Há muitos anos, infortúnios da vida levaram-me a ser explicadora ao domicílio. Isto passou-se numa altura em que nem mota tinha, andava de um bairro para o outro de metro e autocarro e passava mais tempo em transportes públicos do que a dar explicações. Dentro das casas, regra geral era tratada como parte da mobília, ou seja, com o respeito que se dá a uma coisa e não a uma pessoa. A empresa que me mandava em seu nome levava-me metade do salário, e o seu trabalho fora apenas fazer a ponte entre mim e os clientes. Os putos pouco interessavam quando havia recibos a girar, o que valia era mesmo a relação comercial.

Bem me lembro até da primeira entrevista. Coisa tão pouco profissional que assustou, numas águas-furtadas na casa de alguém, águas-furtadas essas a que se chamou sede da empresa. Assim que cheguei, acanhei-me por estar no espaço pessoal de outros; depois acanhei-me pelo tom de quem fala de cima para baixo, de quem paga e faz com que o outro receba. Grande coisa, não? E ainda por cima eram só trocos. Lá saí dali com dois ou três alunos, num horário que se espalhava meio à toa pelos dias da semana. Mas não fazia mal, tudo eram moedas para compor o fim do mês, e a renda em Lisboa dava luta. O valor: 16 euros para mim por hora, e outros 16 para a senhora que me dava a morada da casa dos pais dos miúdos, e que insistia que eu estava “absolutamente proibida” de lhes pedir o número de telefone ou de os contactar de alguma forma que não fosse através dela. Claro, isto acabou por dar problemas num dia em que acordei a arder em febre e ninguém teve uma resposta atempada, mas ainda ouvi um agradável “Mas acha que não se põe boa em 20 minutos?”. Desliguei o telemóvel sabendo que ali faltara qualquer coisa, civismo, cuidado, profissionalismo, decência, ou então, sei lá, um simples e neutro “As melhoras, pá”.

O meu leque de alunos era parco, mas serviu-me para fazer um estudo sociológico completo da classe alta ou média alta de Lisboa. Venha o ISCTE e equipare-me esta crónica a tese de mestrado, por favor. Ou venha a FCSH e equipare-me isto a artigo científico com avaliação por pares publicado na revista com melhor classificação da RCAAP. Tinha começado por uma miúda numa casa na Estrela, por outra no Alto dos Moinhos. E já lá vamos ao terceiro.

Na Estrela, aquilo era bizarro. Encontrava sempre a criança sedenta de que alguém lhe falasse, e uma empregada que me despachava para a sala, dizendo “Faça lá o que tem a fazer e vá-se embora”, não fosse eu, sei lá, finda a explicação, exigir tomar um banho quente no jacuzzi. A miúda, sobrinha de um executivo já condenado no Brasil a duas multas de 31,5 milhões de euros (não vou estar aqui a dizer nomes), estava mais interessada em dizer-me que era rica, que ia passar férias ao Brasil e que nunca saía dos resorts porque lá fora era tudo muito perigoso do que nas banalidades que eu tinha para lhe dizer sobre o comparativo em inglês. Quando deixei escapar que nunca tinha metido os pés no Brasil, dei por mim vilipendiada por uma criancinha. O ar de gozo, a cara tão longe de rugas: “O quê? Nunca foi ao Brasil?! Meu Deus!” Tentei impressioná-la dizendo que tinha ido uma vez a Mafamude, mas não serviu: o escândalo era eu não saber o que era um hotel de 5 estrelas, e o escândalo era alguém tão imberbe já se pôr a medir gente pela conta bancária e não através da fita métrica. À nossa volta, para além da enorme mesa de vidro, havia quadros XXL com uma loira de cabelo ao vento, um sofá onde caberiam famílias inteiras de evangélicos e uma carpete bege que não tinha um milímetro de pó. Mérito, claro, da desgraçada que, durante a explicação, se fechava em silêncio na cozinha. Já a miúda, que até era engraçada, fora estas manias espetadas a pregos, deixou-me sem qualquer esperança, fruto do nascimento numa classe social armada em esperta: crescendo, ali estaria alguém virado apenas para os seus, indiferente ao que era a vida.

No Alto dos Moinhos, a coisa não era tão diferente. Notava-se, ainda assim, uma divergência de classe. Novos ricos há em todo o lado, mas os anteriores tinham o escândalo dos milhões. Aqui teriam o escândalo de alguma sorte, e o escândalo ainda maior da mais histérica ausência de educação. A aluna, claro, estudava nos Salesianos. Devia ter uns 15 anos e escrevia como se tivesse 7, mas trazia boas notas para casa. Isto não surpreenderá quem souber que também levava umas boas notas para a escola. Eu tentava mas a coisa era difícil, e milagres nunca foram comigo: ela lia uma frase e aquilo era chinês. Depois encolhia os ombros como quem não quer a coisa. Queria lá saber de Eça de Queiroz quem não precisava de saber que a vida ia para a frente, quem julgava que o futuro já lá teria uma resposta à espera dela. Difícil era entusiasmá-la para qualquer coisa que não fosse maquilhagem, as amigas, os dramas da escolinha, e a gramática parecia coisa para lá de matemática. Foi duro, mas mais duro ainda foi ter a mãe a entrar na sala de dez em dez minutos sem um “Bom dia” ou um “Boa tarde”. Ali, já eu nem mobília era, só caruncho. Volta e meia, lá tinha eu de meter conversa, dizer-lhe “Sabe como é, preciso das senhas de presença para entregar à empresa”, até porque a coisa era mesmo assim: deixavam-me os papéis a garantir que eu lá tinha ido, mas só quando eu lembrava, e depois eu é que os mandava por correio, pagando o selo e o envelope e desperdiçando tempo. E, sempre que me punha com esta conversa, a resposta era sempre a mesma: “Ah, quer dinheiro, é? Não lhe paguei já?” Dizia que sim e que não, ela ia ver à pastinha, e, incrível, eu tinha sempre razão, mas no mês seguinte era o mesmo desconforto. E ainda me avisava, não fosse eu ser um asno quanto a números: “Cada aula é uma hora e meia, não duas. Por isso, leva três senhas por semana, não quatro.” Eu sabia, e bem sabia, e perguntava-me como raio era sempre acusada com os olhos de querer sacar mais oito euritos. A seguir, virava-me as costas, novamente sem “Bom dia” ou “Boa tarde” e eu continuava a tentar abrir a cabeça da filha com um martelo a ver se lá conseguia meter-lhe qualquer coisa. Mas era lassidão absoluta, indolência parva, um horror ao esforço – uma falta de necessidade dele que até metia nojo por não meter pressa nas pernas.

Depois disto, lá cheguei à casa do Marquês. Enquanto toquei à campainha, inspirei fundo. Sabia lá que raio estava para vir. Só em Lisboa é que tinha sido tratada como menos do que um boneco. Depois de tocar, subi de elevador. Toquei de novo à campainha e a avó do miúdo abriu a porta com um sorriso. Acanhada, eu nem sabia se podia sorrir também. Encaminhou-me para a sala onde iria dar explicações ao puto, que estava atrasado uns minutos. Pedindo desculpa pelo atraso (uau), perguntou-me se, enquanto esperava, queria um chá ou um café. Continuava a sorrir e eu quase abracei a senhora por fazer de mim um sapiens sapiens. E depois lá me deixou. Enquanto esperava, pus-me a olhar à volta: várias estantes de madeira escura, muitos livros, arte nas paredes, peças de mobiliário que não tinham vindo a correr da Area. Aquilo, bem se percebeu, era gente que já era rica há muito tempo: não precisava, por isso, de meter holofotes ao pescoço, de guinchar o dia todo um “Ai que eu tenho tanta massa”. O miúdo lá chegou e também pediu desculpa. Não percebia nada de francês, mas queria perceber. Não queria saber se eu já tinha ido ao Brasil. No fundo de cada explicação, agradecia.

Isto durou poucos meses. Depois, e disse-o como quem espeta à faca à primeira miúda, fui viver uns anos para o Brasil. É triste ter-me sentido vingada por ter impressionado uma criança. Estive em Florianópolis a estudar uma coisa abstrata chamada Ciências Humanas, sabendo que aqueles meses em Lisboa me tinham deixado pro, como se vê, em Ciências Sociais.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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2 Comments

  1. Um verdadeiro estudo sociológico. Muito bem observado e registado. Mostra, claramente e de modo experimentado, as diversas representações sociais. E assim vamos olhando para a sociedade que um dia (?!) terá de dar verdadeiro”sentido à vida”, para não se obliterar. Tenhamos esperança nas gerações vindouras!

  2. Recordo-me um texto do Miguel Esteves Cardoso, “Fidalgos, Queques e Betinhos”. Se a crónica do MEC constitui uma teoria substantiva, este texto é claramente uma investigação fenomenológica, por isso, de teor qualitativo, e alçada numa Observação -Participante.

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