“Que saudades de um espaço tão bonito que nós tivemos”, “Há tantos anos que espero ansiosa pela reabertura”, “Ainda bem passei momentos inesquecíveis aí”. São muitas as memórias que escorrem pela página de Facebook que leva o nome de um velho e abandonado parque aquático, na Costa da Caparica, que ficou gravado na memória de muitos – o “Ondaparque”. Chegou a ser o maior parque aquático de Portugal, mas encerrou em 1996 depois de oito anos em funcionamento. E, durante dez anos, houve mesmo a promessa de que voltaria a abrir, mas nada avançou. Só agora o assunto volta a reacender-se.

É agosto e o calor aperta. Em Lisboa e arredores, como já é tradição, a oferta é pouca para quem se quiser refrescar: piscinas municipais como a das Avenidas Novas, Campo de Ourique e Oriente, por exemplo, encerram no mês de maior calor, e não sobram muitas opções económicas ou até mesmo gratuitas nas proximidades da cidade.
Em tempos, houve mais: dois parques aquáticos – o Aquaparque, no Restelo, e o Ondaparque, na Costa da Caparica.
O Aquaparque fechou portas em 1993, depois de uma tragédia: duas crianças morreram ali, encontradas nas tubagens das piscinas. O Ondaparque não duraria muito mais: fechou três anos depois, em consequência da falta de fundos e do aumento da fiscalização após a tragédia no Aquaparque. Mas, enquanto o Aquaparque se transformou num parque infantil (e falou-se até mesmo em criar ali uma escola de bicicleta), o Ondaparque ficou ao abandono durante todos estes anos.
Não por falta de planos.
Um grupo de cidadãos chegou a sonhar com o reabrir do parque e o projeto, dizem, esteve muito perto de avançar. Mas o proprietário dos terrenos, Libório Temporão, das Construções Norte-Sul, não avançou com eles.
Agora, é ele mesmo quem propõe um novo projeto: recuperar parte do Ondaparque e criar, ali, apartamentos turísticos. O problema? A lei.
Onde para o novo projeto?
Em 2014, o jornal Público noticiava que havia um negócio em curso para a aquisição dos terrenos do Ondaparque. Em causa estava um projeto de reabilitação total delineado por três cidadãos, todos eles com memórias felizes no velho parque aquático. Ariana Sofia, parte deste grupo, revela que a obra estaria entre os 6 e os 9 milhões de euros, enquanto a aquisição dos terrenos situar-se-ia entre os 4 e os 6 milhões.
Em 2023, surgia na página de Facebook do Ondaparque, gerida por estes cidadãos, um comunicado: o projeto de requalificação fora concluído em 2019, “mantendo o seu desenho original de 1988, alterando todo o conceito lúdico aquífero para novos jogos (escorregas) de diversão aquática”. Na publicação esclarecia-se ainda que “após 4 anos da conclusão do projeto, finalmente foi desbloqueada a questão da aquisição do terreno, estando este atualmente no mercado imobiliário.”





Mas, dois anos desde esta publicação, os terrenos permanecem nas mãos do Engenheiro Libório Temporão. O proprietário optou por não avançar com o processo de venda e com o projeto deste grupo de cidadãos.
“Agora temos outros planos. Eu estou do lado da solução”, diz o proprietário, contactado pela Mensagem.
De acordo com o engenheiro, que não se quis alongar mais na conversa, os terrenos do Ondaparque serão transformados: um parque aquático a reabilitar, uma zona de parqueamento, uma receção e serviços de apoio, uma zona de restauração e bares, um pavilhão multiusos, uma unidade hoteleira e uma zona verde.

Mas por que razão não avançou?
Até há pouco tempo, o PDM (Plano Diretor Municipal) de Almada limitava os planos de construção de habitação para o terreno, por estar encostado ao sopé da arriba fóssil Caparica/Trafaria – uma paisagem de cerca de 1570 hectares, classificada e protegida, que se estende ao longo da orla litoral, entre a Cova do Vapor/Trafaria e a Fonte da Telha. As arribas fósseis são formações sedimentares muito antigas e naturalmente frágeis, por isso, construir ali poderia aumentar o risco de instabilidade, de deslizamentos, colapsos ou fissuração dos edifícios.
Até que, em 2024, uma alteração deste PDM veio redefinir o uso dos terrenos do antigo parque.
Embora fique incerto o que significa isto para o projeto de Libório Temporão – se passa a ser permitida a construção de habitação ou de equipamentos turísticos. E a Câmara Municipal de Almada, contactada pela Mensagem, não esclarece. Procurámos, também sem sucesso, esclarecimentos junto do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a autoridade nacional para a conservação da natureza e biodiversidade.
“O poder local, a Câmara, não permitem avançar”, é tudo o que o proprietário escolhe dizer.
O que sabemos é que há dois regimes legais que podem travar este plano.
Muitas arribas fósseis em Portugal (incluindo a da Caparica) estão classificadas como património geológico e abrangidas pela Reserva Ecológica Nacional (REN), como é o caso desta. Isto adiciona camadas de proteção e requisitos de avaliação ambiental. O que significa que, mesmo com uma alteração do PDM, a obra nesta arriba fóssil poderia ser travada em sede de licenciamento ambiental.
Embora a classificação interna da Paisagem Protegida não seja homogénea. O Plano de Ordenamento da Paisagem Protegida da Arriba Fóssil da Costa da Caparica (POPPAFCC) distingue zonas de proteção total — praticamente intocáveis – e zonas de proteção parcial — onde pode haver usos urbanos ou equipamentos, desde que sujeitos a avaliação de impacto ambiental e a regras específicas.
E a história fica mais complexa: o plano de Libório Temporão entrará também em conflito com a Lei nº53-A, que vigora desde este ano e que prevê que os projetos de construção cumpram determinados requisitos técnicos, ambientais e legais. Entre eles, por exemplo, a necessidade de que a alteração do PDM assegure que pelo menos “70/100 da área total de construção acima do solo se destine a habitação pública, a arrendamento acessível (…) ou a habitação a custos controlados”. O que inviabilizaria o plano inicial do proprietário do Ondaparque. Ele que se escusa a mais comentários sobre o futuro do parque aquático deixado ao abandono.
As memórias do Ondaparque





Corria o ano 1988. O Ondaparque estreou-se nesse ano, prometendo fazer as delícias dos mais novos, com escorregas, piscinas e até mesmo atuações musicais – os Onda Choc, o grupo musical infanto-juvenil criado pela cantora Ana Faria, marcou o ano de inauguração, mas também Pedro Abrunhosa passou por lá.
Carlos Lomba, que foi encarregado do espaço, desfia memórias, recordando não só os divertimentos aquáticos, como a equipa “Foto Onda”, responsável por tirar fotografias no parque, ou o bar/restaurante que servia o espaço. “O parque tinha umas 2000 pessoas ao fim de semana! À noite havia festas, houve uma festa de Benfica… O parque era muito bom para o concelho de Almada!”.
Sónia de Sousa passou a sua juventude no Ondaparque, onde trabalhou como fotógrafa na “Foto Onda”. “Não sabia nada de fotografia, aprendi muito lá. Éramos como uma pequena família, fiz muitos amigos. Até aos meus 17 anos, a partir de maio, o nosso ponto de encontro era no Ondaparque.”
Ali, chegavam almadenses e tantos lisboetas, à procura de uma memória de verão e uma fuga ao calor dos dias mais quentes.
Até que fechou portas em 1996.
O que poderia ter sido? O maior parque aquático do país
“Todos brincámos no maravilhoso Ondaparque nos seus tempos áureos”, diz Ariana Sofia que, anos mais tarde, se envolveria no processo de reabilitação, nunca concretizado, do Ondaparque.
Hoje, instalado nos velhos terrenos da Quinta das Brielas, é um lugar fantasmagórico. Ainda é possível distinguir, no meio da vegetação, as estruturas dos velhos escorregas, que se têm vindo a degradar ao longo dos últimos quase 30 anos.
Um cenário que um grupo de apaixonados pelo parque aquático quis travar, trabalhando para lhe dar nova vida.
Tudo terá começado em 2009, quando se anunciou que o festival Sol da Caparica poderia ter como localização o antigo Ondaparque. Foi o gatilho para que Hélder Nogueira, analista de sistemas com especialização em 3D, e Bruno Carvalho, militar da Marinha Portuguesa, com especialização em lei regulamentar balnear, se unissem para projetar um plano de reabilitação para o parque aquático onde os dois tinham brincado em crianças.


A Mensagem não conseguiu entrar em contacto com Bruno ou Hélder, mas falou com a irmã de Hélder, Ariana Sofia, diretora de projetos, que integrou também a equipa para a recuperação do Ondaparque. “O projeto Ondaparque foi emocional. Nós conhecemos o Ondaparque ao vivo, há uma ligação nostálgica”, explica.
Com o apoio do proprietário dos terrenos – o Engenheiro Libório Temporão, que os adquirira ao barão Sloet tot Everlo -, Bruno, Hélder e Ariana arregaçaram as mangas e procuraram uma solução para o parque. Hélder ficou responsável pelo levantamento técnico, Bruno pelo levantamento legal e Ariana pela constituição das peças técnicas e legais.
Ariana recorda como, antes da elaboração do projeto, foi realizado um estudo prévio, e foram feitos levantamentos arquitetónicos e estruturais, tendo em conta o PDM em vigor na altura, que previa equipamentos para aquela zona, e nunca habitação.
“Percebemos que o projeto fazia todo o sentido, não havia concorrência. O Ondaparque era um exemplo de adaptação técnica perfeita”, diz Ariana.
Na visão de futuro do projeto, concluía-se que “as infraestruturas existentes permitem a operacionalidade total do complexo” e “que num cenário de crescimento anual representará o pressuposto de definição de maior complexo aquático da 1.ª categoria, a operar em território nacional.”
Então, o sonho passou a ser esse mesmo: projetar o maior parque aquático de Portugal.
Ao longo dos dez anos, a equipa assegurou a manutenção do parque: “Passámos sete anos a manter o parque em condições compatíveis, direcionando a água das chuvas para a respetiva infraestrutura técnica (os tanques de compensação), de forma a tornar-se um recurso útil”, conta Ariana.
Mas nada avançou.
Perante o abandono e projetos na gaveta, Ariana Sofia diz que o Ondaparque tem, assim, “um desfecho injusto”.

Ana da Cunha
Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.
✉ ana.cunha@amensagem.pt

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O acidente de que fala, em 1994, ocorreu no Aquaparque e não no Ondaparque.
Olá, Ana
Obrigada pelo comentário! Se ler bem, é exatamente isso que dizemos. Passo a citar:
“O Aquaparque fechou portas em 1993, depois de uma tragédia: duas crianças morreram ali, encontradas nas tubagens das piscinas.”
É verdade mas em termos de segurança foi um desastre, morreram crianças ali e no parque em Lisboa.
Por isso fechou.
Fui imigrante durante muitos anos..
Fomos muito felizes na Caparica e no Ondaparque… os meus filho ,nascidos em França , contavam o tempo que faltava para vir de férias para a Caparica!!
Foi assim que decidimos, viver e aproveitar todo o ano o nosso ❤️
🌝 SOL DA CAPARICA 🌝
Sim o acidente, ocorreu no aquaparque não no ondaparque seria uma maravilha reaparecer novamente o ONDAPARQUE.
Também vão pagar a enorme dívida de água à Câmara que o onda parque deixou? Deixem mas é o dono construir naquilo que lhe pertence.
Não. As mortes foram no Parque de Lisboa, no Restelo.
As pessoas continuam a confundir a tragédia da morte das duas crianças e a associá-las ao Ondaparque.. minha gente, foi no Aquaparque em Lisboa. De facto a reabilitação e erguerem nestes terrenos um novo parque aquático fazia todo o sentido, até porque não existe mais nenhum em redor. Que bom que seria.