“A Arquitectura tem de falar às pessoas, tem de ser uma companhia, tem de dar sentido aos espaços criados e, só assim, podemos falar da sua humanização. Julgo que nas obras que fui fazendo ao longo da minha vida profissional, existe uma constante relação com as pessoas”.
(Bartolomeu Costa Cabral, A Ética das Coisas, 2019)
Querido Bartolomeu,

Esta será a minha primeira turma que não terá a sua visita, mas não são poucas as vezes que as crianças olham para a sua fotografia na sala e fazem-me perguntas sobre si.
Conheci-o na Escola onde sou professora. Conheci-o a conduzir alunos do ensino superior na descoberta dos detalhes e da luz que emana este espaço mágico. Rapidamente convidei-o a sentar-se com as crianças e a explicar como tinha nascido o projeto da Escola onde estudavam. Respondia com carinho a todas as perguntas, acrescentando sempre magia e pormenor e, percorrendo a sala com o olhar, exemplificava cada explicação dada.
Amava aquela Escola de tal maneira que estava sempre atento a qualquer intervenção sem atenção, cuidado e respeito.
Exemplo maior é aquela história que conta sempre:
“Durante os dois anos em que a Escola, depois de construída, ainda estava fechada, assumi o papel de guardião da mesma. Tinha uma chave (guardada secretamente) e ia lá sempre ver como ela estava. Até corria com os gatos que por lá andavam.”

Gostava muito de mim. Dizia que eu cuidava bem da sua obra mais querida. E eu gostava muito de si. Dizia-lhe sempre que tinha desenhado uma Escola para crianças e cheia de luz. Comovia-me esse olhar apaixonado que tinha pela sua obra. Olhar esse que rapidamente se transformava em defensor feroz sempre que necessário.
O seu processo de criação é o meu processo de ensino. É por fases. São pequenos pormenores que crescem. É um trabalho árduo.
A Escola é um lugar onde nascem sonhos. Provavelmente, o arquiteto Bartolomeu sentia-se tão bem ali porque era o lugar dos sonhos e das utopias e, tendo sido o primeiro trabalho a solo do arquiteto, a sua ligação ao espaço era umbilical e pueril.

Senti sempre que a Escola Básica do Castelo foi um espaço de criação efetiva de uma relação com a comunidade. Uma casa entre as casas do bairro, em Santa Maria Maior. Uma casa de ensino e aprendizagem para a qual entramos passando pelos vizinhos à janela. Dizendo nós ‘bom dia’, desejando eles um dia feliz na Escola. A comunidade do Bairro do Castelo. Daí a necessidade ou daí a vontade de desenhar e criar uma Escola que perpetuasse essa ligação com as pessoas, nomeadamente através da porta da biblioteca com saída para o exterior que permitia aos moradores irem, ao fim de semana, ler e/ou buscar livros.
Entrava na sua Escola procurando sempre saber se estávamos confortáveis, se as crianças gostavam de ali estar, do que precisávamos. Pois precisamos de arquitetos e pessoas como o Bartolomeu. Pessoas que pensam em pessoas. Pessoas que transformam espaços em lugares funcionais, acolhedores e confortáveis.
Li algures que “procurou sempre a beleza e a harmonia em tudo o que fez, em quem o rodeou. Sempre se regeu pela consciência de que a arte e a arquitetura, no compromisso entre competência técnica e valores humanos, deveriam percorrer um caminho de serviço, deveriam contribuir para a construção de uma sociedade cada vez mais livre e justa” (Fundação Marques da Silva).



Termino este texto dizendo-lhe que aqui estarei eu a lutar pelo reconhecimento e classificação da Escola como Património Municipal. Uma honra que lhe é devida.
Muito obrigada por todo o cuidado, carinho e atenção. Agradeço-lhe profundamente a paixão que tenho por esta Escola. A Escola do Castelo.
Recorde aqui uma entrevista feita ao arquiteto, sobre outra obra em lisboa:
ARIANA FURTADO é professora e coordenadora da Escola Básica do Castelo em Lisboa e coautora dos projetos premiados “Com a mala na mão contra a discriminação” e “Ge(ne)rando polémica…ou antes pelo contrário”. Traduziu vários livros para a infância.

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