Neste acervo de incomensurável riqueza que é o conjunto dos “fados tradicionais” – fados esses que vão ganhando novas letras ao longo dos tempos – Armando Machado será sempre um nome maior não só pela quantidade mas acima de tudo pela qualidade de melodias que nos deixou. Essa herança anda por aí à solta para que, livremente, poetas e fadistas a vão levando para novas paragens que se transformam sempre num novo ponto de partida.
Armando Machado compôs fados tão extraordinários como o Fado Santa Luzia, o Fado Súplica, o Fado Cunha e Silva, o Fado Licas ou o Fado Cigana.
Uma das melodias mais bonitas e mais elaboradas que o violista, falecido em 1974, nos deixou por legado foi o Fado Maria Rita, melodia sobejamente conhecida nos retiros fadistas cuja composição foi dedicada a uma das filhas do compositor.
Maria de Lourdes Machado, sua mulher, gravou nessa melodia “O meu colar” e desde então são muitos os fadistas que se apropriaram deste fado para o tornarem seu.
O grande mestre António Rocha escreveu “Procura vã” que ele mesmo interpreta, mas já ganhou não sei quantas versões de outros fadistas.
António Zambujo escolheu umas palavras de Mário Rainho – “Jogo de Sedução” – e casou-as com esta melodia.
Diogo Clemente escreveu “Antes que digas adeus” para a voz de Sara Correia.
Ricardo Ribeiro cantou “Mas porquê de eu ser assim” de António Cruz.
Eu próprio tive o privilégio de escrever “Num gesto que se adivinha” que na música de Armando Machado ganhou uma interpretação extraordinária de Kátia Guerreiro.
É-me muito mais fácil falar de melodias para as quais já escrevi alguma letra. A batalha de vida ou morte que se trava entre a música e o letrista só busca compreender as palavras que podem servir aquela melodia e, nesse processo, aquelas linhas melódicas migram para dentro de nós, tornam-se íntimas, revelam-nos particularidades de nós próprios que até ali desconhecíamos.
As músicas de Armando Machado são, todas elas, cheias de estórias. O letrista só tem de parar para escutar essas estórias e depois traduzi-las para o seu idioma particular, esse idioma que ele só partilha com a voz-intérprete das palavras que ele se atreve a escrever.
Foi isso que Carminho fez nesta sua nova abordagem ao Fado Maria Rita escrevendo para o disco de Rosalía um poema intemporal (ou talvez seja melhor dizer atemporal, são quase sinónimos para toda a gente menos para os poetas e para os letristas). A fadista já vem fazendo isto há tempos, sendo que no último disco em nome próprio, vence o Tempo definitivamente e canta/compõe/escreve um fado absolutamente contemporâneo onde ecoam todas as vozes que vieram antes dela.
Todas as que virão depois.
Quando se soube que Carminho iria participar no disco de Rosalía, ninguém podia supor que as escutaríamos numa melodia tradicional de Fado. Carminho tem esse atrevimento. Ela sabe que o passado também pode ser futuro. Por isso, escreveu versos que podem vir de qualquer tempo, que podem ir para qualquer tempo.

Tudo o que parece destino na obra de Carminho é, na realidade, um ponto de partida para qualquer coisa que ninguém sabe bem o que será. Talvez nem ela saiba. Talvez no fazer é que esteja a descoberta.
Só um “r” separa “carminho” de “caminho”. Tudo na Arte de Carminho é caminho. Por isso, neste deslumbrante “Memória” que ela e Rosalía interpretam, as duas vozes provêm do mesmo lugar, da mesma procura. Aquilo não é um dueto. É um monólogo a duas vozes. É connosco que elas falam. É a nós que nos interpelam e convidam-nos a, também nós, deixarmos de ser escravos do Tempo. Carminho propõe-nos a maior liberdade… que é a de ser… a de inteiramente ser!
Só quem é inteiramente de uma coisa pode ser de outra e Carminho é inteiramente do Fado. É isso que lhe dá a liberdade de ser inteiramente de qualquer outra coisa que a sua alma artística anseie fazer. Com esta gravação, a sublime fadista lança o Fado Maria Rita para o futuro mais longínquo. Garante a sobrevivência desta melodia muito para além dos nossos filhos ou dos nossos netos. O Fado Maria Rita, nesta gravação, consegue – ele mesmo! – vencer o Tempo.
Há muitos anos, escrevi para a voz de Carminho uma letra com música de Rão Kyao que hoje me parece quase uma profecia. Agora, Carminho “é igual aos seus sentidos/e o tempo igual ao espaço”.
Não é coincidência que duas artistas com almas tão cheias de curiosidade, de contemporaneidade e de tradição, cheguem ao mundo numa mesma era, possam trocar ideias, somar angústias, adicionar perplexidades à obra da outra.
Nós somos os grandes sortudos por sermos seus contemporâneos e termos a possibilidade de testemunhar tudo isto que está a acontecer bem à nossa frente, para deleite dos nossos ouvidos, das nossas almas, dos nossos corações.
Há um deus qualquer nesta história toda. É impossível que não haja. Carminho aproxima-se cada vez mais desse lugar “onde o tempo é igual ao espaço”. Em cada canção, em cada melisma, em cada poema ela pergunta-nos se queremos ir com ela. Será que temos coragem?

Extraordionária crónica, obrigada, e extraordinária recolha do fado Maria Rita.
Muito obrigada por toda a informação partilhada. Adoro o fado Maria Rita. Bem haja.