Aquele 2022 foi o ano do reencontro da família de imigrantes. Tayyaba Shaheen partiu do Paquistão há três anos, para vir ao encontro do marido, que já conhecia a luz de Lisboa e as pedras da calçada da cidade para onde veio em trabalho. Para trás, ela deixava uma carreira como explicadora de matemática, sem nunca imaginar que trocaria os números por arte e se tornaria artesã de bordados.

Quando cá chegou, Tayyaba tornou-se uma das muitas mulheres imigrantes sem trabalho em Lisboa. “Enquanto imigrantes, na maioria das famílias paquistanesas, as mulheres não trabalham e estão em casa.” Tem sido mais fácil para os homens arranjar um emprego e o marido dela já cá tinha um.

Tayyaba quis ocupar o tempo livre e seguiu a recomendação de uma amiga para experimentar um workshop de bordado. Não dominava a técnica, não sabia por onde começar. Mas hoje é uma artesã.

Uma das seis do coletivo Homelore, todas elas imigrantes, cujo trabalho deu uma exposição, aberta ao público entre 11 e 13 de abril. “All roads lead to home”, que terá lugar no Live Content, em Santos, reflete sobre o conceito de “casa”, que ultrapassa culturas e fronteiras.

Shamim e Tayyaba, durante um encontro de produção de bordados da Homelore. Foto: Frederico Raposo

Tayyaba nunca tinha tido experiência a bordar até conhecer o Homelore, que integra há um ano. Em conjunto com outras mulheres, cria peças de bordado únicas, que combinam técnicas tradicionais de bordado do Sul Asiático (como kantha, sozni, phulkari e sindhi tanka) com simbologia e temas de Portugal, para nos lembrar que… é muito mais o que nos une do que aquilo que nos separa.

Os motivos de coração, por exemplo, são partilhados nos bordados de Viana do Castelo e na técnica sozni. Assim como a técnica kantha tem uma história de intercâmbio com Portugal, que nestes bordados está representada nas andorinhas.

“Acho que é uma boa oportunidade para passar o tempo e melhorar os seus talentos escondidos”, diz.

Mas não só: é também estar mais perto de uma fonte de rendimento e um caminho para se tornarem mais… visíveis.

“Onde estão as mulheres imigrantes?”

O projeto, fundado em março de 2024, surgiu de uma inquietação de Riddhi Varma, que via a imigração a aumentar, mas questionava-se: “Onde estão as mulheres imigrantes?”.

A fundadora nasceu e cresceu na Índia, mas viajou pelo mundo e viveu em São Paulo, no Brasil. Também morou em Braga em 2018 e, há cerca de dois anos, regressou a Portugal para ingressar no Mestrado em Gestão na Nova SBE (School of Business and Economics).

Riddhi Varma é fundadora da Homelore. Foto: Frederico Raposo

“Vi que a cidade tinha mudado muito e tinha havido um aumento da imigração. Mas, ao mesmo tempo, não via as mulheres imigrantes na rua.”

Esta questão, que dirigiu a uma professora, deu origem a uma candidatura a um programa destinado a apoiar projetos inovadores de alunos universitários – o Prototyping Fund.

Riddhi Varma, arquiteta de 27 anos, reconhecia que muitos dos projetos existentes ligados ao apoio a imigrantes não estavam a “celebrá-los”, mas a “encará-los como um problema”. Por essa razão, queria apresentar uma proposta que tivesse os interesses e motivações das mulheres imigrantes no centro. 

Ao ser selecionada, pôs em prática um workshop de bordado de dois dias no Lisbon Project Association, uma organização sem fins lucrativos, que procura ajudar na integração de migrantes e refugiados.

Porquê bordado? Este tipo de arte está presente em várias culturas, embora tenha designações diferentes em cada uma delas. Em muitos países, o bordado está a cair em desuso ou, até mesmo, a desaparecer, pelo que o trabalho do coletivo criado por Riddhi é também um ato de resistência contra o esquecimento da cultura.

Aquele primeiro workshop teve adesão e estendeu-se por mais três meses. Ao fim desses três meses, tornou-se num projeto, com uma equipa fixa. Às quintas-feiras, no Impact Hub, espaço de cowork na Penha de França, escolhem-se as linhas e os tecidos e partilham-se as experiências da diáspora.

Riddhi Varma quer dar horizontes diferentes às mulheres imigrantes em Lisboa. Foto: Frederico Raposo

O nome – Homelore – remete, primeiro, para a dimensão doméstica tradicionalmente associada às mulheres (“home“). “Não falamos muito sobre isso. É tabu falar sobre o quão difícil é”, diz Riddhi. Mas também remete para as histórias e costumes, transmitidas entre gerações, que dão origem ao folclore – daqui o “lore“.

Riddhi, a fundadora, distancia-se de uma lógica de ativismo ou caridade e envolve as participantes na co-criação do projeto. Gosta de lhe chamar uma “prática de arte”, que “permite levantar questões sobre a imigração, de uma maneira mais leve”.

“Inicialmente, quando comecei, pensava que toda a gente devia ter um emprego pago a tempo inteiro, coisas desse género. Mas, à medida que começo a envolver-me mais, percebo que nem toda a gente quer realmente isso. Estão muito felizes a fazer este trabalho em part-time e a ter um pequeno rendimento para si. Talvez lentamente, em algum momento, queiram ter isso, pensem nisso como uma carreira”, remata.

Bordar uma nova história, noutro país

Nasia Daud e Sayda Parven estão cá desde o primeiro picar de agulha. Nasia chegou a Portugal em julho de 2024, vinda do Paquistão, e trazia uma filha que a acompanha nos encontros do coletivo. Sayda, natural do Bangladesh, encontrou uma “família” longe de casa, no coletivo Homelore, que frequenta há um ano.

“Aqui eu vivo com o meu marido, que está muito ocupado desde a manhã até à noite e eu estou em casa sozinha, então, pensei que podia fazer alguma coisa”, recorda Sayda.

Também Shamim Muneer e Gulnaz Kamalani deixaram o Paquistão, em busca de futuros “brilhantes” para os filhos. Shamim tinha aprendido a bordar com a família aos 14 anos e, no coletivo Homelore pôde voltar a pegar nas agulhas e nos fios. Já Gulnaz, que chegou a Portugal em 2019, era uma “principiante no bordado”, mas com muita prática e ajuda da professora já pensa em “tornar isto uma profissão”.

Gulnaz gostava de fazer do bordado carreira. Foto: Frederico Raposo

Para algumas delas, os bordados que criam aqui são encarados como fonte de rendimento. “Em Portugal é difícil arranjar trabalho. Esta é uma oportunidade para provar a mim própria que tenho um talento e que consigo receber algo”, diz Sayda. Embora a relação do coletivo com o mercado ainda esteja por explorar.

“Nós estamos a aprender novas habilidades, para o nosso futuro. Quando aprendemos bordado, podemos fazê-lo nas nossas próprias roupas e nas roupas de outras pessoas, podemos receber encomendas. Posso ganhar com este projeto”, acrescenta Tayyaba.

Shamim veio do Paquistão por acreditar que os seus filhos viveriam melhor em Lisboa. Foto: Frederico Raposo

“Como a cidade nos adota a nós e como nós adotamos a cidade”

Inspirando-se no mapa da cidade de Lisboa e na fisionomia dos locais onde vivem, por exemplo Marquês de Pombal ou Martim Moniz, os membros do coletivo criaram peças que misturam elementos da sua nova “casa”, Portugal, com bordados típicos das “casas” de onde partiram. 

Estas peças vão ser apresentadas na exposição “All roads lead to home”, que terá lugar no Live Content, em Santos, entre os dias 11 e 13 de abril. Os três dias de exposição vão contar com atividades, conversas, workshops e um almoço comunitário, de modo a celebrar “não só a arte, mas tudo o que foi construído em torno dela.”, refere a co-fundadora Céline Le Grand.

As peças, onde estão cosidas as memórias e emoções das mulheres artesãs e imigrantes do coletivo Homelore, vão ser mostradas pela primeira vez ao público. “Há uma partilha entre nós e agora há também uma partilha com a cidade”, destaca, Riddhi Varma, fundadora do projeto.

A arte como “ponto de partida” para as relações

O ato de bordar é acompanhado de muita “conversa de raparigas”, conta Riddhi Varma. Neste espaço, onde podem falar hindi entre si (a língua materna de todas), vão partilhando a vida, trazendo normalidade a estes tempos muito anormais como imigrantes em Lisboa. “Neste momento, estamos a jejuar, mas normalmente falamos sobre as receitas que fazemos em casa”, conta Shamim.

“Falamos sobre as nossas famílias, enquanto bordamos. Passamos o tempo alegres”, acrescenta Tayyaba. Ao lado, Gulnaz lembra que assim se vão tornando amigas: “Sentamo-nos juntas, às vezes vamos lá fora juntas. Fazemos festas e comemos juntas. Nós gostamos muito deste curso, porque para além de aprender, aqui também nos divertimos”.

E elas sabem: para “qualquer tipo de imigrante” chegado a um novo país, criar amizades é um desafio.

Riddhi acredita que encontrar um “ponto de partida” comum, neste caso a arte, pode ajudar a desenvolver relações. Ao fim de um ano, algumas das participantes do projeto aproximam-se dela e, de forma voluntária, confiam-lhe os seus problemas.

Tal como Riddhi, também Céline Le Grand, designer e cofundadora do projeto, é imigrante. Nasceu em França, mas viveu 15 anos na Ásia, passando por Hong-Kong, Cambodja e China. Em 2002, mudou-se para Lisboa e, ao ouvir falar da ideia de Riddhi, quis, desde logo, aliar-se ao projeto. 

O contacto que teve com outros países permitiu-lhe “sair da zona de conforto” e “desconstruir estereótipos”. Para Céline, o Homelore também é uma oportunidade de se aproximar de realidades diferentes da sua: “Se eu passasse por estas mulheres na rua, se calhar nem lhes prestaria muita atenção… Por isso, é bom criar momentos em que valorizamos o tempo com outras pessoas.”

O coletivo Homelore. Foto: Frederico Raposo

*Texto editado por Catarina Reis


Maria Maia

Nasceu em Lisboa, em 2002 e cresceu entre a cidade e a periferia. Na universidade, ganhou o gosto e o ofício do jornalismo. Apaixonada por ouvir, interessada em conhecer e destinada a escrever sobre isso. É jornalista e produtora na Mensagem de Lisboa.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *