As ondas do Tejo emolduradas pela janela da sala são parte da paisagem diária de Carminda Calado, que mora a poucos metros da praia que cruza a terra do bairro do Segundo Torrão, na Trafaria, Almada. Aquele dia de 2002 poderia ter sido mais um dia normal na rotina de quem há décadas se acostumou a acompanhar de casa o vai-e-vem das águas, mas o que ela jamais imaginou é que seria surpreendida com a fúria repentina do mar, e teria a vida em risco.
Num instante, foi arrastada pelas ondas que chegaram ao quintal e só conseguiu salvar-se após bater numa árvore. As sequelas físicas e emocionais deste episódio persistem até hoje.

Moradora do bairro desde os anos 1970, Carminda conta que depois deste episódio se mantém em constante vigilância.
“Ficou o susto. Hoje tenho medo do mar, coisa que eu não tinha. Assusta-me. A gente sempre teve respeito, mas respeito é uma coisa e medo é outra”, diz. A idade avançada e os problemas de saúde já não permitiriam escapar de uma situação parecida. E ela sabe-o.
Há tempos ensinou o filho mais velho a fugir pelos telhados e a levar a irmã, caso estivessem em perigo e não conseguisse acompanhá-los.
“O que é do mar ao mar regressará. Isto é dele. Se calhar eu não estou cá para ver isto, mas tenho consciência de que é o que vai acontecer. O mar vem buscar tudo aquilo que é dele”, profetiza.

Sem ter para onde ir e como se sustentar além do pequeno café que montou junto à casa, a única opção é torcer para que as águas não avancem. Mas os cientistas profetizam outro cenário.

Histórias como a da “Dona Mimi”, como é conhecida Carminda, são bastante comuns neste lugar e inspiraram uma mobilização comunitária no bairro onde as paredes já são frágeis – um dos maiores bairros de autoconstrução da Grande Lisboa. Tudo para que a população consiga proteger-se, na medida do possível, dos vários galgamentos já identificados na margem sul do Tejo, entre a vila da Trafaria e a Costa da Caparica.
A frase “Será que o mar vai comer o bairro?” foi o ponto de partida para o projeto “Novos Decisores de Ciência”, que esteve ativo entre 2014 e 2022 por iniciativa da associação cultural Canto do Curió, da Trafaria. O debate surgiu num jogo em que as pessoas eram convidadas a expor as principais preocupações sobre o lugar onde viviam. O mar era uma delas, aqui.
As conversas levaram à criação de uma metodologia diferente para combater as adversidades, unindo os conhecimentos tradicionais dos residentes a investigadores de Geologia Costeira e Oceanografia que passaram a investigar os fenómenos naturais que acontecem por cá.

Unidos por um perigo maior
Com apoio da Associação dos Moradores do Bairro do Segundo Torrão e outros parceiros, o objetivo era incentivar a participação direta dos vizinhos na resolução dos problemas do território, por meio de atividades culturais, partilha de experiências, educação ambiental e produções audiovisuais.
Mesmo que formalmente o projeto já não exista, as bases da organização popular continuam. Aqui, as pessoas continuam ligadas não só pelo risco de submersão marítima da zona, mas também pela precariedade das habitações, o desemprego e as limitações económicas que geram exclusão.

O receio em relação às marés e os episódios já conhecidos chamaram a atenção do cientista Xavier Bertin, do Laboratório LIENSs, da Universidade de La Rochelle, em França, que ficou encarregue dos estudos técnicos deste projeto.
Ainda hoje, é este cientista quem faz alertas à comunidade assim que deteta possíveis ameaças das chamadas ondas infra-gravíticas – um género específico que se deve à forma da costa e é potencialmente perigoso para os habitantes. As informações são depois passadas à Proteção Civil de Almada, para que possa intervir e proteger as famílias.
Mas, embora os conhecimentos trazidos pelos investigadores sejam fundamentais, sem a união dos vizinhos nas interações e práticas de entreajuda, não haveria o mesmo resultado. A análise do comportamento das ondas, por exemplo, só foi possível com o trabalho de António dos Santos, o “Toni”, pescador experiente que ajudou a equipa de estudiosos, de forma voluntária, a implantar sensores no fundo do mar.
Poucos conhecem este lugar como ele, que desde os seis anos anda à pesca, assim como sempre fizeram o pai, o avô, os tios e os irmãos. Nascido e criado nestas margens, “Toni” testemunhou vários episódios de pânico da população. “Já vi casas e móveis a partir mesmo, aqui e na Cova do Vapor. Cheguei a ver a casa da minha sogra inundar. Perdeu o que tinha. Estava no chão”, relata.
Diz que mesmo a barreira de pedras colocada na praia para contenção não é suficiente e pode ser um perigo a mais quando as ondas são intensas. “Têm muita força. Se apanhar uma maré destas grandes – ‘águas grandes’, como a gente diz – leva tudo. Estas pedras ainda vão rebentar. O mar pega naquilo e vai de rastos”, avisa.

“Ondas que lambem”
Na opinião de João Cão Duarte, membro da associação Canto do Curió, adaptar a linguagem científica foi uma das medidas mais importantes para facilitar o entendimento sobre os fenómenos que assolam o bairro.
As ondas infra-gravíticas viraram “ondas que lambem”, expressão que ele adotou da “Dona Mimi”, que por sua vez aprendeu com antigos pescadores quando era criança. O termo é usado para descrever este tipo que não se desmancha, mas invade a costa rapidamente e com muita energia, destruindo o que houver pela frente.

João conta que a população convive com o problema há muitas décadas e um dos trabalhos que coordenou foi de registo – por fotos, vídeos e exposições multimédia – da história contada por diferentes gerações.
“Em 1977, ocorreu um galgamento terrível que levou várias casas, que na altura eram mais abarracadas, eram casinhas de madeira. Este episódio foi bem marcado na memória coletiva na altura. Nos anos seguintes, de 1978 e 1979, seguiram-se mais galgamentos que trouxeram ansiedade”, relembra.

O mediador cultural não deixa de lembrar que este é um bairro que procura uma solução de realojamento há muitos anos. João fala de um certo preconceito que entretanto se criou em relação à comunidade, uma zona periférica com estradas de terra batida, várias dificuldades estruturais, como a falta de saneamento público, e sem perspectivas de futuro.
Contactada pela Mensagem, a Câmara Municipal de Almada diz que o realojamento está previsto na Estratégia Local de Habitação e será feito com recursos do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). A construção de 95 fogos representa a primeira fase da transferência permanente e 65 famílias já foram realojadas, num processo envolto em grande polémica sobre as novas condições dadas aos moradores.
Mas os moradores do Segundo Torrão reclamam das condições e do tempo de espera para que haja uma solução definitiva. “Uma parte foi forçada a abandonar o seu território sem grandes detalhes, sem notificações oficiais, alguns desconhecendo a situação por completo. Várias famílias foram consideradas como não elegíveis a realojamento pelo programa e em risco de ficarem em situação de sem-abrigo”, diz João Duarte.
Sobre os perigos de inundações, a CMA diz estar atenta e atua numa gestão de responsabilidades partilhada entre a administração local e central.


Preservar memórias
O impasse é acompanhado com apreensão por quem ainda permanece por lá.
A animadora sociocultural Ana Almeida faz parte de uma das primeiras famílias a chegarem, ainda nos anos 1950. Sempre ouviu a mãe contar sobre o tempo em que o avô ajudava a transportar, com carros de boi, as casas de madeira, cada vez que o mar avançava. As moradias eram feitas sobre estacas, para que a água passasse por baixo, mas às vezes precisavam mudar de lugar, alterando periodicamente a paisagem.
Embora haja riscos, para ela as melhores memórias da sua vida estão sempre associadas ao mar. “Lembro de subir e descer as rochas, apanhar caranguejos, pegar nos barcos e ir à pesca, andar pela praia. Ainda hoje há esta ligação. Acho que não conseguiria viver longe do mar. Foi onde eu cresci”, conta Ana, que nasceu na Cova do Vapor e atualmente mora no bairro Madame Faber, bem perto do Segundo Torrão.
Ana admite que o sentimento é de tristeza ao pensar na separação de uma vizinhança unida há tantos anos e faz um apelo para que a memória das pessoas não seja esquecida, num momento em que ficar é tão difícil quanto partir.
Com uma história familiar de 70 anos na região, a moradora defende que a identidade do Segundo Torrão seja preservada e que não levem as pessoas para um local distante do mar. “Acho que não deveriam sair da Trafaria. Isso é essencial. Desmembrar as comunidades já é mau. Desmembrá-las e desenraizá-las ainda é pior. Se por uma questão de segurança estas pessoas tiverem que sair do sítio onde estão, que não as separem e fiquem na terra delas, que é aqui”, emociona-se.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:









Moro a 32 anos no segundo torrão, e posso lhe garantir, se ajudarem quando é nessesario, ninguém criava problemas, e vive se muito bem, agora, com as presidentes, tanto da Trafaria, como de Almada, nada fazem e não é o disse que disse, que tras a verdade, mas sim , virem ao terreno. Bem hajam.
Parabéns pela Excelente reportagem, conseguimos pelas palavras, sentir a angústia desses moradores…
Excelente artigo.
Excelente artigo, parabéns.
Excelente artigo! Muito bom ver jornalismo de qualidade. Parabéns
Investigações sobre “acidentes” ambientais brasileiros como Mariana, Brumadinho, Maceió, Rio Grande do Sul… também partiram de entrevistas com moradores, associações, governo e cientistas. Torço para que em Portugal as “mudanças climáticas” não se tornem “tragédias climáticas”.
Uma matéria importante que valoriza o meio ambiente, chama a atenção do poder público e adorna a reportagem em tons de alerta e expressões poéticas.
Muito boa!
Não conhecia este problema e é aqui tão perto. Obrigada pela partilha e testemunhos, muito informativo!