Encontrar de repente um amigo é uma coisa inteira e linda. Encontrei-te com o teu ar principesco de quem usa os textos para radiografar a vida. E achei que não fechavas bem a tampa: uns 30 e tal graus e tu de calças como quem ia para a neve. Serpenteámos os dois por uma cidade em estado de sítio, e ainda estranhaste que eu já tivesse visto luzes verdes a dançar no céu, mas nunca um pneu a arder.

Da primeira vez que vi Maputo, espantei-me com os edifícios degradados, e com aquele esqueleto de prédio ao lado do Polana Shopping – uma coisa tão grande e tanto por concluir. A seguir, foi o que foi com a Vila Algarve – surripiei-te lá para dentro e já não soube sair, e tive de fazer daquelas pedras mancas um livro e de te inventar nas páginas. Com isto, depois de tanto espanto, talvez não espante ninguém que, agora, na minha cabeça, Maputo sejas tu.

Para esta sensação pouco importa que sejas menino da Matola.

Eu cresci entre livros – tu com poucos livros cresceste. Eu vestia um casaco para entrar em casa, e dentro dos cobertores tremia no Inverno a noite inteira – tu já deves ter nascido com a roupa colada à pele. Em criança, lia dicionários, e aprendia palavras como obtemperar, quimera ou abstruso; jamais te entenderia se me dissesses maningue ou balabaza ou mata-bicho, mas teria adorado o verbo barulhar. Enfim, não interessa – interessa que de Vizela à Matola há muitos mundos, e que nunca teríamos sido amigos se não tivéssemos tido a sorte de termos nascido com bichinhos nos dedos. São bichinhos que avançam aos dez de cada vez, mortinhos por fazerem histórias, desertos por saberem escrever frases bonitas e conseguirem, nem que só num sonho, inventar a beleza que é roubada aos dias. Quando se encontram com bichinhos iguais, parece que se obrigam a andar uns com os outros de mãos dadas.

Quando eu era criança, quase todos os meus amigos escritores estavam mortos. Outros, como García Márquez, estavam tão longe de mim que a prática era a mesma. Hei-de ter querido um amigo escritor que pudesse levar no bolso, que me falasse em tempo real e a quem eu respondesse, que partilhasse comigo as angústias da segunda pessoa, do ponto e vírgula, de um parágrafo demasiado quieto: na prática, um Quive a apitar no WhatsApp, mas na altura nem WhatsApp havia.

Na aulas de História, falava-se de Portugal, e por acréscimo vinham Brasil e Angola, e chegava Inglaterra via mapa cor-de-rosa e só a partir daí se ouvia falar de Moçambique. De resto, a África austral era um mistério, como mistério era qualquer prateleira cheia de livros a implorar pelos meus olhos. Algures no quinto ou sexto ano, cheguei ao Mia Couto, li sobre a terra queimada, mas o meu espanto foi outro: eu sabia lá que aos escritores era permitido inventar palavras. Gostei, e quis inventar também: em vez de me alimentar de dicionários, quis ir dar-lhes de beber. E aos poucos ia construindo sonhos: não apenas o de escrever um livro grande, que se destacasse na estante, mas também o de contribuir para a língua e de fazer verbetes. Os outros miúdos sonhavam em ser skaters ou famosos, que são sonhos bem piores.

Numa composição de português, com bichinhos aflitos nos dedos a quererem matar a sede ao dicionário, inventei uma biblioteca sem fim. Era, por isso, incomensurável, e seria impossível lê-la toda, consumi-la – ou seja, era inconsumerável. A professora, ao invés de apreciar, com sólido espanto, a elegância da minha miacoutice, rasurou-me a invenção – tirou-me um ponto, vê lá tu. Indignada, reclamei. Pouco indignada, ela insistiu na decisão – afinal, era ela quem mandava. Mais indignada ainda, argumentei pela liberdade do texto, da semântica, de sermos iguais – se o Mia Couto, que escrevia livros e tudo, podia, porque não eu? Fiz queixa ao meu pai, não tive apoio. Refilei com o meu avô, e ei-lo de mãos nos bolsos à porta da livraria, impávido – imaculado pela minha revolta. Terminado o conflito, o resultado foi este: a literatura moçambicana fez-me passar por escritora a quem falha a mão e a deixa fugir para o erro. Só anos mais tarde é que percebi que aquela língua que corria livre entre as páginas da Caminho era a mesma que corria livre entre as ruas: jamais um português teria a desfaçatez de domar o inglês à vontade, e reclamar para si palavras como chuinga ou biznar ou jobar. Da semântica à sintaxe, somos um povo mais ordeiro.

Para mim, que sou de nicho, essa é a principal vantagem de falarmos línguas diferentes dentro da mesma língua, e de nos contaminarmos nesse movimento sem veneno que é a expansão: a tua voz que diz desconseguir ou kanimbambo ou machimbombo amplia-me a capacidade de dizer. Com isso, qualquer diferença semântica – e principalmente sintáctica – te amplia aos meus olhos. Vejo-te a língua à solta e de repente és um soneto à Afrodite Anadiómena. Aposto que nunca ninguém te chamou isto.


Os autores desta série:

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

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