroviária nesta linha estão a impor uma redução de mais de 50% da oferta nas horas de ponta, ao início e ao fim do dia, com queixas de sobrelotação e atrasos.
Ainda sem que seja possível prever a reposição dos horários habituais, a CP anunciou o reforço de comboios em dias úteis, já a partir de segunda-feira.

Déjà Vu?
Não é Déjà Vu, é mesmo um cenário que se repete.
Apesar de se tratar da situação mais grave na memória recente, ao longo da última década, têm sido vários os episódios de erosão a levar ao desabamento de várias secções do passeio marítimo e, desde então, apenas têm sido levadas a cabo pequenas obras de reparação e contenção das marés, de efeito pouco duradouro.
Em declarações à Mensagem, membro do grupo Ciclovia na Marginal, que há mais de uma década luta pela construção de uma ciclovia na Estrada Marginal, ligando Cascais, Oeiras e Lisboa de forma contínua, recorda uma obra foi feita sem a devida proteção das marés.
“Semanas depois de de ser inaugurada, teve logo galgamentos marítimos e ficou intransitável.”

Quando foi inaugurado, em 2015, o passeio ciclopedonal entre Algés e a Cruz Quebrada tinha terra a separá-lo das rochas que impediam o avanço do mar – cerca de quatro metros no seu ponto mínimo. Dez anos depois, todo esse espaço desapareceu e os remendos no alcatrão, resultado de sucessivos colapsos, são visíveis.


O avanço do mar sobre o passeio e em direção à Linha de Cascais. À esquerda, imagem de 2015, à direita, imagem de 2025. Foto: Ciclovia na Marginal/Facebook
Há anos à espera de solução
Perante a ineficácia das pequenas obras feitas ao longo dos anos, é o próprio município de Oeiras a assumir a necessidade de uma intervenção de fundo, numa área que envolve a responsabilidade de várias entidades – a Câmara Municipal de Oeiras, a Administração do Porto de Lisboa (APL) e a IP.
Em fevereiro de 2024, a Câmara de Oeiras anunciava encontrar-se a elaborar o projeto de reparação do esporão da Cruz Quebrada, já com parecer favorável da Agência Portuguesa do Ambiente (APA) para “fazer o enchimento” da área que mais tem sofrido com a erosão marítima.
O anúncio surgiu no seguimento de um contrato, assinado entre o município e a APL, para a gestão partilhada da frente ribeirinha de Algés.
“No fundo, é repor aquilo que ao longo de décadas foi sendo retirado”, explicou em 2024 o presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais.
A reposição do esporão, afirma o autarca, vai permitir proteger da erosão e do efeito das marés vivas esta zona do passeio marítimo. Um ano depois, o projeto, que contempla ainda a expansão do terrapleno junto ao passeio marítimo numa extensão de até cerca de metade do comprimento do esporão, ainda não avançou.
Já na altura, o autarca apontava para o “o risco de a própria via férrea ser afetada”.
Fotografias tiradas ao longo dos anos, entre 2016 e 2023, documentando o avanço do mar sobre o passeio e em direção à Linha de Cascais. Foto: Ciclovia na Marginal/Facebook
Agora, numa comunicação em vídeo, junto ao passeio colapsado, afirma que “há mais de dez anos que a Câmara Municipal queria alargar este terrapleno nesta zona do rio”, reparando o esporão que cedeu em 1983 e que “protegia esta zona” e procedendo, ainda, ao enrocamento do passeio marítimo. O autarca afirma não ter sido possível fazê-lo até agora devido à falta de entendimento com a Administração do Porto de Lisboa, cuja área de jurisdição abrange esta faixa costeira, a IP, CP e Agência Portuguesa do Ambiente.
Uma ameaça concretizada à segunda linha mais utilizada do país
Desde que foi inaugurado, em 2015, que o passeio ciclopedonal entre Algés e a Cruz Quebrada está a ceder perante a força do mar, colocando em risco a circulação na segunda linha ferroviária com mais passageiros em Portugal, essencial às deslocações diárias de dezenas de milhares de pessoas na Área Metropolitana de Lisboa.

Recorde-se que a Linha de Cascais está a sofrer obras de modernização em toda a sua extensão desde maio de 2023, prevendo-se para 2029 a chegada de novos comboios, com o objetivo de melhorar os níveis de serviço e substituir as atuais composições, originalmente fabricadas em 1950, 1960 e 1979 e modernizadas no final da década de 1990.
A linha foi responsável pelo transporte de 36 milhões de passageiros em 2025, cerca de 17% do total nacional de 208 milhões de passageiros transportados pela ferrovia no ano passado. Apesar disso, o número de circulações diárias na Linha de Cascais desceu 40% em 25 anos, passado de 298 para 178, contrariando o crescimento populacional dos concelhos de Oeiras e Cascais.
A título de comparação, em dias úteis os horários da Linha de Cascais chegam a ditar a realização de nove comboios entre o Cais do Sodré e Oeiras nos dias úteis – por exemplo, entre as oito e as nove horas da manhã.
Agora, e perante uma situação previsível, a circulação está condicionada há mais de uma semana, sem resolução rápida à vista.
Câmara de Oeiras vai avançar com obras
Num vídeo publicado nas redes sociais, o presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Isaltino Morais, anunciou que o município vai, a pedido da IP e CP, proceder a uma “obra de consolidação, no sentido de evitar o colapso da linha para o Tejo”.
O Início das obras está previsto para a próxima semana, com um custo de 400 mil euros e uma duração prevista de dois meses para a resolução imediata do problema.
Mas, para o autarca, será preciso uma obra maior “para resolver definitivamente”, de cerca de dois milhões de euros, para “alargar o terrapleno para que se garanta a estabilidade e a segurança da linha de ferro”.
Ocean Campus: solução definitiva ou risco ambiental?
Para a Câmara Municipal de Oeiras, a solução poderá estar no projeto Ocean Campus, que prevê a requalificação da zona ribeirinha entre Algés e a Cruz Quebrada, com a construção de edifícios de investigação, um pólo universitário e uma marina, abrangendo a zona em que se encontra o passeio ciclopedonal que agora colapsou.
O projeto está atualmente integrado dentro do grande projeto metropolitano Parque Cidades do Tejo, apresentado pelo governo em 2025. O Ocean Campus encontra-se dentro da área de jurisdição do Porto de Lisboa e a sua concretização prevê um investimento de cerca de 300 milhões de euros em 64 hectares, conquistanto, através da construção de um terrapleno, espaço ao mar numa extensa área que abrange o passeio ciclopedonal e a zona da Linha de Cascais, atualmente afetadas pela erosão marítima.

Num período em que o país se vê a braços com episódios de chuva persistente e cheias históricas, com grandes impactos em infraestruturas de transportes e habitações, o membro do grupo Ciclovia na Marginal questiona o ambição do projeto Ocean Campus, ao procurar recuperar espaço ao mar e construir num território exposto à força das marés e em zona de risco de cheias.
“O país está a cair aos bocados porque construiu-se onde não se devia. Isto demonstra bem o disparate que seria fazer um terrapleno em frente da Cruz Quebrada e do Dafundo.”
A conquista de espaço ao mar para obras de urbanização pode representar problemas. Artigo do jornal Público de 2024 aponta para o risco de se construir aqui, por se tratar de uma zona particularmente vulnerável a cheias.
À Mensagem, o membro do grupo Ciclovia na Marginal defende para a zona afetada pela erosão uma obra de enrocamento idêntica à realizada pela Câmara de Oeiras no passeio marítimo entre a Cruz Quebrada e Caxias, obra que foi inaugurada em 2017 e conta com uma estrutura quebra mar composta por grandes pedras que contêm o mar.


Frederico Raposo
Nasceu em Lisboa, há 32 anos, mas sempre fez a sua vida à porta da cidade. Raramente lá entrava. Foi quando iniciou a faculdade que começou a viver Lisboa. É uma cidade ainda por concretizar. Mais ou menos como as outras. Sustentável, progressista, com espaço e oportunidade para todas as pessoas – são ideias que moldam o seu passo pelas ruas. A forma como se desloca – quase sempre de bicicleta –, o uso que dá aos espaços, o jornalismo que produz.
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