Jesus a oficiar nas sus chamussas no restaurante. Foto: Brunna Toelentino
Jesus a oficiar nas sus chamussas no restaurante. Foto: Brunna Toelentino

Jesuslee Fernandes, dono do restaurante Jesus é Goês, em Lisboa, acaba de nos deixar. Leva com ele uma forma única de estar na vida, promovendo sempre as suas raízes e a todos seduzindo no primeiro contacto.

Teve o mundo aos seus pés mas optou por permanecer ao serviço de todos.

Quando me chegou a notícia ainda era noite bem escura e profunda, Lisboa estava longe de acordar. Jesuslee Fernandes tinha partido para a viagem definitiva aos 44 anos, após uma vida dedicada à sua arte culinária. Temperamento borderline, era uma figura única e imprevisível. Clareza de raciocínio, discernimento histórico grande e rasgos de génio que não conseguia conter só para si, tal a ânsia de partilhar com os seus amigos e clientes o que ia criando.

Jesuslee é o nome próprio do homem que concatenou Jesus, por vontade de sua mãe Paulina, cristã fervorosa, e Lee pelo fascínio do pai por Bruce Lee, o malogrado actor e mago do Kung Fu.

Jesus é Goês em pequeno
Jesus em pequeno. Foto: Facebook

Os pais são ambos vivos, de Goa vão acompanhando as batalhas e vitórias dos seus quatro filhos, distribuídos pela geografia mundial.

O nosso herói estava fadado a brilhar e fê-lo assumidamente, sem vaidade nem sentido de competição, apenas seguia o que entendia ser o seu caminho. A determinação estava-lhe na massa do sangue, tanto que aos 14 anos decidiu deixar Goa para vir para Portugal trabalhar em restaurantes.

Esteve algum tempo como ajudante e a lavar pratos e trabalhou sempre muitas horas seguidas, conquistando a confiança de todos, provavelmente siderados pela sua capacidade de trabalho.

Passou uma temporada grande no Tentações de Goa, no Martim Moniz, onde conseguiu realizar-se como cozinheiro, ao mesmo tempo que se especializou na alquimia inelutável das especiarias e combinações que ele dizia serem da sua mãe Paulina, mas já então com uma base própria de ferramentas e soluções.

Nunca foi de seguir receitas, menos ainda de trabalhar com fichas técnicas como se faz nas cozinhas profissionais estruturadas. Para isso, que não contassem com ele, ao passo que para ensinar e transmitir pacientemente a sua sabedoria, tinha um coração do tamanho do mundo. Não é exagero dizer que pelo menos metade de quem trabalha em cozinha goesa actualmente passou pelo crivo e mãos do grande Jesus.

Maria dos Anjos, proprietária do Tentações de Goa, teve pena de ver partir o mestre, mas nele o frémito da criação era já impossível de conter e lá foi Jesuslee para a sua ventura própria. Em pouco tempo tornou-se o centro gravitacional de todos os que visitavam Lisboa pelo eixo das cozinhas étnicas e invariavelmente tinham no Jesus é Goês – assim baptizou a casa – o seu santuário gastronómico.

A proximidade espacial do Solar dos Presuntos criou um dipolo excepcional entre as duas casas, espécie de David e Golias e a capital viu crescer uma amizade sem qualquer tipo de excessos ou extravagâncias.

Pedro Cardoso (Solar dos Presuntos) e Jesuslee Fernandes eram como irmãos.

Certa vez em conversa com Jesuslee dei-me conta das muitas pessoas que ele ajudava sem olhar a meios, só para que conseguissem viajar e ganhar experiência internacional, além dos muitos a quem afastava da fome e da pobreza sem pedir nada em troca.

Jesuslee era esse tipo de pessoa. Também era teimoso como tudo.

Desentendemo-nos acerca da proveniência de uma lagosta e ele convidou-me por três vezes para provar as declinações goesas que deu ao aranhiço do fundo do mar, a ponto de se esfumar a relevância do debate sobre quem tinha afinal razão e ainda bem. É mais importante dar razões do que ter razão.

Grande homem.

Talvez a sua maior criação tenha sido os Mini-burguers à Jesus, que como o nome indica eram pequenos hamburgueres baptizados pelas mãos abençoadas do mestre, impossível comer apenas um.

A forma como cozinhava, trabalhando por aproximações sucessivas até atingir o pináculo do sabor era notável. Festejava efusivamente essas pequenas grandes vitórias e havia um brilho especial nos olhos deste Jesus quando as dava a provar. Não havia sarapatel como o dele, muitos até se lhe convertiam ao provar o clássico, tal o equilíbrio e a intensidade assumida de sabores.

Apesar das suas muitas irreverências, era amigo da Casa de Gôa e frequentava-a com voluntariedade, acompanhando a diáspora da sua terra natal.

O seu desaparecimento com apenas 44 anos foi recebido com choque mas muita solidariedade. Estão a ser feitos todos os esforços no sentido de conseguir que as cerimónias fúnebres aconteçam em Goa, junto dos pais e irmãos.

Muito fica ainda por dizer e contar, essa empreitada ficará para um dia quando alguém conseguir tomar o peso e o balanço da obra de Jesuslee Fernandes. 

*Fernando Melo, 58 anos, é licenciado em Engenharia Física Tecnológica pelo Instituto Superior Técnico (1988), crítico de vinhos e comida desde 1995. É colaborador permanente da revista Vinho Grandes Escolhas (mensal), da revista Evasões (semanal) e dos diários Jornal de Notícias e Diário de Notícias. Participa regularmente em júris nacionais e internacionais de concursos de vinhos. É co-autor do Guia Restaurantes de Portugal e dedica grande parte do seu tempo à formação graduada e pós-graduada em escolas superiores nacionais, nas áreas de enogastronomia, restauração, história da alimentação e produtos regionais.

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