Foi, de longe, a entrevista de emprego mais bizarra a que fui, o que é dizer muito. Afinal, já dei por mim a ter de provar com documentos que falava português fluentemente – eu que o explicava no meu português fluente. Outra vez, candidatando-me a explicadora de português, lá me pus a dizer também se me safaria com físico-química ou matemática – e se, nos tempos livres, podia limpar a escola toda. Mas, enfim, nada como aquilo.
Em 2017, eu tinha acabado um doutoramento em literatura e, como qualquer doutorada em literatura, não sabia bem para onde me virar. Por muitas exigências que a sociedade portuguesa tivesse, nenhuma incluía a capacidade de analisar os ritmos de uma narrativa, a pertinência do ponto e vírgula, a estratégica opção pelo pretérito perfeito em vez do imperfeito. Assim sendo, meti-me no LinkedIn a ver o que arranjava. Entre vários anúncios, lá respondi a um. A empresa procurava uma secretária, horário não muito rijo, viagens ocasionais. Candidatei-me e fui chamada para uma entrevista nesse mesmo dia. “Devem estar com pressa”, pensei, julgando também que a coisa devia estar no papo. Ainda por cima, a entrevista seria num prédio na Alameda, com vista para a relva, muito bem colocado, centro máximo. Que bom seria, na pausa para almoço, ver aquela beleza bela que só a bela Lisboa tem. Lá fui, feliz da vida, esforçando por me munir de uma simpatia que não tinha. Bem se sabe como são as entrevistas.

Duas da tarde e eu a tocar à campainha. Nada, mas de dentro vinham barulhos e uns gritos: “Vagabunda, tenha vergonha, vagabunda!” Olhei para a morada que me tinham dado, olhei para o número de porta. Tudo certo, o que tinha de dizer que tudo errado. De certeza que o gajo se tinha enganado a escrever. Telefonei para confirmar. Lá dentro, ainda no meio de gritos, tocou um telemóvel. Antes que alguém atendesse, desliguei, fosse por pasmo ou por terror. Depois ainda ouvi qualquer coisa a cair atrás da porta, que então se abriu para sair uma senhora. Sem uma palavra, passou por mim, esbaforida, com passo de quem corre. Fiquei especada em frente à porta: lá dentro, uma cozinha em obras e um homem de cabelo branco, tronco nu e pança. Eu já estava que nem podia.
– Que é que você quer?! – O gajo estava com cara de quem ia dar-me quatro estalos. Em vez de fugir, de pata metida na poça, dei por mim a responder:
– Vim a uma entrevista de emprego.
– Quê, menina? De que é que você tá falando? Que entrevista? – E aquele matagal de gente aproximou-se de mim. Pensei logo: já só em cadáver me ponho a andar daqui. Ainda respondi:
– Candidatei-me no LinkedIn para uma vaga de secretária.
Alguma luz se deve ter feito naquela cabeça de asno. De repente, a coisa bateu certo, e o tipo lá se deve ter lembrado de qualquer coisa.
– Ah, sim, sim. Pode entrar.
Pasme-se: entrei. Lá dentro, uma cozinha em pedaços e uma nuvem de pó branco.
– Tá meio bagunçado, né?
Era preciso responder? Talvez não. Era uma zona de obras e aquele só podia ser um emprego fantasma. Se eu não fosse já asmática, teria ficado ali. Se ousasse inspirar fundo, talvez soterrasse três pulmões. Naquele momento, a dúvida era se eu seria morta e violada ou violada e morta. Secretamente, esperei pela segunda: se o homem fosse como eu, adormeceria logo e eu escapava.
Sentámo-nos os dois ao balcão estilhaçado da cozinha, cada um num banco, com as calças (os calções dele) protegidas por uma folha de jornal. Glamour não se pode dizer que houvesse, e se eu tivesse de trabalhar para aquele homem não apareceria ao serviço sem gás-pimenta ou antrax.
Fez-me algumas perguntas sobre formação e experiência. O costume. Mas, entre as frases, percebia-se que estava irritado ou nervoso ou eu sei lá. Não parava de agitar um joelho, e de vez em quando olhava à volta, como quem espera que o telhado lhe caia em cima. Eu achava que o que me ia cair em cima era ele.
– E inglês, fala?
– Falo.
– Fala bem?
– Sim.
– Legal. E está acostumada a trabalhar com laptop?
– Sim, todos os dias.
E então, do nada:
– Você tem namorado?
Como? Olhou-me nos olhos. O quê, what, quoi? Como assim?
– Como? – perguntei, e não abri a boca só por ter falado.
– Você tem namorado?

Eu nem percebi se o homem se estava a fazer a mim, mas também nunca tinha sido entrevistada por ninguém em tronco nu. Seria secretária uma novilíngua para alguma coisa que pertencesse ao mundo >18? Aquilo ia ganhando contornos de filme porno (disse-me um amigo, que eu nunca vi nenhum), e ainda por cima dos mais rascas. Eu já não sabia nada, tinha a cabeça em papa e a vida acontecia mais depressa do que eu pensava.
Tentei ser o mais neutra possível ao perguntar:
– Isso é relevante para o trabalho?
– Ah, é, sim. É que tem vezes que eu viajo e preciso de alguém que acompanhe.
– E que interessa para isso se tenho namorado ou não?
– Ah, se você tiver namorado, vai ver que ele não deixa você ir. Aí prejudica muito.
De bizarro, aquilo passou a século XVIII. Vá, nem tanto: algures antes de 1974, em que as mulheres precisavam de um papelzinho de um possuidor de próstata.
– Estou disponível para viajar, se é essa a pergunta.
Mas já era óbvio que não estava disponível para mais nada, e o tipo deve ter assumido que eu não tinha namorado – que não havia homem nenhum que me pegasse. Talvez a senhora anterior tivesse, sei lá, ido a Cascais sem que ele o permitisse num cartório, daí a fúria toda. E talvez o tipo não percebesse mesmo que o antigamente já passou.
Enfim, já não me lembro do resto – aquela palermice comeu tudo. Mais umas perguntas, imagino. E depois ala, que se faz tarde – nem devia ter começado, que é diferente. Despedimo-nos na cozinha: ele ali com a sua silhueta corpulenta e gorda contra o pó que voava e a janela. Ainda me disse que me dava uma resposta depois das outras entrevistas. Eu disse “Ah, sim, sim, fico à espera”, mentindo, e virei costas.
Lá fora, a relva verde, o céu azul, Lisboa, o século XXI. Fosse pela falta do pó das obras ou de uma cabeça empoeirada, até respirei melhor. Quanto ao gajo, nunca mais disse nada – e o anúncio da candidatura desapareceu do LinkedIn. Vai fazer sete anos que estou desempregada.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

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