A maior exposição alguma vez organizada em Portugal sobre hip hop, Filhos do Meio – Hip Hop à Margem, não é uma exposição sobre o hip hop em Portugal, mas antes sobre a história desta cultura no concelho de Almada e no bairro do Miratejo (já pertencente ao município do Seixal mas geograficamente bastante mais próximo da cidade). Exposição que pode ser visitada até 29 de março e inclui uma programação ao longo dos meses.
Quando me desafiaram a tornar-me parte da equipa que iria idealizar esta exposição, a convite do Museu de Almada – Casa da Cidade e da Câmara Municipal de Almada, confesso que não hesitei. Tenho acompanhado e escrito largamente sobre o tema e no ano
passado lancei o livro Hip Hop Tuga – Quatro Décadas de Rap em Portugal.
Depois dessa empreitada que, inevitavelmente, iria sempre resultar num livro com uma abordagem mais geral, sem espaço para aprofundar nem incluir todas as histórias, tive sempre o interesse em prosseguir esta missão com projetos focados nos diferentes microcosmos do hip hop nacional.
Os artigos que regularmente vou escrevendo sobre o assunto costumam ser mais focados num determinado artista ou num disco que acaba de sair, mas interessava-me também alcançar um meio termo, tentando retratar comunidades específicas deste movimento através de projetos de fôlego.

Até comecei por fazê-lo na Mensagem de Lisboa, quando, no âmbito do Projeto Narrativas,publiquei em fevereiro deste ano um longo artigo intitulado Como Mem Martins se tornou um bastião do rap e do hip hop em Portugal, ilustrado pelo artista Onun Trigueiros, que pertence ao coletivo Unidigrazz, nossos parceiros na freguesia de Algueirão-Mem Martins para esta iniciativa. Desta vez, com este novo convite, tinha a oportunidade de o fazer em Almada e no Miratejo.
A história da cultura hip hop em Portugal pode ser contada a partir de muitos lugares.
Do Algarve, onde muitos dos discos norte-americanos chegaram primeiro, graças à influência do turismo, e se disseminaram pelas discotecas da região.
Nos Açores, onde a Base Aérea das Lajes serviu de porta de entrada a cassetes ou revistas.
No Porto, onde em meados dos anos 80 já havia grupos de dança e miúdos a rimar.
Porque interessava fazê-lo em Almada?
Por um lado, importava contextualizar melhor o mito fundador de que o Miratejo é o berço do hip hop em Portugal.
Na verdade, esse movimento que tornou o Miratejo num ponto de encontro essencial para os entusiastas do hip hop na viragem dos anos 80 para os 90 teve origem em Almada, ali mesmo ao lado, como esta exposição explica — e que estará ainda melhor detalhado quando for editado o livro e estrear o documentário que servem de peças complementares a esta iniciativa, e que a irão eternizar para memória futura.
Nesse sentido, faltava a Almada algum reconhecimento enquanto polo fundamental no início da história do hip hop em Portugal. Nem tudo se desenvolveu a partir de Almada, como é natural, uma vez que se trata de uma cultura norte-americana importada que se foi disseminando aos poucos, e em simultâneo, pelo território nacional.
Mas, na Área Metropolitana de Lisboa, foi Almada que começou por destacar-se nesta história do hip hop.
Desde o século XIX que Almada se tornou num concelho industrial, transformando-se num núcleo operário. Entre os anos 40 e 80, houve um enorme aumento do número de habitantes: a população cresceu cerca de 500%, passando de 29 mil moradores em 1940 para 147 mil em 1981.
Como outros subúrbios, Almada serviu como ponto de abrigo na zona de Lisboa para as gentes que vieram do interior do país, em busca de emprego e de melhores condições de vida, um fenómeno que ficou conhecido como o êxodo rural.
Muitos vieram do Alentejo profundo, das zonas inóspitas do Algarve, das aldeias do Centro ou do Norte. Muitos outros, sobretudo no pós-25 de Abril, vieram das antigas colónias africanas. O desenvolvimento do concelho aconteceu de forma generalizada, de Cacilhas à Caparica.
Antigas áreas piscatórias e bairros precários para albergar operários acolheram populações vindas de África que dali fizeram as suas casas e refizeram as suas vidas.
À medida que ia crescendo, este caldeirão intercultural e de classes trabalhadoras gerou sempre um espírito contestatário e politizado, com grande pendor para o associativismo e para as artes. No início dos anos 80, quase 40% dos habitantes de Almada tinham menos de 24 anos.
Num concelho tão jovem, e sobretudo durante a adolescência, eram comuns as tribos urbanas — muito ligadas a movimentos culturais e musicais. Existia uma forte comunidade de metaleiros, punks, góticos, mas também de rockabilly. A tribo do hip hop estava prestes a nascer, muito como reação a outro grupo bastante presente em Almada e noutras zonas de Lisboa na viragem dos anos 80 para os 90: os skinheads neo-nazis.
Não eram apenas batidas dançáveis ou refrões orelhudos. Não eram só roupas desportivas e coloridas, movimentos irreverentes de dança ou a rebeldia de pintar paredes. O hip hop atribuía identidade e proporcionava significado a todos os adolescentes que, nos anos 80,
formavam a primeira geração de imigrantes criados em Portugal.
Por um lado, não se reviam num país conservador que em tantas coisas ainda funcionava com lógicas coloniais. Por outro, a tradição dos países de origem pertencia aos seus pais. O hip hop foi fundamental na construção dessa identidade e como forma de dar voz a um novo grupo social que despertava em Almada, e que acabou por contagiar tantos outros.
Entender que a génese de grande parte do hip hop em Portugal está ligada a uma consciência antirracista, a uma resistência à opressão skinhead, a uma construção de identidade, é valioso e fundamental no mundo de hoje. E, modéstia à parte, esta história nunca tinha sido tão aprofundada nem contada.
Foram entrevistadas pessoas que nunca tinham dado qualquer testemunho, muitos outros foram ao detalhe das suas histórias para as deixar documentadas, traçaram-se paralelismos entre diferentes zonas e gerações, entre o concelho de Almada e o que estava a acontecer no resto do país.
Filhos do Meio – Hip Hop à Margem, com coordenação criativa do crítico especializado Rui Miguel Abreu e do músico e editor TNT, com design de Chikolaev, é acima de tudo uma construção comunitária, o resultado de um trabalho coletivo em estreita ligação com os intervenientes do movimento, que contribuíram com as suas sugestões, os seus objetos, os seus depoimentos, o seu talento e, mais do que tudo, as suas histórias.
É um trabalho de registo, mas sobretudo um momento de celebração. E é simbólico quando uma instituição pública e formal reconhece uma cultura espontânea das ruas, tantas vezes marginalizada, e a convida a ocupar um lugar de destaque dentro das suas paredes. Foi precisamente isso que tentámos materializar, levando a rua para dentro do museu. A partir de dia 26, podem experienciá-lo.
A inauguração vai contar com uma série de performances das várias vertentes do hip hop e a exposição irá contar com diferentes momentos de programação ao longo dos seus seis meses de vida. Venham todos descobrir e louvar a história e a cultura dos “filhos do meio”.

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