Uma nota de cem escudos na mão e uma lista de compras na cabeça para trazer da mercearia da Dona Adelaide, nos 150 metros que a separavam de casa dos meus pais.
Pelo caminho, cantorias que alternavam entre “As minhas bochechas vermelhas” que me levaram, vaidosa, ao palco da festa de Natal da escola de microfone na mão naquela vibrante sala de espetáculos que era o salão de festas do Juncal e a Lena D’Água, com quem eu fazia um dueto imaginário a cantar “Estou além”, de António Variações. Saltos, jogo da macaca, corrida – tudo valia naquele percurso, exceto o passo normal. Era um caminho que eu conhecia bem, e cujo chão de terra batida os meus joelhos também conheciam muito bem.
À chegada à mercearia, a nota já se tinha evaporado e a lista de compras também. Meia-volta de regresso a casa a antecipar o ralhete, lista de compras por escrito e instruções para deixar a conta no livro de fiados, que sempre era mais fiável do que eu.
Cento e vinte gramas de fiambre, cento e cinquenta de queijo, 4 iogurtes de morango que não podiam ser de banana porque uma freguesa açambarcava todos os iogurtes de banana que a D. Adelaide tivesse na vitrine de frios, uma embalagem de Omo, uma barra de sabão azul e branco e um shampoo Johnson que não arde nos olhos para mim, para o meu irmão e para o meu pai, as três crianças da casa.
O livro de fiados, estreito e com as pontas das folhas já enroladas pelo excesso de uso, tinha uma página com o nome da minha mãe, prefixado: “Menina Lídia”, apesar de contrariada por gostar pouco de ficar a dever.
A Dona Adelaide levava o indicador à boca para o humedecer e lhe facilitar a chegada às folhas de cada freguesa, nas quais os números inscritos acompanhavam a rigidez ditatorial do livro: eram carregados a ponto de vincar o verso da folha, altos, estreitos, retos e frios, sem um enrolançozinho democrático que fosse, mesmo nos números que o pediam, como o 8 ou o 3, para os tornar um pouco mais dóceis. O mapa de exploração da D. Adelaide vivia ali, entalado entre o “deve” de segunda a sexta, e o “pago” de sábado.
Quando o troco era pequeno – e como eu desejava que fosse! – a mão da Dona Adelaide mergulhava num enorme frasco de vidro e dali emergia com a tradução em rebuçados.
Um dia atrevi-me a incluir furtivamente na lista de compras uma mousse de chocolate que escondi no bolso do casaco amarelo-canário que levava vestido, e acabei traída pelo meu próprio esquecimento – outra vez. Dei um encontrão de lado na porta de casa, para a abrir, e imprimi a mousse no casaco. Dois trabalhos: assumir a desfaçatez da compra na clandestinidade e passar uma tarde a esfregar uma nódoa que nunca saiu. Voltei a conformar-me – e a alegrar-me – com a legalidade do troco em rebuçados, não perdendo a esperança de que um dia a Dona Adelaide tivesse um rasgo de generosidade, e que do frasco tirasse pacotinhos de mousse de chocolate, então legítimos.
A Dona Adelaide vendia sombrinhas, ratinhos e carrinhos de chocolate, e no Natal também as fantasias da Imperial com que sonhávamos o ano inteiro. Era oficialmente Natal quando na televisão surgia o anúncio de um avô contador de histórias, a quem a neta tirava das mãos o coelhinho para o levar ao circo no comboio, com o Pai Natal e o palhaço, antes que lhes calhasse a mesma sorte do peixe, devorado pelo avô glutão.
A minha mãe comprava 24 fantasias de Natal, uma por cada dia até chegar à noite da consoada. Penduradas no pinheiro, eu e o meu irmão tínhamos a missão diária de tirar uma fantasia que a minha mãe dividia em 4, um bocadinho para cada um. Mas a minha mãe, que era mãe e sabe Deus quanto lhe teria apetecido o seu micro-pedaço de chocolate, abdicava dele em favor das crianças e, como tal, dividia aquele quarto de fantasia em 3, que se sumia em menos de nada em 3 bocas ávidas e gulosas.
Paredes meias com a mercearia com quem partilhava o rés do chão da casa onde viviam, o Senhor José Oliveira, marido da Dona Adelaide, cumpria com mestria o ofício de sapateiro. De porta aberta para a rua de onde lhe entrava a luz natural e o mundo, passava o dia sentado num pequeno banco de madeira, encurvado sobre si mesmo, a arranjar solas, meias solas e biqueiras. Ainda sinto o cheiro intenso daquela cola grossa e pegajosa no pincel e o som repetido das batidas do martelo nas solas dos sapatos. Nos intervalos em que se levantava para esticar os ossos, o Senhor José Oliveira vendia à minha mãe um par de botas para o meu irmão, à razão de um por semana – assim lhe parecia a ela -, que o meu irmão tratava de estoirar aos pontapés à bola.
Tinham muita saída, aquelas botas quase descartáveis, que competiam em velocidade de desgaste e em desespero maternal com as joalheiras de napa que a minha mãe mandava coser nas calças de bombazine, na esperança de lhes prolongar a vida.
Lisboa devolveu-me esta memória ampla. Encontrei-me com sombrinhas, ratinhos e carrinhos de chocolate, de que já nem me lembrava e se lembrasse possivelmente acharia que já não existiam, tão longe que me ficaram no tempo.
E daquelas caixas acrílicas onde os vi arrumadinhos na Casa Pereira da Conceição, na Rua Augusta, em Lisboa – já não em frascos de vidro como tinha a Dona Adelaide, já não paredes meias com as meias solas do Senhor José Oliveira, já não de joelhos esfolados pela minha incapacidade de apenas andar – revi a nota de cem que me voou das mãos, os iogurtes de banana que não comi, a mousse de chocolate tatuada no meu casaco, o livro de fiados saturado de correções nas colunas do “deve”, a entoação açucarada com que a Dona Adelaide se dirigia à Menina Lídia e o terço de um quarto de fantasia de chocolate com que me deliciei todas as noites até chegar ao Natal.
Dizem que se chama nostalgia. Talvez eu sofra dessa maleita tão boa, impregnada de perfume de cola.

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A Doce infância que não volta mais, exceto em nossas memórias que berram de alegrias em nossa mente.
Tão bom este texto.
Fez-me viajar até ao passado.
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