O ano era 2019 e Laura Gonçalves recebia pelo telefone um curioso telefonema para ir ao programa de televisão “de uma tal Cristina”. A francesa que havia trocado Paris por Lisboa três anos antes ainda não estava familiarizada com as celebridades portuguesas e a resposta ao convite para estar ao lado de Cristina Ferreira no ecrã da SIC soou como quem conta uma piada:
“Está certo, mas tem de ser rápido, pois tenho que abrir a creperia às dez”, disse.
A completa falta de noção de que estaria num programa cuja audiência matinal ronda as 500 mil pessoas foi determinante para a proprietária da Creperia Le Bar à Crêpes, na Graça, sentir-se bastante à vontade na missão de professora de francês da “tal Cristina”, numa aula hilariante que culminou com a lição sobre como se pronuncia “pilinha”, ou “zizi” no idioma de Proust.
Mal suspeitava Laura que a partir dali começava a metamorfose dela da então “francesa do crepe” para a “francesa do stand up”. Naquele dia, a creperia abriu após às 10h e, na cabeça de Laura, além dos ingredientes que utiliza para preparar as dezenas de crepes da sua ementa, começava a ser preparada uma outra receita, igualmente deliciosa: a de comediante.
“Já gostava de escrever umas coisas engraçadas, mas aquilo naquele dia com a Cristina Ferreira correu tão bem que pensei que poderia desenvolver”, lembra-se Laura.
A participação realmente correu bem, ao ponto da francesa dias depois voltar a dividir o ecrã com a “tal Cristina”.
Era o início de uma trajetória que a levaria a outros palcos, não só como comediante, mas também a exercitar uma outra verve da francesa, a de cantora. Um mês após o dueto com Cristina Ferreira, Laura já dava os primeiros passos a solo, numa noite de stand up no vizinho Camones, na Graça. Não pararia mais.
Para além dos palcos intimistas onde se pratica o humor em Lisboa, soma-se a participação no The Voice Portugal em 2024, quando conquistou os jurados ao cantar um pot-pourri no estilo chanson française de hits dos mentores Sónia Tavares, Sara Correia, Nininho Vaz Maia e Fernando Daniel, incluindo uma belíssima versão em francês de Chelas, de Sara Correia.
Mais recentemente, Laura tem subido ao palco do Got Talent Portugal, onde disputa a semifinal no próximo dia 5 de março. O guião traz um pouco do desempenho dela no Instagram e no TikTok, estabelecendo um divertido paralelo entre a cultura francesa e a portuguesa, com direito aos conflitos com um “personagem real” que cristaliza essa intensa relação: “O Gajo das Obras”.
O ódio com o Gajo das Obras que virou stand up
A obra em questão é a expansão da creperia que Laura administra desde 2016 com o marido Charles, um restaurante atualmente com ar de bistrot na Graça, que após concluída a reforma ganhará um jardim de 300 metros quadrados e duplicará os atuais 45 assentos disponíveis. Quando estará terminada, entretanto, é um mistério.
A previsão inicial era para maio… do ano passado.

Laura costuma confrontar o Gajo das Obras sobre quando finalmente a obra terminará, para receber sempre a mesma resposta de que será “no fim da semana”, porém acompanhada com um advérbio de tempo inusitado e desesperador: “se Deus quiser”.
“Com o Gajo das Obras aprendi que o tempo em Portugal é relativo. Em todo mundo, uma semana tem sete dias, mas aqui há o se Deus quiser, que pode estender uma semana por um tempo indeterminado”, conta Laura.
Mas o atraso não tem tirado Laura do sério. Pelo contrário.
No melhor estilo “minha vida é um reels aberto”, Laura tem discutido abertamente a relação de humor e ódio com o Gajo das Obras nas redes sociais, numa série de vídeos que evoca uma das tradições parisienses de cidade mundialmente conhecida pelos museus D’Orsay e Louvre. No caso da versão lisboeta, a francesa “inaugurou” na Graça um museu com um nome peculiar:
No tour pelo museu particular da francesa é possível admirar as obras nada inspiradas do Gajo das Obras, como “a Casa de Banho Cubista”, ainda in progress e passível de reparos, diferente da “Parede Torta”, para desespero de Laura já concluída, o que a obrigará a conviver com uma das paredes do imóvel erguida de forma tortuosa, como se “a parede estivesse grávida”.
Os vídeos viralizaram e obviamente o Gajo das Obras também assistiu.
“Um dia, o Gajo das Obras chegou com a cara séria e me disse: sabes que se falar o meu nome nos vídeos eu posso te processar, não sabes?”, recorda-se Laura.
A identidade do Gajo das Obras tem sido preservada, embora Laura tenha perdido a paciência com a sequência de se Deus quiser. “Parece que Deus nunca quer”, desabafa a francesa, que estabeleceu um ultimato para evitar que, em maio agora, tenha de celebrar o aniversário de um ano do atraso no prazo de entrega, com direito a um “bolo torto” como a parede do seu museu.
Palavrões em português e crepes franceses
O palavrão que batiza o museu particular da francesa na Graça reflete também a forma despretensiosa com a qual Laura lida com o idioma português. “Para mim, falar uma asneira em português é fácil, pois não carrega o peso da mesma palavra em francês”, avalia.
Num dos vídeos, Laura brinca com a palavra “merda”, que dita em português carrega uma força, um tom de revolta, enquanto a versão francesa, “merde”, soa bem mais suave. “É tão delicado que dá vontade de comer”, brinca.

Apesar de falar bem o português, Laura costuma escrever os textos cómicos em francês e depois traduzi-los. O que a levou também a fazer humor na língua materna num projeto criado ao lado de outros conterrâneos: o Nuit 2 Bou, levando stand up en français ao palco do Teatro Bocage, na Mouraria.
Filha de um português que partiu de uma pequena vila ao norte de Braga em fuga do Estado Novo em direção a Lyon, onde Laura nasceu há 38 anos, a francesa só veio a aprender o idioma paterno quando se mudou para Lisboa. A ideia era dar continuidade à atividade na restauração exercida do “salão-bar” gerido pelo casal no 15º quartier de Paris.
O bairro da Graça foi o primeiro e, até agora, único quartier da família francesa em Lisboa, onde Laura vive na companhia do marido e das três filhas. Filhas que, por sinal, também costumam fazer parte do guião nas apresentações de stand up.
O sítio onde Laura abriu o restaurante havia abrigado uma loja de paninis italianos e era desde início o favorito para o novo empreendimento em Lisboa. Com as economias trazidas de França, o casal francês venceu uma espécie de leilão com outros interessados e adquiriu o imóvel. O montante que restou acabou por decidir que tipo de restaurante iriam abrir.
“A creperia não é um negócio muito complicado e caro de abrir. Basta duas chapas e pronto”, resume a francesa, modestamente omitindo um ingrediente importante nesta receita: o talento na cozinha. Além da atmosfera parisiense no coração de um tradicional bairro lisboeta, a creperia de Laura trouxe para Lisboa a verdadeira tradição do crepe francês.
“Os portugueses costumam associar o crepe apenas com sua versão doce, mas há inúmeras receitas salgadas”, explica a comediante na sua versão “francesa da creperia”, que prepara os crepes como cozinha uma piada, com criatividade e leveza.
Após a expansão no restaurante, a ementa com crepes batizados em homenagem a grandes nomes da cultura francesa deve ganhar novos pratos, ampliando a opção dos lisboetas fãs da inigualável gastronomia francesa, que correm ainda o “risco” de serem agraciados de sobremesa uma apresentação flash da comediante de avental por trás do balcão.
Mas isso só quando o Gajo das Obras finalmente terminar a reforma, se Deus quiser.

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