Academia Portuguesa de Cinema em Lisboa

Três pinhas para atear, lenha de pinho para dar força ao lume e cavacas de oliveira para manter a lareira acesa, se possível com a chuva a cair lá fora. Eram a preto e branco, mas não podiam ser mais dourados, os anos da Lisboa cinematográfica dos anos 1940 e 50. E cinema português daquela época é sinónimo de tardes de inverno.

Recebo em minha casa, com as honras devidas, ilustres convidados: Vasco Santana, António Silva, Ribeirinho, Beatriz Costa, Milú e Maria Matos.”Irrrrrrrrra, Sô Lopes!” – arrasta um Vasco Santana impaciente, quando o “Sô Lopes” não cumprira o que estava no guião durante o ensaio da peça de teatro (Pai Tirano, 1941). Vasco Santana superava-se permanentemente; aquela vivacidade só trespassa o ecrã porque se interpretava a si mesmo.

Como ignorar o monólogo – brilhante, brilhante! – que um Vasco embriagado e cambaleante estabeleceu com um candeeiro de rua (Pátio das Cantigas, 1942), a quem pediu o obséquio de lhe dar lume?

“Não tem daqueles sapatos com sola de rolha? Se fosse a vosselência não experimentava; fica com os pés muito… engarrafados!” Ribeirinho, que trabalhava como caixeiro na sapataria dos Armazéns Grandella (Pai Tirano, 1941), era genial. Correu os 100 metros barreiras ao soar do meio-dia, voando pelos corredores do Grandella para contemplar a sua Tatão, vendedora de cheirinhos a peso na Perfumaria da Moda, do outro lado da Rua do Carmo.

António Silva, alfaiate, levantou-se para recriminar a filha pela escolha do namorado, “mentiroso, caloteiro, mandrião, cabeça no ar!” (Canção de Lisboa, 1933). De franjinha inconfundível e penteado desenhado a régua e esquadro, Beatriz Costa chorava copiosamente: “Não me chore para cima da almofada que me enferruja os alfinetes!”, ralhava o pai. “Papá, isto é uma vergonha diante de um freguês!”

O grande António Silva, homem do teatro de revista e da opereta, fez a sua grande estreia cinematográfica precisamente na Canção de Lisboa, para depois nos presentear com personagens igualmente extraordinárias no Pátio das Cantigas (1942), n’O Costa do Castelo (1943) e no Leão da Estrela (1947).

Entretanto Ribeirinho, apesar do físico pouco romântico, assume novamente o papel de apaixonado. Já não pela Tatão, mas pela filha da Dona Rosa que regressa a Portugal vinda do Brasil (Pátio das Cantigas, 1942). E lamenta-se ao pai, Vasco Santana – já não dramaturgo, mas bonacheirão e provocador – que está “c’afé [com a fé] na brasileira”, um trocadilho que faz referência ao histórico café do Chiado.

São estas subtilezas que adoro!

Foto: Inês Leote

António Silva dedilha com a delicadeza que só ele tem, indiferente ao meu elogio. Está de olhos postos no aparelho de rádio, “uma torneira a deitar música”, cujo som ruidoso o próprio justifica serem as “bobines que ainda estão frias. Frapé!”

António Silva, que partilha o Olimpo do cinema português com Vasco Santana, é interrompido por Maria Matos, que o reconhece de uma paixão antiga e exclama, de braços abertos: “Simplício!”, recebendo em troca um entusiasta: “Mafalda!” (O Costa do Castelo, 1943).

A jornada vai longa e ainda tenho muita lenha no cesto. O enredo de muitos destes filmes, frequentemente assente na mentira e povoado de equívocos e novelos cheios de nós tantas vezes previsíveis, era enriquecido por duplos sentidos e trocadilhos usados em tom satírico e pautados pelo humor.

Em muitos deles a graça escorreita e popular vivia-se nos bairros de Lisboa, no seus becos estreitos, pracetas e ruas calcetadas, locais que permanecem vivos e por onde hoje temos o privilégio de passear e dar por bocadinhos deles… se tivermos o cuidado de os querer ver.

Não conheci o Grandella, no Chiado, como era antes do incêndio de 1988, com a sua escadaria em madeira e corrimão de ferro, elevador de porta rendilhada e porteiro para me abrir a porta com reverência. Não corri de mão dada com o Ribeirinho o Largo do Camões atrás da sua amada, nem entrei na Perfumaria da Moda com os frasquinhos de vidro expostos na montra, onde a Tatão de cabelo impecavelmente arranjado e farda aprumada haveria de me atender como freguesa.

Não fiz coro com a Milú na Cantiga da Rua nem fiz par com o Vasco Santana a segurar o arco dos Santos Populares roubando-o a uma ciumenta Beatriz Costa. Não testemunhei a chegada da filha da Dona Rosa ao Pátio das Cantigas nem estive lá, em casa do pai Januário e da mãe Rosa, a ouvir as eloquências do Senhor Costa.

Mas reúno-os a todos em minha casa à lareira – que o calor no Verão não lhes assenta tão bem quanto os dias frios e chuvosos de inverno, mais propícios ao bem-estar do esternocleidomastóideo – e nos passeios que faço por Lisboa, do Chiado ao Camões, pisando as ruas calcetadas e descendo escadinhas com degraus intermináveis para chegar a pátios que ainda não visitei. Sou sempre parte do elenco das histórias criadas a preto e branco e às quais acrescento cor.

Quem pode resistir a um “três vezes nove são 27 e vão dois, mas por ser para vosselência, vão três”? – que eu juro que um dia vi num destes filmes pela voz de António Silva e não consigo lembrar-me qual. Ou estarei a fazer confusão e foi numa das crónicas de António Lobo Antunes – que tão bem encaixaria neste cenário a preto e branco: “Quatro e cinco nove e três doze e vai um, mas como é para Vossa Excelência vão dois, dois e sete nove e nove dezoito e sete vinte e cinco e vão dois, mas como é para Vossa Excelência vão três – e a avó Gui pagava com orgulhosa pompa o peso da sua importância…”.

O que há de notável nestas histórias é que emolduravam a vida quotidiana com graça e leveza, mas eram cheios de ingenuidade o que, parecendo um contrassenso, lhes conferia a grandiosidade que só aos ingénuos assiste. Estes atores extraordinários faziam cinema sem pretensões; eram genuínos e insuperáveis na arte cada vez mais rara da autenticidade. E é por isso que os recebo à lareira, em casa, no absoluto luxo da simplicidade.

Já que é para sonhar, não sejamos parcos!


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Sónia Santiago

Depois de anos no marketing de duas multinacionais — Navigator Company e Roca — percebi que o que realmente me movia são as marcas com história. Hoje sou Diretora de Marketing do Grupo O Valor do Tempo, onde lidero a comunicação de 13 marcas que têm em comum a mesma missão: contar a História de Portugal de forma autêntica, original e com elevação.

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