A Teresa largou-me e eu avancei com a vida. Foi morar para Nova Iorque, trocou Lisboa por um tipo qualquer com quem só morava há dez anos, e eu decidi que era hora de a deixar para trás também.

Antes de ela ir embora, ainda tentei por tudo, “Teresa, larga o gajo. Ele que arranje outra”, mas ela recusou-se, e agora damos por nós com um oceano pelo meio. É incrível como, sem ela, Lisboa aponta para o vazio. Imagino que, por aí, os outros também o tenham sentido: desde 10 de Julho que esta cidade está cinzenta, que se anda e não se acha, que parece que não há nada para fazer. O cinzentismo do céu já não é poeira vinda de África, é mesmo a ausência da Teresa a abater-se sobre nós.

Depois de um mês de silêncio, lá sucumbimos à saudade portuguesa. Tínhamos de fazer pela vida e a Teresa, mesmo longe, estava viva. Só ao voltar a faltar com ela é que descobri que a Teresa que eu conhecia estava morta. Tive vontade de dizer-lhe Descansa em Paz, mas ela já só percebia Rest in Peace.

Bastou-lhe um mês em Nova Iorque para se esquecer de Lisboa – para se esquecer de Portugal. Quem mora em Lisboa acha sempre que não tem sotaque. E se sair do país durante um mês pelos vistos também deixa de ter língua. Em vez de dizer que ia ao supermercado, a Teresa dizia que ia ao Whole Foods, e eu que adivinhasse que o Whole Foods era um Pingo Doce, mas em pedante. Tinha chegado a Nova Iorque, feito o check-in num hou-tél num building lindíssimo, ficado umas semanas num room, andado a discutir com um guy, e ainda ia comprar um coat porque o winter ali era pesado. Tudo era insuportável e, se eu lhe reconhecia a voz nos áudios do WhatsApp, tudo o resto era estranheza: em vez de os acelerar, tinha de os lentificar para me dar tempo de ir ao dicionário, com sorte, ou ao Google, quase sempre. Para além de novos zénites vocabulares, era a própria geografia: eu sabia lá que raio era o Serafina. A Serafina para mim é um parque em Monsanto, não um restaurante italiano onde cobram 24 dólares por meia dúzia de fios de esparguete com três tomates-cereja. Ela dizia metade das coisas em inglês, metade em português, uma ou outra palavra em rio-tintês, que era o que falava há meses, quando se distraía do lisboetês, e, muito de vez em quando, tinha a delicadeza de me perguntar “Do you understand?”, mas claro que eu não percebia puto.

O que mais me incomodou foi ver que a minha companheira de tantas refeições agora ia a restaurants em vez de restaurantes. Depois de ter traído o que era tão nosso – aquela vogal que a fazia portuguesa –, eu soube que tinha de passar a aceitar a ausência dela: ao comer uma só vogal, e quase muda, deitou tudo a perder, insinuou que Portugal e Lisboa já não significavam nada. A partir daí, vivi o triste fado português, pouco mais me coube fazer além de olhar para a cidade que ela deixou para trás: o sushi numa cave medonha aonde a levei, enfeitada com fotografias de Paris; o restaurante português que ela escolheu, que, para além de comida, tinha “um conceito” – que era cozinhar a comida ao lume como toda a gente faz; os anos da nossa juventude em que comer uma salada no ginásio em Picoas era equivalente a jantar fora; a quantidade de gente que insultámos porque é assim que se forjam relações; as noites no Bairro Alto e na Graça regadas a Coca-cola zero; os nossos pés Avenida da Liberdade abaixo no 25 de Abril; eu a cumprimentá-la na FCSH porque era a única pessoa que eu conhecia lá, apesar de nos primeiros anos nunca me lembrar da cara dela; nós caladas no funeral do hámster de um amigo; a chuvada que apanhámos no Terreiro do Paço, num dia em que o céu se pôs a espancar o chão; eu a ter um chilique quando tive de estacionar o carro dela no Rato; ela a ensinar-me a meter o MBWay no telemóvel; ela a perder a paciência porque eu não percebia como raio metia cores aleatórias como histórias do Instagram; ela com vergonha de mim por lidar com tecnologia pior do que a prima da tia-avó dela; ela a irritar-se com outras pessoas e eu sempre a concordar com tudo; o cheiro a croissant quente que vinha de um lugar recôndito na Paiva Couceiro; a tuna que apanhámos aos guinchos na Alameda; a pior tosta mista que Portugal já viu, com código postal da Almirante Reis.

Essa Lisboa já não existe, essa Teresa também não. Quando muito, a Theresa marca um flight e vem visitar Lisbon nas vacation. Em vez de ir à praia na Costa da Caparica como uma pessoa honesta, agora vai a Miami. Até Portugal virou Pór-txugal. Há semanas, ainda a ouvi contente por ter encontrado no coração de Manhattan um doce típico português de que andava a sentir falta. Nem precisei de lhe perguntar se era pumpkin jam. A distância quebrou as pontes entre nós – não há um bocado de betão entre Lisboa e Nova Iorque – e eu pouco posso querer de alguém que passou a chamar United Nations às Nações Unidas.

Durante anos, esta cidade uniu-nos – a língua que se fala aqui também. No nosso grupo de amigos, insistíamos no betacismo, e ainda sinto um orgulho nostálgico ao lembrar-me de que nunca um fricativo escusado lhe sujou a voz. Nova Iorque roubou-a, agora é só bagels e coffee com a Ashley (Asshole em português), em vez de meia de leite e pão comigo, mas pelo menos estou a lidar muito bem com isso. Depois do luto, tirei as minhas ilacções: a Teresa pode muito bem ter ido embora, mas o que não falta aqui é povo. Chegou a hora do goodbye.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.


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1 Comment

  1. Muito , Muito bom ! Não me espanta …Quando estive em Lisboa de passagem há alguns anos tinha uns vizinhos portugueses que só falavam um inglês americanizado mesmo entre eles…Está muito bem contado com a sua ironia habitual…

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