Naquela altura, Lisboa fervilhava de cultura. No início do século XX, a capital onde se estrearia o elétrico como meio de transporte e marcada por fortes desigualdades sociais, tornava-se, por outro lado, um centro cultural ativo, com teatros, cafés e associações políticas. O Teatro D. Maria II e o Teatro de São Carlos tinham grande protagonismo. Mas não era só em Lisboa. A cerca de 30 quilómetros dali, numa terra com estatuto de vila, a modernidade cultural também já tinha chegado… pela mão de cidadãos: nascia em Alhandra, Vila Franca de Xira, o Theatro Salvador Marques.
Um teatro de arquitetura neoclássica que, durante o século XX, levou os alhandrenses a ver, em carne e osso, figuras como Palmira Bastos, Amélia Rey Colaço, Vasco Santana e Raúl Solnado. Mas a história do edifício, tal como as peças que tantas vezes subiram ao seu palco, teria um desfecho trágico: em 1985 fechou e nunca mais voltou a abrir.
Hoje, é um devoluto em Alhandra, durante anos no centro da luta de alguns alhandrenses que ainda sonham vê-lo renascer.
Finalmente, começa a avistar-se uma solução.

Um teatro construído pela vontade dos alhandrenses
A bibliotecária Maria José Vitorino lembra-se bem da primeira vez que foi ao Theatro Salvador Marques ver um comício político, antes do 25 de Abril: “Foi a primeira vez que eu ouvi cantar o Avante, pela Luísa Basto!”. Tornar-se-ia-ia, anos depois, membro da Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira pelo Bloco de Esquerda (BE) neste mandato (renunciou a 7 de abril de 2025).
E lembra-se também de ali ir ao cinema.
Ao longo dos anos, muitas peças de teatros e filmes passaram pelo Salvador Marques, com nomes sonantes da cultura portuguesa: aqui, Francisco Filipe dos Reis estreou a revista “Carnaval”, em colaboração com a filha Manuela Câncio Reis e o genro Soeiro Pereira Gomes, assim como “Sonho ao Luar”, que voltava a unir os mesmos artistas.




Mas e se lhe dissesse que, afinal, tudo começou num outro teatro? O Teatro Thalia Alhandrense, construído em 1844 por iniciativa da comunidade de Alhandra – entre eles, João Salvador Marques da Silva, dramaturgo, jornalista, ensaiador, tradutor e empresário.
Lídia Salvador Marques da Silva, trineta de João Salvador Marques da Silva, recorda as histórias que sobreviveram ao tempo, contadas de geração em geração: “O João Salvador Marques da Silva vem da família de um fidalgo, que, a caminho das cortes, parou em Alhandra e apaixonou-se por uma linda alhandrense.”

João Salvador Marques da Silva – que foi batizado “Salvador” por uma freira que o amadrinhou – cresceu, pois, em Alhandra. Ali mesmo, onde desde pequeno desenvolveu uma forte amizade com José Tomás de Sousa Martins, com quem brincava no coreto que hoje ainda resiste, na Praça Soeiro Pereira Gomes, voltada para o Theatro Salvador Marques.
“O coreto fez as delícias daquelas duas crianças”, conta Lídia.
A amizade entre os dois levou-os a serem companheiros de casa, em Lisboa, para onde partiram para estudar medicina. Mas se Sousa Martins se tornou um reconhecido médico que assistia os mais pobres (e cuja estátua podemos hoje encontrar no Campo Mártires da Pátria, em Lisboa), Salvador Marques tornar-se-ia um grande empresário ligado ao mundo do teatro. E foi no Theatro Talia, em 1873, que viu estrear a sua peça “Os Campinos” – que depois seguiu para a capital, onde foi representada no Teatro Gimnásio.
Entretanto, a afluência ao Theatro Talia começou a ser tanta, que suscitou a necessidade de se construir um novo edifício. Foi, pois, em 1866 que se começou a construir esse teatro, batizado com o nome do empresário alhandrense Salvador Marques.
Mas a obra esteve parada durante vinte anos. E só seria retomada graças aos esforços de um outro morador de Alhandra, Francisco Filipe dos Reis, também ligado ao mundo do teatro.
Até que, finalmente, em Abril de 1905, inaugurava-se o Theatro Salvador Marques com a peça “O Comissário do Polícia”, do dramaturgo Gervásio Lobato e levada à cena pelo grupo Teatro do Gimnásio.
Salvador Marques, que viria a falecer dois anos depois, não marcou presença, estando já muito debilitado de saúde… e pobre. “No final de vida, ele era um homem riquíssimo em espírito e cultura, mas monetariamente pobre… ele ajudava toda a gente, inclusive os doentes do Dr. Sousa Martins!”, conta Lídia.

Ficaram os filhos para continuar a história. Júlia Sardoval, a filha, tornou-se inclusive fundadora do “Jornal das Senhoras”, uma publicação pioneira no país. Já o filho era o cenógrafo e arquiteto Luiz Salvador Marques da Silva.
E ficou, claro, também o teatro que leva o nome dele. Salvador Marques.
Um teatro que obedecia à arquitetura de estilo neoclássico, de raiz italiana, claramente inspirado pelo Teatro D. Maria II. A sala de espetáculos, com lotação de 400 lugares de plateia e 30 camarotes, apresentava um arco e pano de boca da autoria do pintor galego e português Veloso Salgado e, por fim, um grande candeeiro que viera do antigo Teatro Apolo.

Os novos planos para o teatro da comunidade
Mas o edifício não se manteve incólume ao longo dos anos. Também ele foi sofrendo alterações: em 1909, um sismo causou danos no Teatro; em 1924, foram construídos mais 10 camarotes e duas grandes galerias; em 1963 foi remodelado e modernizado com uma nova fachada, teto raiado e nova iluminação.
E foi passando de mãos em mãos: em 1943, começou a ser explorado pela Lisboa-Filme; em 1956, foi doado à Misericórdia de Alhandra; em 1962, sai das mãos da Lisboa-Filme; em 1963, passa a ser explorado por José Luís Farinha e, em 1985, o Teatro encerrava, à custa da instalação elétrica obsoleta, que se notou durante a exibição do filme “O Dragão Ataca“.


Tudo mudou quando, em 2001, o Teatro foi comprado pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira.
Pouco depois, é criada uma comissão para a reabilitação do teatro. Essa comissão entregou, em 2007, uma providência que refutava a demolição prevista pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. Desde então que muitos foram lutando para que se recuperasse este património esquecido, como foi o caso de Casimiro Gonçalves, do Movimento Teatro Salvador Marques, que criou uma famosa página de Facebook com esse nome.
Em outubro do ano passado, Fernando Paulo Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira (CMVFX), assinou um contrato para a reabilitação do Theatro. E, em julho deste ano, apresentou-se o estudo prévio do projeto de reabilitação, realizado pela empresa AW Projects Engenharia, em colaboração com um conjunto de arquitetos.
O Presidente da CMVFX diz que, desde o início do presente mandato, procurava colocar o projeto de reabilitação “no radar dos Fundos Comunitários, mas, infelizmente, os fundos na área da cultura estão concentrados no património do Estado Central”. E, por isso, só agora se conseguiu “inscrever a possibilidade de financiamento no contexto dos fundos da Área Metropolitana de Lisboa com o objetivo de construir um equipamento cultural moderno que sirva o Concelho”.
Então, e agora?
Tendo em conta as várias intervenções que o edifício foi sofrendo ao longo dos anos, o projeto propõe a sua recuperação, redesenhando-se os espaços interiores e fachadas, mantendo-se apenas as paredes exteriores da fachada. No interior do teatro, serão reabilitados o foyer, o salão nobre e a sala de espetáculos, e surgirá um novo edifício, num terreno adjacente que foi já adquirido pela Câmara Municipal, e que poderá albergar um Café Concerto, uma zona administrativa, um espaço de co-working para artistas, uma Sala de Ensaio e uma Sala Multiusos.
Na página de Facebook Theatro Salvador Marques: Queremos Restaurado!, dinamizada por Casimiro Gonçalves, investigador em Museologia e Museografia, não tardaram a chegar comentários como: “A ser verdade, será um projeto extraordinário” ou “Que bom que era ver o Theatro Salvador Marques recuperado”. Já ele lamenta que o projeto não preserve alguns aspetos característicos da arquitetura deste teatro clássico. Critica a nova fachada, que não será recuperada na sua totalidade e não preservará um frontão que existiu até 1909, tendo por base elementos gráficos como fotografias e postais. O redesenho da fachada principal era aliás um ponto assinalado pelo arquiteto Luís Soares Carneiro na tese de doutoramento Teatros Portugueses de Raiz Italiana.
E Lídia Salvador Marques da Silva, a trineta do homem que dá nome ao teatro, partilha da mesma opinião: “Manter a fachada é importantíssimo.”
Mas a memória descritiva do projeto justifica a decisão:
“Da análise efetuada conclui-se que o edifício não reúne as condições mínimas de segurança estrutural para permitir a reabilitação da mesma, pelo que a intervenção terá de assentar no reforço estrutural das paredes principais que serão mantidas e no desenvolvimento de uma nova solução estrutural para as lajes de piso e restantes elementos.”
Ainda está tudo em aberto: a autarquia está à procura de financiamento e parceiros para levar o projeto a bom porto, enquanto se recolhem contributos e opiniões dos cidadãos até ao dia 31 de outubro.

Preservar o espólio
Para além disso, Casimiro Gonçalves propõe um conjunto de alterações que remetem para o passado do teatro, como a preservação das antigas pinturas a fresco que existiam nas paredes da Bilheteira/Bengaleiro e a manutenção do trabalho em estuque que ainda possa subsistir no teto do Átrio de Entrada.
E, tal como Lídia, sugere a criação de um corpo auxiliar ao Theatro, onde se poderiam expor objetos das vidas passadas do edifício. “Os objetos ligados ao teatro, como os antigos cadeirões, deviam regressar. Tudo o que existe de património relacionado com teatro devia ser exposto. Cada peça conta uma história. Este teatro é feito de histórias”, diz Lídia.
Maria José Vitorino corrobora: “Há um arquivo efémero que são as memórias das pessoas. E quem não trabalha a memória não tem futuro”.
De facto, a família Salvador Marques está há anos empenhada em doar o espólio do pintor Luís Salvador Júnior (neto de Salvador Marques) a um museu que o ponha em exposição. O Theatro Salvador Marques seria o lugar perfeito para o receber.
Para além disso, o investigador Casimiro Gonçalves considera importante fazer-se alguma escavação arqueológica no local: “No primeiro livro de atas conhecido do TSM, é referido que, no início da sua construção, ali foi encontrado um ‘tesouro’, que pouco depois foi vendido para ajudar financeiramente o edificar deste histórico Teatro.”
E Maria José Vitorino lança uma questão ainda por responder: depois de reabilitado, o que se fará com o teatro? E alerta: “O teatro não se resume às suas instalações. Eu sou a favor de que seja um teatro municipal, e a direção tem de considerar o teatro não apenas como equipamento de criação mas também como um equipamento de memória”.
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Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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