
Concebida em 2022 e produzida durante longos três anos e meio, a exposição Complexo Brasil, desde novembro aberta ao público em Lisboa e que segue até 17 de fevereiro tem conseguido cumprir a principal ambição: o diálogo entre Portugal e Brasil, muitas vezes interrompido por ruídos de comunicação e confrangedores períodos de “silêncios” entre os dois povos-irmãos.
A avaliação é de Miguel Magalhães, um dos principais responsáveis em provocar os curadores Miguel Wisnik, Guilherme Wisnik e Milena Brito a reapresentar o Brasil – e os brasileiros – aos portugueses, como diretor do gabinete do presidente e do programa Gulbenkian Cultura da Fundação Calouste Gulbenkian.

Como surgiu a ideia do convite para a exposição Complexo Brasil?
A ideia da exposição Complexo Brasil começou a ser pensada e discutida há três anos e meio, em 2022, e resultou de uma constatação de que talvez fosse interessante de apresentarmos o Brasil aos portugueses em Portugal. Resulta, portanto, dessa sensação de que a retórica dos povos-irmãos assentava num desconhecimento mútuo, em equívocos, em silêncios e convidamos três curadores com o perfil de nos ajudar nesta reflexão.
Há alguma característica na exposição que a torna especial?
A característica que torna especial essa exposição – e é uma opinião muito pessoal – é o facto de a montagem ser em si uma obra de arte. A forma como arquiteta e cenógrafa Daniela Thomas concebeu o espaço, e estamos a falar de dois mil metros quadrados em dois pisos de exposição, é muito particular e conseguiu articular muitas obras, muitos vídeos, muitas evidências, de forma fluída, sem obstáculos, indo ao encontro de uma proposta curatorial muito ambiciosa que cobre épocas, movimentos artísticos, realidades geográficas, o que destaca a Complexo Brasil de outras exposições.
“Complexo Brasil é uma exposição que dialoga com as diferentes comunidades, com os diferentes grupos, seja no Brasil, seja em Portugal. Também era importante que não fosse uma exposição ativista, que não fosse ideológica”
Quais foram os grandes desafios?
Os desafios da produção e montagem de uma exposição como a Complexo Brasil são vários. Eu organizaria esse desafio essencialmente em três grupos: o primeiro está relacionado com o tempo, ou melhor, com a falta dele, pois começamos a montar essa exposição em 2022 e muita coisa foi feita, mas apesar de tudo, três anos e meio ainda são curtos para uma exposição com esta ambição. O segundo desafio é logístico e operacional, pois estamos a falar de quase dois mil metros quadrados de área expositiva, com a presença de muitos artistas, com cerca de 200 obras, com cinco vídeos longos originais, criados especialmente para esta exposição, o que torna a Complexo Brasil também complexo no quesito operacional.
O terceiro desafio é conceptual, naturalmente, pois deveria ser uma exposição que dialogasse com as diferentes comunidades, com os diferentes grupos, seja no Brasil, seja em Portugal. Também era importante que não fosse uma exposição ativista, que não fosse ideológica, e apesar de não ser uma exposição só de obras de arte, a Complexo Brasil serve-se da arte para estruturar uma proposta conceptual e curatorial, e era importante que a excelência artística fosse em alto nível.
Para saber mais:
Isto não é um statement: a revelação do “Complexo Brasil”, na Gulbenkian
Qual a importância de abrigar uma exposição sobre o Brasil num momento em que a presença da comunidade brasileira tem aumentado em Portugal?
Quando essa exposição começou a ser construída e discutida, tínhamos plena consciência de que o número de brasileiros que pretendiam viver e estavam a chegar em Portugal era bastante significativo. Portanto, era uma realidade que foi tida em conta nas primeiras discussões, nomeadamente com a equipa curatorial, e temos a secreta esperança de que essa exposição contribua para que o diálogo entre Brasil e Portugal, entre brasileiros e portugueses, seja o melhor possível.

“Apesar de ainda termos cerca de um mês para o fim da exposição, eu diria que a reação do público que visita a Complexo Brasil tem sido essencialmente muito boa“
Como tem sido a resposta do público português e brasileiro?
Apesar de ainda termos cerca de um mês para o fim da exposição, eu diria que a reação do público que visita a Complexo Brasil tem sido essencialmente muito boa. Ainda não é possível quantificar a franja do público que é brasileiro e a franja que é português, mas já se pode constatar uma presença muito significativa do público brasileiro, seja turista, seja residente em Portugal.
A exposição cumpriu as expectativas da Gulbenkian?
Embora ainda faltem algumas semanas até o fim da exposição, julgo que as expectativas que depositamos no Complexo Brasil estão a ser cumpridas. Expectativas relacionadas com o público, seja em quantidade, seja na diversidade, pois estamos a chegar ao público português e ao público brasileiro de passagem por Lisboa e que resida em Portugal. Mas também as expectativas relacionadas com o projeto artístico em si, um projeto que espelha o que lá atrás, na altura das primeiras discussões, pensamos em apresentar e sobre o que este projeto deveria ser, e ainda as expectativas de proporcionar a abertura de um debate público sobre o tema da exposição, um debate que está a acontecer, o que só pode nos deixar satisfeitos com os resultados. *
Artigo publicado ao abrigo de uma parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian

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