Servem para ensinar e aprender, a escrever, a contar e a brincar. Fazem-se amigos nas esquinas dos edifícios, juras de amor na cantina a um prato que será, para sempre, o nosso favorito. Escalam-se árvores, esfolam-se os joelhos. Se é certa a importância de uma escola quando o toque de entrada apita e os portões se fecham, que importância terá ela quando o toque é o de saída e os portões… abrem?
Esta é a pergunta lançada por Manuel Banza, 32 anos, um lisboeta apaixonado por dados. Inspirado pelo que vê acontecer em Barcelona, Espanha, onde as escolas são utilizadas para refúgios climáticos (para fugir ao calor da cidade), percebeu que o espaço escolar em Lisboa estava a ser subaproveitado. E não só para termos mais sombras.
“Quais as infraestruturas e equipamentos que temos nas escolas e quais as necessidades que, hoje em dia, sentimos nos bairros?”, questionou-se. E se fosse feito um “match” entre as duas?

Decidiu, então, materializar essa preocupação numa investigação para a tese de Mestrado em Urbanismo Próximo no Instituto de Arquitetura Avançada da Catalunha. E lança agora uma proposta para Lisboa: criar “escolas vivas”, abrir os portões aos fins de semana, feriados e depois do horário escolar para colmatar as necessidades dos lisboetas: mais espaços de convívio, mais sombras, mais lugares de apoio comunitário e até de empreendedorismo (e se pudesse usar a cozinha de uma escola para o seu negócio?).

Seis escolas primeiro, Lisboa e o país depois
Manuel Banza aponta seis potenciais escolas para um projeto-piloto: Liceu Camões, Escola Básica O Leão de Arroios, Secundária D. Luísa de Gusmão, Escola Básica Sampaio Garrido, Escola Básica N.º1 de Lisboa e Externato Primário da Associação Pró-Infância Santo António de Lisboa.
Têm em comum ser todas em Arroios, onde o autor desta investigação diz ser um bom caso de estudo, dada a “densidade populacional” e “a escassez de infraestruturas comunitárias, culturais e desportivas”.
Mas o projeto “Escolas Vivas” quer replicar estas iniciativas por toda a cidade, envolvendo cada vez mais a população. Para tal, seria necessário a aprovação da Câmara Municipal de Lisboa (CML) e equipas técnicas dispostas a pôr o projeto em prática. “Cheguei a falar com técnicos da CML e tive sempre uma receção muito boa, há muita gente que já pensou mais ou menos nisto”, explica Manuel Banza.
Após a aprovação da CML, o próximo passo seria identificar uma freguesia onde este projeto fizesse mais sentido e, em seguida, lançar o repto a associações e cooperativas interessadas. Se tudo corresse bem, repetir o método com outras freguesias.
“Como a escola invade o bairro e o bairro invade a escola”
Manuel Banza procurou entender não apenas como a comunidade exterior pode integrar a escola, mas também como a escola pode coexistir com o espaço que a envolve. Isto também passa por “criar um espaço intermédio entre a rua e a escola”, desimpedido de carros, iniciativa aplicada em 26 locais de ensino em Barcelona, por exemplo.
O lisboeta, que cresceu em Almada, recorda a importância do caminho que fazia todos os dias a andar para a escola com os amigos. Considera que esse hábito “se tem perdido muito”, em detrimento do uso do carro, que tem trazido uma sensação de insegurança e desconforto nas ruas. Por isso, guarda um capítulo neste trabalho para falar de percursos seguros, que incentivem crianças e famílias a deslocar-se a pé.
A escola, enquanto “ponto central do bairro”, onde se reúnem várias gerações, pode funcionar, ainda, como “centro de divulgação do que se passa no bairro”, aspeto que Manuel pretende explorar no futuro.

Mas há custos…
Para o cientista de dados, um dos principais desafios do projeto foi definir o modelo de governança: quem fica responsável pela gestão e implementação do programa “Escolas Vivas”?
E quanto custaria viabilizar esta ideia? Como pagaríamos aos funcionários que terão de assegurar os serviços da escola? O ideal, diz, é que “fosse totalmente pago pelas pessoas que vão utilizar, e não propriamente criar mais uma camada de custos para a escola pública”.
Pelo menos, a ideia já está lançada a Lisboa.
As escolas que já abrem portas aos vizinhos:
Em Lisboa, algumas escolas e associações aliaram-se, nesta lógica de aproveitamento dos espaços. É o caso do Agrupamento de Escolas Gil Vicente, que acolhe iniciativas comunitárias e culturais como:
- Changing (H)earth – Um projeto da Associação Renovar a Mouraria, realizado em parceria com a comunidade escolar do Agrupamento Gil Vicente. Tem como propósito promover a sustentabilidade ambiental e fortalecer os laços sociais e emocionais. A agrofloresta beneficia o ambiente ao reaproveitar águas e resíduos, aumentar a biodiversidade e produzir alimentos, além de apoiar o bem-estar da comunidade escolar.
- Cultiva – Um projeto da cooperativa Rizoma, localizado num terreno cedido pela Escola Secundária Gil Vicente. Combina a Horta Agroecológica da Rizoma com a Agrofloresta Changing (H)earth e estabelece um espaço comunitário focado na agricultura sustentável. O projeto visa promover ciclos locais de produção, venda e consumo, ao mesmo tempo que envolve a comunidade na autossuficiência alimentar e na ação climática.
- Brincapé, Gil! – Um novo projeto promovido pela Associação para a Promoção da Segurança Infantil (APSI), em parceria com a “Bicicultura” e a “1,2,3 Macaquinho do Xinês”. O recinto exterior da Escola Secundária Gil Vicente será aberto ao público aos fins de semana, com o objetivo de criar um novo parque público na freguesia. A comunidade escolar participará na transformação do espaço, tornando-o mais acolhedor e adaptado às alterações climáticas. Também serão promovidas atividades que incentivam a aprendizagem independente da bicicleta e a brincadeira livre.
- Grupo de Teatro Lupa – Criado com o intuito de promover a intervenção social através do teatro, o grupo combina técnicas do Teatro do Oprimido, sociodrama, teatro espontâneo e improvisação, atuando em escolas, associações e comunidades. O Lupa ensaia semanalmente desde o início do ano letivo de 2023 na sala de teatro da Escola Secundária Gil Vicente, espaço que se tornou “casa” para o grupo.
Também a Escola Secundária Camões (Liceu Camões), em Arroios, tem vindo a dinamizar iniciativas culturais e educativas:
- Às segundas-feiras, às 19h, o auditório acolhe um ciclo de cinema, em colaboração com o ABC Cine-Clube de Lisboa, aberto a todos.
- Às quartas, há concertos ao vivo, transmitidos em direto pela Antena 2.
- Mais recentemente, teve início um novo ciclo de concertos e conferências, que decorre às quintas-feiras, às 18h, na Biblioteca Histórica de Camões.
- Aos sábados, o espaço é cedido à Escola Chinesa de Lisboa, onde se realizam aulas de mandarim e cultura chinesa.


João Jaime, professor e antigo diretor da escola, acredita que é essencial defender “uma escola aberta à sua comunidade, quer educativa, quer de vizinhança”.
Num momento em que decorre o processo de descentralização das escolas em Portugal, lembra Manuel Banza, “era a melhor altura para lançar esta ideia”, que pode ser posta em marcha ao nível local.
*Texto editado por Catarina Reis

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Usar espaços verdes como refúgios climáticos é uma ideia óbvia. Mas como sabem, nas últimas ondas de calor em Lisboa, proibiu-se o acesso aos espaços florestais, como a Mata de Alvalade, Quinta das Conchas ou Parque de Monsanto, onde para cúmulo do rídiculo se colocaram umas fitas de plástico, que ainda hoje lá estão, como se isso impedisse alguém de lá entrar!
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