Acho mais fácil ser escritor em Maputo. Não é preciso inventar nada. Claro, tudo o resto é mais difícil, até meter água num copo em casa. A questão é que um país em ebulição dificilmente entra na ordem, no entendimento, na forma orgânica. Lá vem a escrita para tentar concatenar alguma coisa.
Quando cheguei a Moçambique, não entendia um caraças. O povo tinha votado, mas os resultados não tinham saído. Os resultados não tinham saído, mas partidos do Zimbabué já parabenizavam a Frelimo. Partidos parabenizavam a Fremilo, mas o povo em Moçambique contestava. O povo contestava, a polícia disparava. A polícia disparava, o povo incendiava-lhe as casas. Blindados faziam rondas, as pessoas batiam panelas. Pessoas batiam panelas, levavam com gás lacrimogéneo em cima. Tudo isto era meio caminho andado para ter um romance pronto.
Entre as manifestações, lá tive um dia de sorte. Sorte aqui quer dizer vida normal. Finalmente, as ruas cheias, fossem de gente ou água, em zonas que, posta a chuva no chão, começavam a ter inundações. O Matteo, que ia comigo no carro, rumo a KaTende, refilava com o trânsito, a água, a falta de escoamento. Eu brilhava. Aterrada em Maputo na pior altura para ver Maputo – mas na melhor para ver outro tipo de cidade, essa que foge aos guias turísticos mas tem artérias de vida a sério –, acabei por ter pouca mobilidade, e só às portas do regresso vi qualquer coisa de Moçambique fora daqueles metros confinados. Enfim, não interessa. Interessa que, pela primeira vez, e no dia seguinte ao anúncio de mais manifestações, na véspera do reinício, senti que Maputo respirava. A cidade que vira como fantasma bulia de gente que não sabia bem como seria o dia seguinte. Nos supermercados, já faltavam alimentos. Talvez aquilo – não garanto – fosse a capital antes do assassinato de dois tipos da oposição.
Lá passámos a ponte. A chuva dava um ar trágico a tudo, e eu adorei aquela cor meio tristeza, meio urgência. Há algo dentro de mim – ou alguém, talvez um poeta francês deprimido a chegar à meia-idade – que gosta de um céu cinzento a cobrir edifícios mal cuidados. Bem cuidados também. Dos dois lados do alcatrão, a água também estava longe de ser clara ou azul. E nisto seguimos em direcção a sul, na ponte construída por chineses, paga a peso de ouro, vinda às peças de barco da China, montadas em Moçambique como um Ikea gigante. Já na KaTembe, surpreendeu-me a forma como a paisagem mudara de repente. Uns minutos fora da metrópole, tudo sabia a campo, e até a isolamento, ainda que às portas da ponte. As casas minúsculas, tijolo em cima de tijolo, colados com cimento, o telhado de chapa, os miúdos descalços e a pé, as pequenas hortas, e um verde instigante que dá a ideia de que outra vida começa ali. Ali chegados, claro que tive vontade de continuar para sul. Era andar mais adiante na estrada para entrar na reserva nacional de Maputo, e ver gazelas como quem vê galinhas, e elefantes e girafas. Não deu, sobraram-me os corvos de Maputo. Afinal, findo o compromisso na KaTende, tinha outro na capital.
Para lá voltámos, de novo com o Matteo a refilar com o trânsito, e eu feliz por ver mais da cidade que se fechou assim que entrei. De tarde, fui com o Remédios à Mafalala, bairro de KaMaxaquene. Nascido no Chamanculo, José dos Remédios, que sonhou com bola, acabou por escolher papel. Dos seus pés, jamais saíram golos na final da Champions, ou da CAN, mas das suas mãos saem ensaios que viram livros. Isto percebi eu quando estávamos parados os dois em frente ao campo de terra, ao lado de uma pintura com o Eusébio. “Mas o Eusébio não jogou aqui”, disse- me ele, não fosse eu achar que o brilho do mundial de 1966 tinha mesmo começado naquela terra alisada à minha frente. Miúdos jogavam descalços à bola e eu, que também joguei na infância, embora calçada, e em cimento duro em vez de terra, gostei de ver aquelas crianças a correr como quem voa. A Mafalala está longe de ser a Avenida da Liberdade, mas a magia de ter espaço para dar pontapés numa bola e a enfiar numa baliza é uma coisa quase sem tempo nem lugar. Ao sairmos de lá, uma senhora, longe de ser branca, olhou para mim e para ele e disse-me assim: “Não fales com pretos.”
Ora, dois escritores juntos têm de discutir palavras. Começámos pelo preto-ou- negro, e a seguir fomos ao que interessa, à conclusão de que a um escritor em Maputo basta descrever. Claro, concatenar também, mas duvido que algum escritor moçambicano alguma vez tenha precisado de fazer limonada sem limões. E lá disse ao Remédios o que era a vida do pós-guerra, com a paz da União Europeia instalada. Eu sei lá o que é um trauma social. E, como eu, há muitos. Da minha idade, quase todos. Não espanta que, volta e meia, a literatura portuguesa tenha de saber à vidinha de todos os dias, porque a vidinha da silva gasta-nos o espaço mental quando não ouvimos tiros lá fora. É fácil achar que a pequenez é coisa em grande, incomensurável como a savana em Moçambique. Que o marido fuja com a vizinha é o grande drama, e o grande drama vai aos livros. Na literatura portuguesa, não há como ter balas de borracha, gás lacrimogéneo, um corpo estirado no matope, muito menos uma leoa a atirar o corpo a uma aldeia. Na África austral, a vida é coisa demasiada cheia de vida, o que faz com que o texto nunca possa desligar-se do contexto. Talvez a ideia de experiência humana como coisa atada a nós não passe de mero romantismo ocidental – a dor de um desamor (perdoe-se o clichê de uma portuguesa sem traumas) parece coisa que faz de todos nós o mesmo chão. Mas a verdade é outra: ser trocada pela prima é um demónio, mas sê-lo e não ter como pagar as contas a seguir é um inferno. Uma vida que se alicerça pouco em dramas colectivos trará forçosamente para a sua literatura o confinamento da experiência individual, e esta aparecerá como um todo, e o todo não é coisa pouca, mas, vista a coisa ao longe, acaba por ser coisa pequena.
E com esta crónica provo-me a mim mesma. Veja-se o desplante com que mergulho para dentro, veja-se como quase me queixo – pobre de mim – de ter uma vida plácida que me obriga a sobrevalorizar as dores à portuguesa – mas as das personagens, não as minhas – só porque o governo não se senta à mesa comigo e condiciona o que há no prato para jantar. Espante-se com o descaramento de me queixar de uma vida calma que não me dá histórias de graça. Pobre do queixume ocidental: o tormentoso topete que é dizer que é mais fácil ser escritor em Moçambique, onde nem sequer é fácil achar livros e aprender a estruturar. Maningue ridículo, pá.
Esta crónica resulta de uma residência literária feita em Moçambique, organizada e financiada por uma parceria entre a Câmara Municipal de Lisboa e o Centro Camões de Maputo.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:
