Chove em Lisboa e, pior do que Lisboa na chuva, é a Lisboa sem luz. A Lisboa monocromática é a anti-Lisboa, pois quem cá vive ou apenas visitou-a numa tarde de sol, sabe que grande parte da magia de Lisboa reflete-se na sua luz inimitável e no azul do seu céu, intenso e hipnotizante como os olhos de uma linda mulher.

E para nós brasileiros e outros imigrantes de pele escura, estrangeiros vindos do sul, e não importa que sul seja, atraídos pelo brilho da joia do Atlântico Norte, as cinquentas sombras de Lisboa são uma espécie de traição matrimonial.

É como se, na nossa manifestação de interesse em viver ao lado de Lisboa até que a morte ou a deportação nos separe, a menina-moça triste de tez pálida e olhos úmidos de chuva não nos manifestasse nenhum interesse.

Lisboa com os olhos de ressaca da Capitu do Machado de Assis e, nós, pobres Bentinhos, a nos questionar: traiu-nos ou não?

Enquanto isso, o homem de fato na televisão diante de um mapa gigante anuncia uma nova depressão para nos deprimir ainda mais. 

E lá vem Hermínia e o seu mau feitio, varrendo as ruas de Lisboa com seu hálito frio, torturando os chapéus de chuva, Hermínia o terror do estendal, onde as roupas agarram-se umas às outras para se proteger da sua ira.

Aviso laranja, alerta a repórter na televisão coberta num capote diante de um cenário glacial. O aviso é laranja, mas branco-neve é a cor preferida da insensível depressão Ivo, fria como as nuvens que carrega consigo, fechando escolas e os livros de caligrafia das crianças onde agora Ivo não vê mais a uva, só chuva.

Calma, Hermínia, calma, Ivo. Sei bem, os tempos são difíceis e o desejo é de despentear ainda mais a cabeleira das cabeças ocas dos líderes do ódio. 

Mas não é preciso deprimir tanto assim.

Deixa Lisboa sorrir.

Chove em Lisboa e os lisboetas nas ruas bravamente lutam contra as depressões que se sucedem enquanto o cronista, são e salvo diante da sua secretária, enfrenta a tempestade que se forma dentro dele. 

O inverno em Lisboa para um cronista de sangue quente é como o triste ciclone de gravata no púlpito do parlamento a tentar soprá-lo de volta para a sua terra.

Lá, onde a chuva também surge com sua agressividade tropical, mas é de pouca dura e logo vem o sol, a enxugar os ânimos, a aquecer a alma.

Escrever sobre o clima tem lá um efeito catártico. No Brasil dos tempos invernais dos generais, os textos nos jornais que falavam sobre o clima ocupavam o lugar de outras notícias subversivas fulminadas como um raio pelas intempéries da censura.

Uma forte rajada de vento estremece a janela e os meus nervos. Me dá arrepios só de lembrar nos dias nublados em que o quepe e a bota era moda nas quatro estações do ano.

Mas já passou, ficou para trás, e o que vale, não é Fernandinha, é que ainda estamos aqui.

E que fique a lição: não é para general nem almirante guiar uma nação.

Enquanto isso, o pivô de ar triste na televisão fala em agitação marítima nos próximos dias e a informação tem o efeito de um anti-ciclone tropical a espantar o tempo ruim.

Mas, aviso aos navegantes, se o mar agita nos primeiros dias de fevereiro, não é depressão coisa nenhuma, é Iemanjá, a rainha do mar, a aportar na beira-mar.

Salve dia 2 de fevereiro!

Caem as quatro conchas em cima da toalha branca, alafia, tudo bem bom, não tem o que se preocupar, pois Iemanjá nos guiará pelas águas turbulentas da vida.

E a chuva em Lisboa há de passar para assim estiar todos os nossos desassossegos.


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Álvaro Filho

Jornalista e escritor brasileiro, 51 anos, há seis em Lisboa. Foi repórter, colunista e editor no Jornal do Commercio, correspondente da Folha de S. Paulo, comentador desportivo no SporTV e na rádio CBN, além de escrever para O Corvo e o Diário de Notícias. Cobriu Mundiais, Olimpíadas, eleições, protestos e, agora, chegou a vez de cobrir e, principalmente, descobrir Lisboa.

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