Foto: RosaP/Foursqure

Ulysses Carvalho é empregado de mesa, português de sotaque brasileiro. Durante quase três décadas foi o rosto da histórica leitaria-confeitaria Bijou (ao largo do Calhariz, entre o Bairro Alto e a Bica), permanecendo depois quando o espaço se transformou na pastelaria Aloma. Mudavam as decorações, o cenário, os proprietários e os outros empregados, mas ele mantinha-se, tornando-se símbolo do espaço. Só não resistiu à aquisição recente pela espanhola Manolo Bakes, transitando para a Aloma, na chamada SuperCorExpo, Campus da Justiça, Parque das Nações.

É possível pensar as transformações de uma cidade como Lisboa a partir de um microcosmo como uma confeitaria, e também a transitoriedade dos seus fluxos humanos. Durante mais de vinte anos a Bijou foi o meu poiso diário ao pequeno- almoço. Nos primeiros anos mantinha traços de antiga confeitaria, sendo a clientela uma mistura de habitantes da área e uma população mais flutuante, atraída pela confluência cultural e boémia da zona.

Era possível encontrar, ao pequeno-almoço, o já falecido Pedro Gonçalves (dos Dead Combo) com Tó Trips, e as senhoras Eugénia e Graça, que gostavam de ficar sempre na mesma mesa. Essa era uma das marcas da casa. Não era apenas um espaço comercial. Era vivido por muitos como extensão do seu próprio espaço doméstico.

Não espanta que algumas pessoas tivessem, digamos assim, a sua mesa ali. Se alguém estava a ocupá-la, esperavam que ficasse livre. Também por isso, cada remodelação, ou mudança socioeconómica com impacto no sítio, era vivido de forma intensa. Não era apenas a cafetaria que mudava. Era a nossa casa que também mudara.

Quando fui habitar para a zona, aos fins-de-semana, ainda havia quem ouvisse o relato do Benfica ou Sporting de pequeno transístor colado ao ouvido, enquanto tomava café. No centro das operações estava o Sr. Ulysses, como todos o tratavam. Pose rija, enérgica, olhar ubíquo, controlando mesas, sempre com uma palavra afável para a troca.

Os habituais nem precisavam de fazer o seu pedido. Ele antecipava-o. Se alguém tinha um recado, ou queria guardar um pertence, pedia-lhe. Se era um apartamento, ou um endereço que procurava, a ele recorreria. Parecia saber tudo o que se passava no seu radar. Se o foco era apenas uma troca de palavras, como aconteceu tantas vezes durante a pandemia, era com ele que se procurava comunicar. A tudo e a todos, generosamente, acudia.

Depois, aos poucos, há cerca de dez anos, foram chegando os turistas. Primeiro, o orgulho de outros gostarem do que é nosso, e a sensação que iria ser bom para todos. Tempos de adaptação na Bijou. Não se falava bem espanhol, mas havia o portunhol, e o inglês ou francês, safava-se. O ritmo é que começou a ser frenético.

Foram surgindo as primeiras marcas de hostilidade entre autóctones e forasteiros. “Já viu que, antes, ao caminhar, parávamos, ou desviávamo-nos, quando víamos alguém a tirar fotos, e agora já ninguém faz isso?”, disse-me ele, observador e lúcido, certo dia.

Mas mesmo no meio da exaltação parecia encontrar pontos de fuga e tempo. Às vezes, lá estava ele, à porta, em momento de pausa, a fumar um cigarrinho e sendo alvo de inúmeros cumprimentos. Todos o conheciam. Às vezes, ao final do dia, chegava eu com a minha filha, vindos da escola dela, e ele ainda com paciência para uma brincadeira ou um momento lúdico qualquer com ela. Com quase dez anos continua a falar dele como se fosse da família.

E é.

Há cerca de ano e meio, fui eu a apanhar com a corrente de mercantilização da cidade, tendo abandonado a zona onde habitei durante quase três décadas. Fomos muitos.

Mas fui regressando sempre ao Sr. Ulysses. Numa dessas vezes encontrei a Senhora Eugénia, que até aí havia resistido à gula neoliberal, e aos magotes de turistas de fim-de semana, vindos para despedidas de solteiro.

Disse-me estar também de partida. “Sinto-me como aqueles elefantes que vão morrer à terra”, dizia entre o divertido e o amargurado. “É isso que vou fazer, regressar de onde parti. Aqui já não há lugar para mim.” Ali, como todos sabemos, já só existe lugar para quem ali comprou o seu há muito, ou para quem chega com capital fresco, alguns bem intencionados, outros ansiosos pelo lucro fácil, transformando o direito à habitação em especulação.

Aqui ao lado, em Espanha, onde todas estas lógicas de perversão da vida nas cidades, leva vinte anos de avanço, ameaçam agora com uma greve dos inquilinos, e se não existirem medidas públicas a sério, do governo central e autarquias, não haverá tribunais e leis que os parem. Aqui, apesar de alguns alertas, movimentos cívicos e manifestações, vive-se ainda na letargia. Quem governa, em vez de corrigir as lógicas que nos trouxeram aqui, intensifica-as.

A imprensa, acrítica e sonolenta, limita-se a transcrever, a cada ano, que o turismo tem cada vez mais peso na economia, não percebendo que é o equilíbrio e a redistribuição, e não a dependência e os seus efeitos nefastos, que interessa.

As elites só se contrariam com a descaracterização do centro da cidade, não percebendo que a conflitualidade social também as atingirá, e a outrora classe média – hoje pulverizada e empobrecida num país de baixos salários – agarra-se ao salve-se quem puder individualizado, em vez de engendrar soluções coletivas.

Os restantes, sobrevivem, abandonados à sua sorte. E depois existe uma minoria que vive desse rasto de exterminação social, argumentando para quem os quer ouvir que não existem alternativas. Cidadania e luta política a sério, é necessária.

Mas também o são, nos interstícios, no quotidiano, pessoas como o Sr. Ulysses. São elas que formam comunidade, cidade. Não tive oportunidade de o saudar aquando da sua saída da Bica. Há dias resolvi ir visitá-lo ao seu novo poiso, para
lhe agradecer por tudo.

Às tantas, ao verem que o fotografava, as suas bem mais novas colegas, perguntavam, divertidas, quem era, afinal, aquela celebridade com quem partilhavam o balcão?

É o Sr. Ulysses, que toca muitas existências como seu sentido de coletivo, solidariedade, conhecimento e afeto. Um daqueles seres humanos que mesmo quando está no centro da conflitualidade é capaz do altruísmo, incentivando os que estão à sua volta a fazerem-no também, contaminando e inspirando outros pelo exemplo, sabendo intuitivamente que as mudanças se operam com determinação, mas também através da fraterna alegria. E isso é incomensurável.


Vítor Belanciano

Jornalista independente, crítico cultural, investigador, autor. Editou livros (“Não Dá Para Ficar Parado”, ou “Estás na Moda ou na Merda?). O seu trabalho concentra-se em reflexões culturais (música, artes, território) questões sociais mais amplas ou interação entre política, cultura e movimentos socioculturais. Vive em Lisboa.

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1 Comment

  1. É bem verdade que cidadania a sério é necessária.
    Lembro-me do Sr. Ulisses e da antiga Bijou. Este mês, de visita à obra do Conservatório Nacional, parei por lá, e fiquei consternada. O que se tinha passado? Já nem Aloma!! Só uma espanholada.
    Nunca mais os lanches dos que frequentam o Conservatório (quando para lá voltarmos) poderão ser os mesmos.

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