“Esta peça para mim não é apenas uma joia. É uma obra de arte pura. Há quem faça arte usando pincéis, há quem faça arte usando barro, eu fiz arte usando filigrana.” Arlindo Ferreira fez dessa filigrana uma ovelha da Serra da Estrela. Em tamanho real. E, no dia 17 de dezembro, a obra viajou de Gondomar, localidade do Porto onde o filigraneiro de 37 anos se tornou o mais jovem do país no ofício, para a Joalharia do Carmo, em Lisboa – conhecida pela venda da filigrana manual, no Chiado.
A peça está em exposição na joalharia até 4 de dezembro e tem 15 quilos, mais de um metro de comprimento. É uma homenagem à ovelha Bordaleira, da Serra da Estrela, e foi imaginada pelo grupo O Valor do Tempo (dono da joalharia e sócio da Mensagem de Lisboa), que tem as suas origens nesta região.

Esta é uma história entre Gondomar, Lisboa e a Serra da Estrela – para onde a obra irá a seguir, para o novo Centro Interpretativo da Ovelha Serra da Estrela, que abre dia 8 de dezembro Santa Marinha.
A ovelha, com traços expressivos e chifres espiralados como é da sua raça, é uma recriação e uma homenagem a uma raça que deu tanto àquela região e ao país – é a que dá mais leite, e do qual se faz o estimado queijo da Serra da Estrela, carne e lã.
O Centro Interpretativo, num edifício do século XVIII, abrirá ao público a 8 de dezembro. Ao longo de três pisos, revelará as rotas da transumância, a história da ovelha e os produtos endógenos que a caracterizam, incluindo a lã, a carne e o leite, que depois dá origem ao queijo Serra da Estrela – uma iguaria com 1300 anos de história e Denominação de Origem Protegida (DOP). Foi realizado para celebrar esta raça de ovelhas que só existe aqui dando a conhecer a sua importância económica, histórica e cultural na região.
O novo Centro Interpretativo irá explorar toda esta história, e cultura, nomeadamente um estilo de vida próprio que inclui profissões como pastor, queijeira, criador ou agricultor no sentido geral e ainda pelas festas populares ligadas à produção ovina, e alimentos que a tradição secular moldou em tecnologias artesanais.
Em Lisboa, como uma espécie de montra de tudo isto, está o exemplar de filigrana, produzido num material trabalhado manualmente por poucos em Portugal – o que o torna ainda mais simbólico.
Um reencontro familiar
Arlindo lembra que “a filigrana é uma técnica muito antiga”, requer mãos meticulosas. E esta obra, em específico, exigiu um esforço maior: só após 3652 horas de trabalho com a equipa de 17 pessoas é que Arlindo deu vida a uma ovelha em tamanho real.
Um trabalho que não ficou pela oficina. “Para fazer esta peça tão fora do normal, fui obviamente beber de técnicas de outras artes. Fui a um pastor e passei lá algum tempo a observar; a fotografar; a medir; fiz estudos anatómicos desta espécie de ovelha, para depois tentar recriar aquela ovelha em específico.”
O cruzamento de Arlindo com esta arte é uma história de família, que remonta a seis gerações atrás. Mas foi apenas há duas que a relação entre a oficina de Gondomar e a Joalharia do Carmo teve início. “Começou com o meu avô. Mas, há cerca de um ano, quando eles me bateram à porta, eu vi aqui um ciclo a voltar a cumprir-se.”
O desafio estava lançado. E a ovelha feita em 15 quilos de prata dourada e mais de 60 mil soldaduras que simulam a lã, nasceu.

O posto como filigraneiro mais jovem do país veio com a dedicação de quem decide cedo o que quer fazer como profissão. “Tenho 37, mas já ajudo a minha família desde os 10.” Já na infância, e por o negócio estar nas mãos da família, Arlindo teve contacto com os variados processos de ourives – desde a criação de fios, anéis ou brincos ao derretimento do ouro.

“Desde muito pequenino que gostava de fazer peças que mais ninguém fazia. Quando fui para a faculdade, lembro-me de considerarem que a minha peça final era impossível de ser feita, mas eu fiz. Não tenho sombra de dúvidas de que esta foi a peça mais complexa tecnicamente que já produzi. Desde o primeiro ao último momento que achei que fosse impossível de ser feita.”
De Lisboa para a Serra da Estrela
A Joalharia do Carmo é um lugar onde só se vende filigrana manual. “A maior parte das peças que se veem por aí são cópias de outras peças feitas à mão. E devido a essa aposta da joalharia, vieram cá a cima ao norte para fazer este pedido, porque realmente somos mesmo muito poucos os filigraneiros certificados. Não haveria outra técnica que fizesse mais sentido para esta peça”, explica Arlindo.
Em breve, a ovelha seguirá uma rota, simbólica de transumância, esta de Lisboa até à Serra da Estrela. O seu destino final será o Centro Interpretativo da Ovelha Serra da Estrela, em Santa Marinha, onde será instalada permanentemente.

A ovelha, oferta da Joalharia do Carmo ao Centro de Interpretação da Ovelha Serra da Estrela, reveste-se de especial simbolismo. Segundo o grupo Valor do Tempo, “é uma alegoria que não só faz a ponte com a região de origem do Valor do Tempo ao celebrar uma raça única no mundo com livro genealógico que conserva a sua identidade, como reafirma a Filigrana como arte intemporal capaz de desafiar a lógica convencional.”
Até 4 de dezembro, a ovelha de filigrana estará a brilhar na Joalharia do Carmo, na Rua do Carmo, das 10 às 20 horas.
Nota da redação: A presente iniciativa pertence à Valor do Tempo, empresa que está associada à Mensagem. O nosso jornal não faz esta nota como mera ressalva formal. Os jornais não sendo para ser lidos de forma confiada, prevenimos para que, connosco, se desconfie melhor.

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