Quero lhe falar, meu caro leitor, das coisas que ouvi nos discos. Com a voz rouca do Belchior, quero lhe contar tudo o que vi e aconteceu comigo na última eleição legislativa. Eles venceram, há perigo na esquina e o o sinal está fechado para nós.
Fechado para abraçar o irmão imigrante e beijar a minha menina brasileira na rua.
Tempos difíceis, igualzinho ao Brasil de dias atrás. Demos a volta nisso, mas ainda sinto tudo o que passou na ferida viva do meu coração.
E na parede da memória o céu verde-oliva em vez de azul é o quadro que doi mais.
Alguém pode até dizer que estou por fora ou então que estou inventando. Mas só ser for alguém é alguém que ama o passado e não vê.
Alguém que ama o passado e não vê o que está passando.
Ouvi o Chico dizendo que sempre houve léguas a nos separar, tanto mar, tanto mar, mas depois da última eleição a distância entre nós corre o risco de aumentar, aumentar.
Foi triste a festa, pá, cá estou doente.
O cravo murchou e querem tirar da Constituição o cheirinho de alecrim.
Doeu, sim, como naquela tatuagem do Chico, uma dor que você pega, esfrega, nega, mas não lava. Restou a cicatriz risonha e corrosiva de um passado triste, pesando feito cruz nas costas, marcada a frio, a ferro e fogo, em carne viva.
Já pensou que ironia, Antônio Maria?
Já ninguém me AIMA, ninguém me quer, ninguém chama o imigrante de meu amor.
As urnas já não gostam mais de mim, mas eu gosto delas mesmo assim.
Que pena, que pena.

E agora é como na letra do Caetano, quando chego em casa nada me consola, estou sempre aflito. Lágrimas nos olhos e não são de cortar cebola, é que os dias já foram mais bonitos. Ah, vocês não estão entendendo nada do que eu digo.
Inclusive alguns tugas, logo o tuga que lá atrás também passou por isso, correu o mundo, correu perigo, foi embora, deu o fora, avós em fuga para a França.
A liberdade raptada, adaptada ao ne me quitte pas.
Às vezes, penso em seguir o conselho malcriado do Roberto, mandar tudo e mais para o inferno e voltar para a terrinha, mas depois penso na vida para levar.
E me calo com a boca de sardinha.
E falando no Rei, quando você me ouvir cantar a velha canção do Roberto, aquela que diz que tudo vai mal, tuuuuuuuudo, que tudo em volta está deserto, não me diga que está tudo certo.
Só se for tudo certo como dois e dois são cinco.
É que meu bem, uh-uh-uh-uh-uh, meu bem,você não vai acreditar em mim, estão tentando destruir assim um grande amor. Um grande amor pela democracia, pela liberdade, um grande amor pelo outro.
Meu bem, uh-uh-uh-uh-uh, meu meu bem, faça como ensina a doce bárbara Gal, não dê ouvidos à maldade alheia, e creia, a sua incompreensão não te deixa ver que o nosso amor por Portugal é bem maior que tudo que existe. E quantas vezes tentei falar que no mundo não há mais lugar para quem toma decisões na vida sem pensar?
Na próxima eleição, conte ao menos até três, se precisar conte outra vez, pense outra vez, antes de votar.
Até lá, o Chico jura que vai passar e o amado Gil aconselha a seguir andando com fé, que a fé não costuma falhar.
Que vai dar tudo certo.
Certo como dois e dois são cinco.

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