O Matteo trabalha no Centro Cultural Camões de Maputo. O Matteo disse-me para não ir. Disse-me: “Não faças isso.” E depois: “Tira isso da cabeça.” Talvez soubesse que dizer-mo não ia servir de nada. Seja como for, isento-o, lavo-lhe as mãos: claro que o Matteo não tem culpa nenhuma. Ele sabia lá que estava a plantar uma centelha.

Eu tinha aterrado em Maputo, e ele fora buscar-me ao aeroporto. No caminho, vi-a pela primeira vez: a Vila Algarve, como esqueleto de uma coisa que foi viva e hoje é morta. E a explicação do Matteo: “É a antiga sede da PIDE.” Sou romancista, o que significa que pouco me atrai mais do que a ideia dos destroços, sejam de cimento ou coração. Respondi logo: “Que maravilha, quero ir lá.” E logo ele sábio, taxativo: “Não podes.” Foi como ter-me dito que era obrigatório. O portão estava fechado, havia um muro com um buraco – parece que lhe bateu um chapa em cima – e depois umas escadas que pareciam implorar pelos meus pés, e paredes velhas, descaídas, a implorar pelos meus olhos, e buracos onde outrora houve janelas a implorar pelas minhas mãos. O Matteo esclareceu: “Não se pode entrar sem uma autorização do Ministério dos Antigos Combatentes.” À estrangeira, perguntei: “E se eu entrar na mesma e depois me fizer de parva?” Ele aflito: “Não, não, não faças isso.” Eu não disse nada, ele não insistiu mais. Deve ter ficado tranquilo, incapaz de saber com quem lidava.

Enfim, claro que fui lá, e ainda arrastei o Quive. Eduardo Quive é coisa bela a passear pela capital de Moçambique: poeta e contista, jornalista, editor, ei-lo a terminar o voo alto do romance. Atreveu-se a essa travessia, mas nunca a atravessar o portão ou o muro esburacado da Vila Algarve. E ainda pareceu muito admirado com isto de eu querer fazer coisas ilegais. Ele pode ser de lá, mas eu mostrei-lhe certos recantos de Maputo. Numa certa tarde, Quive – mas vamos chamar-lhe Dudu, para sentirmos que com ele passeamos de mão dada – sugeriu que fôssemos ao Núcleo de Arte. Lá fomos. Não liguei nenhuma aos quadros, pouco me interessa a tinta atirada para uma tela, e convidei-o pouco depois para a invasão de um edifício. O Dudu pareceu admirado, mas eu tranquilizei-o: “Não te preocupes, se houver confusão eu faço de turista e digo que és o meu primo francês que não fala português.” Ele acedeu, imagino que só para não dar parte de fraco.

Lá chegados, fui a primeira a meter os pés do outro lado dos tijolos fragmentados, e a enterrar o pé no matope proibido. Em cima, cresciam ervas daninhas feitas selva, agarrando-se às pernas desnudas que só sem tecido aguentam o calor de Moçambique. Tudo ali grita abandono, até os contentores absurdamente cheios do lado de fora. Construída em 1934 por portugueses, a Vila Algarve tem respirado aos bocados. Iniciada a guerra colonial, a PIDE lançou-se àquilo, comeu tudo, ficou com o edifício, fazendo ali a sua sede até à independência de Moçambique. Desde aí, é um esqueleto a fazer lembrar a vida, o que significa que faz também lembrar a morte. Como morto-vivo, é impossível não ser notado por quem passar entre a Mártires da Machava e a Ahmed Sekou Touré.

As paredes nuas viram sabe deus quantos homens a serem torturados, mas nem uma só frase para os incautos que trespassam o portão. Tudo é adivinha e cogitação – tudo é certeza. Extinta a polícia política, ali ficou uma espécie de palácio a fazer de espécie de calhambeque, cada vez mais seco, cada vez mais devoluto. Com isto, cada vez mais deprimente. Volta e meia, houve ou haverá quem daquilo faça casa – sempre é um chão, sempre é um tecto – e as marcas de passagens à-toa vão-se fazendo ouvir entre os ecos dos passos em Maputo. Hoje, as ervas daninhas crescem selvaticamente, e tudo soa a desamparo, quando toda a gente sabe – santo deus – que o passado nunca vai a lado nenhum sem nós. No máximo, consegue esconder-se atrás do tempo, e ei-lo ali a ver se passa despercebido: em vez dos gritos das torturas, as heras que começam a comer o cimento, tapando o que outrora há-de ter tido sangue, carne suada de homens que tivessem feito de animais; em vez da rígida serventia ao Estado Novo, o que veio depois, e que ali fez também história e caminho: uma malinha de senhora que alguém deixou ali, um chinelo de criança isolado, um cachimbo para fumar crack largado entre os despojos. E, claro, terra e pó que o vento lá deixou, manchas de humidades coladas ao tecto – que já são tecto –, garrafas de cerveja partidas, graffiti a chamar filhos-da-puta sabe-se lá a quem, azulejos partidos, pedras sovadas pelo tempo, mensagens de esperança (“A dor pode durar uma noite, mas se você ficar firme a alegria virá pela manhã”), os restos de uma banheira, arestas corroídas por décadas, buracos onde se viram portas e janelas, uma varanda que já nem varanda é, é só vazio, e salas sem nada, salas sem nada, salas sem nada, num esqueleto a fingir que nunca teve carne à volta.

Enquanto estávamos ali dentro, a Vila Algarve era tudo o que existia. Durante segundos, parecia que Maputo recuava, e existia apenas aquilo como a história tanta, quase toda: ali estava o abraço dado por Portugal a Moçambique, e os restos de dois corpos que se largaram finalmente. Não sei quantas seringas ali terão entrado em veias, quantos corpos se terão estafado noutros, mas sei que vários. À romancistas, eu e o Dudu devemos ter cogitado o mesmo: estava ali um romance a oferecer-se, a estender-se, e quanto mais o edifício se desfazia mais um livro se fazia edificar. Ou talvez ele pensasse apenas que não me devia ter chamado para nada, e que devia ter ficado descansado em casa ou a trabalhar sem dramas. Sei lá. Perante o abandono, busca-se uma saída, e os despojos ali à bruta impulsionam o optimismo: tanta coisa tão triste tem de acabar por servir para alguma coisa, tanta destruição tem de ser pó para construir. Gente menos lírica dirá apenas que é incúria e mais nada e que é isso que aflige.

Pouco tempo ali estivemos, quase nem deu para ouvir ecos de gritos. Deu só para julgar à pressa, talvez isto, talvez aquilo, quem sabe se. As paredes nuas de informação oficial – de um raio de um papel colado, santo deus – estavam vestidas pela passagem de tanta gente, tanto tempo, tanta chuva. E no Verão a casa ficava a arder, a torrar, o dia todo. Anos e anos sem mais além do tempo, sem mão de ninguém, só deixar estar – e deu naquilo.

Assim que vi escadas, subi-as. Era impensável não pôr os pés num tecto que acabará por desabar. Tudo era abandono, mas ainda dava para aguentar um pouco mais, antes da morte final, do abate, da bola de chumbo, sei lá bem. Antes de que enfim se enterrasse o espectro de um edifício que ali está sem servir para nada.

Enquanto espreitava à janela, embora não lhe possamos mesmo chamar janela, um homem lá de baixo chamou-me. Era o guarda, e entráramos ali na maior, sem disfarçar – ele sentado na ponta oposta à do buraco no muro. Fiz um ar de quem não fora apanhada com a pata na poça, mas depois queixei-me ao Dudu: “Caraças, não devia ter estabelecido contacto visual.” Ele mandara-nos descer, e agora tínhamos menos desculpas para nos demorarmos. Demos mais umas voltas a correr, que Maputo é longe de casa, sei lá quando voltarei ali, e então seguimos para as escadas.

O homem começou a mandar vir. Não sabíamos que não podíamos estar ali? Como é que entráramos? Ele indignado sempre. E nós parvos: “Entrámos por aquele buraco na parede.” “Mas não vêem que o portão está fechado, que não podiam?” Bem víamos, e o Dudu não me deu espaço para fazer de turista tonta, embora eu me alongasse, me esforçasse: “Ah, não se pode? Desculpe, não sabia.” E enquanto armavam os dois um braço-de-ferro, ombro a ombro, eu tentava insistir na narrativa da europeia que não sabe o que faz da vida. Perante um edifício com cara de quem vai ser pó, tive o desplante de perguntar: “Isto já está abandonado há muito tempo?” E até fingi que não sabia que aquilo tinha sido casa da PIDE, e que agora era propriedade do Estado. Paciência. O homem continuava a reclamar. Nós pedíamos desculpa, à cínicos, bons meninos. E ele ainda punha o risco em si: e se alguém, lá em cima, tivesse aparecido para nos matar? “Se vocês fossem matados, a responsabilidade era minha.” Dois cadáveres são peso que nenhuns ombros querem ter. E o risco é coisa que se corre mas só se houver para onde correr. Por isso, lá veio a sentença, feita de aritmética básica e jogo de cintura social: se nos levasse para a esquadra, a coisa ia ficar-nos bem mais cara do que se lhe déssemos qualquer coisa. O Dudu acenou-lhe com vinte meticais, o homem disse que a nota nem dava para um pão. O Dudu garantia que dava para dois. E fingia que não tínhamos mais nada.

Enfim, lá nos safámos, “Ah, desculpe lá, sabe como é.” Saímos em grande, pela porta de entrada, embora tivéssemos ganhado carinho ao muro. Ingénua, achei que, depois desta invasão de propriedade, tinha encontrado no Dudu um amigo para a vida toda. Cometer crimes, à partida, une qualquer par – uma certa ideia de urgência, uma certa doçura de esperança. Até lhe sugeri, sei lá, que fôssemos ao bairro onde se vende cocaína. Não era que precisasse de umas compras, mas sempre se dava um passeio numa Maputo que me andava a fugir dos olhos. Mas ele despediu-se de mim à pressa, inventou que tinha deixado o assado ao lume na Matola, bloqueou-me nas redes sociais e nunca mais o vi.

Esta crónica resulta de uma residência literária feita em Moçambique, organizada e financiada por uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Centro Camões de Maputo.


Ana Bárbara Pedrosa

Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Vários pontos do mundo culminaram em Viagens com o Mehdi, todo escrito junto ao Tejo. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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