Tudo começou com um tropeço. Rogério Charraz nasceu quatro anos depois daquele importante 25 de Abril de 1974, sempre ouviu histórias sobre o país que renasceu da Revolução dos Cravos… mas só mais tarde, muito mais tarde, quando se cruzou com a história de Celeste Caeiro, a mulher que distribuiu cravos pelos militares no dia 25 de Abril. “Falamos sempre das mesmas personagens, dos mesmos episódios… Ao longo dos 45 anos de ditadura, foram muitos os que lutaram contra o regime.” E este pensamento só serenou quando ganhou palco, literalmente.

Foi com esta ideia em mente que Rogério se uniu ao seu “parceiro no crime”, o jornalista e letrista José Fialho Gouveia, para contar, através da música, a história de figuras que fizeram Abril, mas das quais pouco ouvimos falar.

Assim nascia o projeto “Anónimos de Abril”, que estreou no ano passado no Teatro Tivoli, no âmbito das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril e dos 100 anos do teatro. Um espetáculo onde se apresentaram as canções inspiradas pelos heróis de Abril, com música de Rogério Charraz, letra de José Fialho Gouveia e participação de Joana Alegre.

Quem são eles, esses anónimos? “A Celeste era evidente por duas razões: pela história em que tropeçámos e pelo simbolismo do cravo, que é importante para a poesia da história”, aponta Rogério.

Mas não só.

Estes heróis foram sendo descobertos através de leituras e conversas com especialistas no tema, como com o jornalista Miguel Carvalho, que lhes apresentou a história da sua tia, Branca Carvalho, que daria origem à canção “Mariana”, mas também com a diretora do Museu do Aljube Rita Rato e com os historiadores Irene Flunser Pimentel e Fernando Rosas.

O jornalismo ao serviço da criação artística

Rogério Charraz é músico, José Fialho é jornalista e letrista. Conhecem-se há cerca de dez anos. Foi logo quando se conheceram que o jornalista, que sempre rabiscou poemas e letras, apresentou ao músico um conjunto de canções que escrevera, que desencadeou uma parceria que chegou aos palcos. “Existe uma simbiose entre nós”, diz José.

Por isso, quando Rogério se cruzou com a história de Celeste Caeiro, soube de imediato que José seria a pessoa indicada para pôr o projeto em marcha. Um projeto que seria sempre musical. Rogério explica porquê: “Algumas destas personagens já surgiram em meios de comunicação, mas as pessoas não voltam a ler as reportagens. A música faz as pessoas voltarem.”

José Fialho Gouveia sempre viu na escrita de canções possibilidades que não encontra no jornalismo: “No jornalismo, uma reportagem pode tocar-nos emocionalmente, mas não deixa de ter de ser feita de acordo com o código deontológico. Na criação artística, estamos lá de forma inteira e pessoal.”

Com “Anónimos de Abril”, o jornalismo e a criação artística andaram de mão dada.

No passado dia 12 de abril, o projeto subiu ao palco da 4.ª edição da Mensagem ao Vivo, no Jardim de Inverno (Sala Bernardo Sassetti), no Teatro São Luiz, onde José e Rogério apresentaram, em estreia absoluta, uma nova canção, inspirada na história de Luísa Vaz Oliveira – estudante que, com apenas 22 anos, foi presa pela PIDE.

Rogério Charraz e José Fialho Gouveia apresentaram uma nova canção na Mensagem ao Vivo. Foto: Inês Leote

Os conhecimentos jornalísticos de José foram, portanto, fundamentais. “A parte jornalística ajudou muito: ler livros, ler jornais, chegar a histórias através de histórias”, contam os dois.

E tiveram sempre a preocupação de recolher histórias que permitissem olhar para o 25 de Abril sob diferentes prismas, garantindo um leque variado de personagens, que não incluísse só a perspetiva masculina.

“Quisemos também mostrar o papel que as mulheres tiveram. Elas, que corriam ainda mais riscos”, sublinha José.

Um espetáculo, um disco, um livro… um site

Com as personagens escolhidas, e a vida delas estudada, lançava-se o desafio: escrever uma canção, de 3 a 5 minutos. Essa foi a parte mais difícil, adianta José. “Todas estas figuras tinham uma história de vida rica, e convinha que as letras passassem a complexidade dessa vida, mas não podiam ser lençóis intermináveis… tivemos de recorrer a vários truques e técnicas para não trair as histórias, não as reduzir demasiado, não as falsear…”.

No caso da canção Os mortos de Abril, que conta a história das quatro pessoas que morreram na revolução (João Arruda, Fernando Reis, Fernando Giesteira e José Barneto), foi um desafio acrescido: resumir quatro histórias numa só canção, o que só se conseguiu reduzindo a letra original. “A letra original tinha três quadras por pessoa, e tivemos de eliminar uma das quadras de cada um. Perdeu-se informação mas o sentido está lá.”

O espetáculo estreou no Tivoli no dia 29 de Janeiro de 2024, e desde então que tem percorrido o país com 14 canções. Um espetáculo com uma ambição clara: a de inspirar as pessoas e apelar à ação.

“Queríamos que estas canções inspirassem o público a não se conformar, quando tantos lutaram numa altura mais difícil. Tínhamos a preocupação de que, do ponto vista musical, não fosse um espetáculo demasiado fechado e que houvesse alegria”, diz Rogério.

anónimos de abril
“Anónimos de Abril” tem percorrido o país para falar dos nomes que nem sempre lembramos e que fizeram o 25 de Abril de 1974. Foto: Luís Filipe Catarino

E o que começou por ser um espetáculo acabou por culminar num disco, com a participação do músico João Afonso. Só que, das 14 canções do espetáculo, só foi possível gravar 8. “A canção que mais me custou deixar de fora foi a canção do Chico Sapateiro.” “Chico” era Francisco Miguel Duarte: escritor, poeta e o último preso político do Campo de Concentração do Tarrafal.

Surgiu ainda um livro, o que permitiu a José alongar-se para lá das canções, fazendo uso dos seus conhecimentos jornalísticos para contar a história de oito anónimos. “Foi um processo diferente, no livro não tinha o espartilho da canção, o que me permitiu falar com as pessoas, com as suas famílias.”

Entretanto, os espetáculos que correram o país estão a dar frutos: já foram muitas as histórias de anónimos de Abril que os espectadores foram partilhando com os autores do projeto, quer através de e-mails, mensagens ou conversas nos bastidores. Foi aliás o que aconteceu com a canção que se estreou na Mensagem ao Vivo, que lhes foi contada por uma amiga.

“A Luísa, a protagonista da canção, é mãe de uma amiga e ela partilhou comigo um texto, escrito pela mãe, onde ela conta a sua experiência, a sua história”, começa por dizer José. “Tocou-nos muito, havia de facto material para fazer uma canção. Uma canção que aborda um ângulo que ainda não tínhamos explorado: o da mãe, do pai, dos irmãos, dos amigos que ficam a sofrer quando alguém parte para a clandestinidade.”

Agora, Rogério e José preparam-se para compor e escrever novas canções e e acabaram de lançar um site na Internet, onde reunem todas as histórias do projeto, permitindo ainda a partilha de novos testemunhos. E as atuações não param: dia 24 de abril, levam o espetáculo a Alcanena, dia 25, ao Marco de Canaveses e dia 26 a Esposende.

O objetivo é sempre o mesmo: preservar as memórias, antes que elas se percam. “Na situação que estamos a viver, torna-se urgente e recuperar a memória da nossa vida durante 48 anos.” Esta é uma questão importante pois, quando o espetáculo estreou, já só quatro pessoas das 19 homenageadas estavam vivas. Uma delas era Celeste Caeiro, que entretanto faleceu em novembro de 2024.

“Muitos dos descendentes diretos destes anónimos estão já a caminhar para os últimos anos de vida… se não preservarmos estas histórias, elas vão-se perder, vão-se esfumar”, resume Rogério.


Ana da Cunha

Nasceu no Porto, há 28 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa, descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna, na Universidade Nova de Lisboa.

ana.cunha@amensagem.pt


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