Ao lado da churrasqueira e da barbearia, junto à fruta e aos legumes, nasceu há um ano uma improvável livraria solidária no Mercado de Carnaxide. Aqui, os livros usados são os “heróis” em várias frentes, porque promovem a reciclagem, estimulam a leitura e apoiam causas sociais. Por isso, a loja número 10 tem o nome Heróis com Capa.


Por trás dela, está Sofia Gonçalves, 47 anos. É técnica de educação especial e reabilitação e sempre gostou de ler. Inspirada noutras livrarias solidárias que frequentava, decidiu criar o seu próprio projeto. Começou por chamar-se “Book-a-Wish”, por estar associado à fundação Make-a-Wish Portugal, e, através da venda de livros em segunda mão, conseguiu realizar sete desejos de crianças e jovens com doenças graves.
Mas não parou por aí. A ideia que nasceu com Sofia tornou-se num projeto de cinco amigas, com a ajuda de Ana Caseiro, Alexandra Infante, Georgina Rodrigues e Marta Amorim.

A chegada de cada vez mais livros pressupôs que o grupo se começasse a organizar por turnos e que fosse criada uma base de dados para gerir as vendas. “Isto começou a ser uma bola de neve: a chegada de livros para vender, pessoas a querer comprar, pessoas a ligar de todos os cantos do país a perguntar se podíamos enviar livros pelo correio…”, conta Marta, uma das fundadoras da Heróis com Capa.
Ao perceberem que a ideia “tinha pernas para andar”, em outubro de 2023, as cinco madrinhas do projeto decidiram estender o apoio a mais causas, dando-lhe um novo nome.
O compromisso é claro: a cada mês, o valor obtido na venda dos livros reverte para apoiar uma associação diferente. A ajuda é dada a projetos de várias dimensões e com diversos objetivos.
A livraria funciona todos os sábados, das 15h às 19h e é visitada pelos vizinhos que avisam “vou ali a casa é já passo aqui”, e também por amantes de leitura, que correm de propósito à loja para agarrar as novidades. “Nesta freguesia e nesta comunidade temos clientes fiéis. Há muitos que já conhecemos e ligamos a dizer: ‘olhe, chegou o livro do autor que gosta’”, conta Marta Amorim, cofundadora e voluntária do projeto.

Promover a circularidade e estimular a leitura
A força motriz do projeto é a boa vontade, já que “funciona unicamente através de doações e de voluntários”. Marta Amorim dedica agora alguns dos sábados à tarde à livraria solidária. Com a Heróis com Capa, descobriu uma forma de “deixar uma marca na sociedade” através de algo que gosta – a leitura.
Nesta livraria, põe-se em prática a circularidade e Marta assegura que todos os livros deixados por alguém têm um destino. “Mesmo que seja um livro super antigo, que já nem interessa àquela pessoa. Ou um livro novo que alguém leu uma vez, mas que não tem espaço para ter em casa.”
O espaço está organizado segundo o tipo de literatura e tem “heróis” para todos os gostos. Para os leitores que querem ser surpreendidos, existem embrulhos com apenas algumas pistas sobre o livro guardado no interior. Para os leitores que não encontram o livro de que estão à procura, há um quadro onde podem deixar um pedido.
Por ser a única livraria no bairro, com preços até 5 euros, a Heróis com Capa facilita o acesso à leitura, explica Marta: “Pais com crianças ou jovens, podem adquirir um livros num valor reduzido, com o embrulho da causa social”.
Ana Caseiro, voluntária e cofundadora do projeto, regista num quadro de giz mais um livro vendido. O contributo vai ser dado à Semear, organização que a Heróis com Capa escolheu apoiar durante o mês de março, e que tem como objetivo “incluir socio-profissionalmente pessoas com dificuldades intelectuais”.

Um livro, uma causa… várias vidas transformadas
Além da compra e venda de livros usados, a Heróis com Capa organiza e recebe no espaço eventos relacionados com a leitura. Recentemente, iniciaram o conceito de Silent Book Club, que consiste numa hora de leitura em silêncio, lado a lado com outros leitores.
Foi com o mesmo interesse de “juntar pessoas à volta dos livros”, como refere Marta Amorim, que a Heróis com Capa aceitou acolher o Clube de Leitores Solidários. Este clube “Mais que Palavras”, organizado por Sara, uma das voluntárias da livraria, acontece quatro vezes ao ano, nas quatro estações, e coloca leitores e convidados a discutir sobre um determinado tema.
O clube recebe sempre pessoas novas, mas conta com alguns membros desde o início. É composto por músicos, psicólogos, escritores, engenheiros ou bibliotecários – e todos leitores nos tempos livres.
Cada uma das sessões tem uma causa associada e o valor de inscrição pedido aos participantes, que pode ser descontado em livros, reverte para a mesma.

No encontro de inverno, realizado em fevereiro, cerca de 30 pessoas, dos 20 aos 70 anos, reuniram-se para ouvir os convidados Filipa Fonseca Silva, Mafalda Santos, Samuel Pimenta e Maria João Covas falar sobre distopias.
Esta manhã de conversa permitiu apoiar a Associação de Cuidados de Saúde Pediátrica PUPA, criada por Marina Meirelles, após a filha ter sido diagnosticada com um tumor cerebral incurável. O objetivo desta organização sem fins lucrativos é ajudar os serviços pediátricos de alguns hospitais, no sentido de “colmatar necessidades de crianças e de pais que viveram esta doença”.
O valor conseguido através da Heróis com Capa vai integrar a campanha anual da associação, que permitirá doar, desde pensos rápidos coloridos a monitores cardiorrespiratórios, aos serviços de pediatria do IPO Lisboa e dos hospitais de Setúbal e Coimbra.
Marina Meirelles, presidente da associação PUPA, destaca a importância de iniciativas como a Heróis com Capa, em que as pessoas se reúnem para “fazer partilha de conhecimento e ainda por cima nutrir causas solidárias”.
*Texto editado por Catarina Reis

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