Há tempos, estava eu a ler um livro sobre à a “noite sangrenta”, episódio bárbaro e trágico na história do nosso país e da nossa cidade, que resultou no assassinato de três figuras heroicas da Primeira República, quando me apercebi de uma poderosa indústria cervejeira na Lisboa oitocentista e novecentista, e dos primórdios da vintista, que ombreava com as suas congéneres bávara ou belga. Para alguém que, como eu, tem assistido com curiosidade ao surgimento de novas marcas e fábricas de cerveja artesanal na cidade, incluindo no Marvila Beer District, lugar que descobri nos almoços que tenho regularmente com a minha irmã, é uma agradável surpresa.
Enquanto lisboeta que cresceu a pensar que vivemos num país com uma arreigada (mono)cultura de vinho, onde a cerveja portuguesa se resume praticamente a duas marcas que se alternam nos festivais de verão e nas camisolas da seleção, uma mais associada “à capital e aos mouros” e outra com uma “pronúncia do Norte”, esta é uma evidência um pouco desconcertante.
Mas lá está: é o amargor da ignorância que faz cair civilizações e não o travo acre que caracteriza o néctar dos faraós. Enfim. Ah… E devo estar aqui a passar ao lado de marcas que conseguiram aguentar a pressão da escala até aos anos oitenta e noventa do século passado.
Não posso, desde logo, passar ao lado da icónica ‘Fábrica Portugália’ (a cervejaria abriu mais tarde, em 1925), surgida no início do século XX como ‘Fábrica de Cerveja Germania’ – nome que viria prontamente devido à 1ª Guerra Mundial. Localizada a meio de uma avenida que celebra mais um herói e uma figura central na queda da monarquia e mesmo à beira da clínica onde nasci há várias décadas, atualmente, à semelhança da Trindade e de tantas outras, é apenas (mais) um espaço de convívio e repasto, onde se bebe boa cerveja e se comem bons bifes e marisco, mas onde já não há quaisquer vestígios da produção da imemorial bebida.
Como em tantas coisas na vida e na história do mundo, a interdição à importação de cerveja no século XVIII, imposta por D. João V para proteger a produção de vinho, como adianta o Museu da Cerveja, o espaço no Terreiro do Paço que homenageia esta importante história em Lisboa* “escancarou as portas ao fabrico da cerveja em Portugal e [o industrial de origem galega e fundador da cervejeira no antigo convento da Santíssima Trindade] Manuel Garcia Moreira, que sabia que a boa água era determinante, criou uma cerveja portuguesa que, apesar da interdição, passou ironicamente a fornecer a Casa Real Portuguesa”.
Mais tarde, ainda no século do positivismo e na esteira da Trindade, surgiram em Lisboa outras fábricas dedicadas à produção e venda da preciosa bebida fermentada, como a Jansen. Situada desde 1870 na colina entre a Rua António Maria Cardoso e a Rua do Alecrim, a fábrica-cervejaria alugada ao dinamarquês John Henry Jansen, que servia o célebre “Bife à Jansen”, tornou-se rapidamente num local de eleição dos lisboetas.
Conforme relembra o blogue Restos de Coleção, foi nesta icónica cervejaria que, “no outono de 1914, tiveram lugar as reuniões do grupo ‘Orpheu’, a revista que configurou o nascimento do modernismo literário português”. E 20 anos mais tarde, enquanto a Jansen era integrada na Sociedade Central de Cervejas, num processo de concentração e industrialização em larga escala do setor iniciado nessa década, o antigo ‘Salão Jansen’ transmutava-se no migrante e icónico ‘Retiro da Severa’, que viria a ser fechado logo em 1940 – pelo simples facto de, na época, o regime vigente considerar o fado “deprimente, fatalista e doente”.
Regressando à Portugália, que sopra as suas 100 velas a 10 de junho, é com particular tristeza que, no mesmo sítio onde pratiquei com afinco karaté no final dos anos 1980, num gigantesco pavilhão que ficava dentro da antiga fábrica e que alternava com os treinos no velhinho ACM/YMCA Lisboa, no Rato, o “quarteirão da Portugália” seja um espaço pós-apocalíptico há mais de uma década, conhecido apenas por más razões.
É que, tirando a histórica cervejaria e o que resta do edifício principal e da fachada com azulejos Arte Nova da centenária fábrica, que todos gostaríamos de ver renascer como um espaço de memória – uma vez que já existe um Museu da Cerveja em Lisboa -, mantém-se o imbróglio e a incógnita sobre o que ali vai brotar. Pelo menos já não vai ali germinar uma descomunal e despropositada torre de 49 ou 60 metros. Sabemos e agradecemos.
A meses de mais umas eleições autárquicas, confesso que gostaria de ver candidatos e eleitos com a coragem de anunciar menos betão e mais verde na cidade.
*o Museu da Cerveja faz parte do grupo Valor do Tempo que é sócio da empresa que detém a Mensagem de Lisboa

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