Via-a sempre ali sozinha, mas sabia lá meter conversa. De mês a mês, custava-me ver-lhe a solidão: as horas que passava à janela sem que ninguém lhe falasse, as rugas que mostravam que as décadas tinham passado, o tempo demasiado livre de quem talvez tivesse pouco da vida. Sempre que passava por ela, entrava em casa com o coração estilhaçado pela solidão alheia.
Eu, por um lado, queria amansar-lhe o que me parecia vida de coisa pouca. Tenho um fraquinho por velhos, dilacera-me que a velhice não seja a paz do conforto de uma cama. Ao lado de cada corpo já carcomido pela idade, de cada bocado de pele ressequida pelos anos, de cada bochecha com ar de pano encorrilhado, gosto sempre de imaginar chá com açúcar, bolinhos de limão e netos – descendentes que, com as suas mãos novas, agarrem as mãos com rugas e artroses. Acho que esta é a maneira mais bela de viver. Pelo menos, será a maneira mais quente de morrer.
A solidão de um velho é uma dor que vai aos ossos. Custa vê-los de esqueletos frágeis, cobertos por uma pele fina, com pulmões capazes de beber qualquer infecção do dia-a-dia. Os passos lentos, lentificados pela vida, as costas que já tendem a estar curvas, as mãos que tanto agarraram e que já não agarram nada, tudo puxa quem quer que os veja para um abraço que lhes saiba a qualquer coisa.
Com as crianças, sabemos que tudo passa, que a tristeza por não poderem comer um sapato é circunstancial e inspira a ternura, mas a tristeza de um velho sabe à falência de uma vida. Com tantas décadas para trás, é incontável, numa história ou em números, o que foi feito, desfeito, vivido, sentido, amado, esperado, enterrado, obrigado a ir para a frente – e à frente era aquilo que havia, e aquilo que havia era uma multidão inteira numa mulher só. Eu queria ajudar a vizinha e não sabia como. Meter conversa ia implicar entrar-lhe no dia-a-dia, dar-lhe a minha voz que ela não tinha pedido. Além disso, dizer o quê?
Dizer nada. Ou dizer qualquer coisa que soubesse a nada, um fio de quotidiano, de banalidade, de circunstância, que pudesse servir para qualquer coisa. Que ela ao menos soubesse que eu podia ir por ela às compras.
O frio do Inverno instalava-se na rua, vindo da Escandinávia ou eu sei lá. Benfica, volta e meia, e mais ao fim da tarde, cheirava a castanhas assadas. O fumo do calor erguia-se contra o ar gelado. Como de costume, a senhora empoleirava-se à janela, olhando para fora. Eu via-a, ela via-me, nenhuma de nós dizia nada. Como ela me seguia com os olhos, eu fugia com os meus, até ao dia em que deixei de fugir.
Enchi-me de coragem para a conversa de circunstância, eu que em geral tacteio como quem pisa ovos já com uma racha em cima. Disse-lhe assim:
– Tenha cuidado, minha senhora, está fresquinho.
E foi o que bastou. A cara abriu-se num sorriso, vieram mais rugas e os olhos acordaram para a banalidade de viver. Eu lá me senti útil para qualquer coisa. Dar um sorriso a um velho sabe a ganhar uma taça.
– Não se preocupe. Sabe, eu até gosto do Inverno. O problema é que, de vez em quando, isto já começa a entrar nos ossos.
Não tive muito mais que lhe dizer. Estava coberta de cima a baixo, só lhe faltava o gorro.
– Talvez deva usar umas roupas mais quentes. Tem aquecimento em casa?
– Tenho ar condicionado e mantas. Felizmente, a reforma lá vai dando. – E sorriu como quem está bem na vida. – Só que, sabe como é, passados uns anos, uma pessoa lá se cansa de estar só.
E eu cansei-me por ela. Vi melhor – a mão sem luva acariciava um cão de louça. Sem família, imitava o afecto com um cão. Sem cão, imitava a substituição com uma coisa.
– Então e sair, ir ao café, ver o que a junta arranja? – Em Benfica, a junta é conhecida por ser amiga dos velhotes.
– Já me falta a energia. Já são 93 anos em cima. A menina é que ainda é nova, acha que é tudo fácil. – Em vez de me condenar por ser ingénua, sorriu-me outra vez. Aquele sorriso iluminava a rua toda. – Do que eu gostava mesmo era de ter um cãozinho, mas, nesta fase, já dão tanto trabalho. A comida, os passeios, tudo. E os gatos são o mesmo, mas em pior. Já não tenho corpo para lhes andar a mudar a areia.
Ainda pensei se tinha alguma sugestão, um animal mais fácil – um peixe, uma tartaruga, um coelho, um Tamagotchi –, mas não percebo nada de animais. Eu queria era arranjar uns netos para a senhora, uns filhos que lhe telefonassem dia e noite ou que a levassem para a casa deles e a amassem noite e dia.
– Olhe, e com as compras? Desenrasca-se? Eu moro aqui ao lado. Sempre que precisar, posso dar um salto ao supermercado.
Disse-me que não precisava de mim para nada. Que até lhe fazia bem, de vez em quando, sair para comprar beringelas para a sopa. Sempre se mexia e não se deixava atrofiar. E o mercado era ali ao lado, via gente, trocava duas de treta com alguém. Também não era por estar velha que ia desistir da vida.
Lá nos despedimos, mas continuei preocupada. A solidão numa cidade não é pêra doce. Voltei para trás e perguntei-lhe se queria o meu número de telemóvel. Foi buscar um papel para o registar.
– Não prefere que o guarde no seu telemóvel, minha senhora?
Sorriu, desta vez a achar que eu tinha batido com a cabeça.
– Eu não sei ler, menina. Nem tenho telemóvel. Mas sei os números e tenho telefone. Escreva o seu número no papel.
– Mas como vai saber que é o meu? – Até pensei em desenhar lá a minha cara, mas eu nem desenhar sei.
Descansou-me, mas não me descansou nada:
– Não se preocupe, que não tenho como confundir. Só uso o telefone quando tenho de ligar ao hospital. E aí é muito fácil: basta marcar 112, que eles lá tratam de tudo.
Numa rua com tanta gente, com casas encostadas umas às outras, com apartamentos em cima uns dos outros, tal como caixas de sapatos empilhadas numa loja, aquela senhora vivia ali sozinha. Nunca chegou a telefonar-me. Vejo-a várias vezes à janela. Uma vez, não a vi, temi que tivesse morrido. Hesitei, depois avancei. Se morresse, o que aconteceria ali? Talvez ninguém notasse. Era impensável deixar alguém morto tão sozinho quanto fora em vida. Toquei à campainha. Nada. Toquei outra vez. Nada. Toquei. Pouco depois, lá veio ela, nos seus passos lentos, passos de velha. Tinha um ar muito cansado e eu percebi que era melhor deixar de lhe tocar à campainha. Afinal, a minha ansiedade para pouco mais servira do que para a levantar da sesta.
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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