Foto: Rita Ansone

Há uma nova escultura de Superlinox: “Alice” foi instalada num viaduto de Carcavelos, num protesto e questonamento sobre a Quinta dos Ingleses, o que resta da Quinta Nova de Santo António, fundada no século XVIII e que está em risco com um projeto imobiliário. Estão previstos para zona 850 apartamentos, um hotel e zonas comerciais, que reduzirão a área pública e privada verde de 54 para 21 hectares. Isto tudo numa zona se inserem o leito da ribeira existente, zonas de equipamentos, campos de jogos, caminhos e estacionamentos.

O destino aprovado para a Quinta serviu de mote para esta escultura, mas a escultura não é apenas sobre este pinhal centenário, é sobre todas as árvores que se cortam e cujas reposições jamais substituem o que existe.

A Alice em cima do viaduto. Foto: Superlinox

A personagem inventada por este coletivo misterioso diz que vem do futuro, onde tudo foi tingido de verde pistácio e talvez  todo o verde existente seja sintético. Não se conhecem as caras das pessoas.

Já Barbies, isso sim, teremos para brincar, e a Alice não prescindiu de trazer a sua. A sua réstia de meninice, presente na boneca de plástico que segura na mão direita, quase nem se vê. As circunstâncias do tempo impossibilitaram-no. Traz uma máscara que nos remete para a emergência climática.

A Quinta dos Ingleses, como está, é precisamente o passado que ao futuro importará preservar e é essa a mensagem que esta figura traz. Diz a experiência humana que, sempre que olhamos para o passado, teríamos  feito algo de modo diferente. Neste caso, as árvores centenárias continuariam a segurar a terra. A respiração não careceria de filtros. E  a água salgada não se elevaria para corroer a terra.

“Já não existe Coelho Branco que possamos seguir porque ele está morto – fomos nós que o matámos. Talvez possamos reencontrar a toca, se voltarmos a acreditar nela”, afirma Superlinox. “Uma árvore precisa de décadas para crescer, mas abate-se em segundos. Em vez de continuarmos a cortar árvores, talvez devêssemos começar a abraçá-las”, remata. A Alice disse tudo. E tudo o resto parece ficar nas mãos da Câmara Municipal de Cascais.

A história que antecede a escultura

Se, noutros tempos, da Quinta dos Ingleses saía o afamado vinho de Carcavelos, atualmente tornou-se num importante campo de batalha de uma luta ambiental. A Associação SOS Quinta dos Ingleses enfrenta a Câmara Municipal de Cascais, o governo e os proprietários dos terrenos. Há pelo menos 60 anos que se pensa construir nesta zona. A primeira tentativa foi travada ainda durante o Estado Novo, por Arantes e Oliveira, que era ministro das Obra Públicas.

Em 2001, apesar da  aprovação da minuta de alvará de loteamento nos anos 1980, a Câmara Municipal de Cascais chumbou o  projeto. No entanto, e sob grande contestação, em 2014 a CMC aprovou o PPERUCS, o Plano de Pormenor do Espaço de Restruturação Urbanística de Carcavelos Sul, abrindo caminho para a construção de um grande empreendimento imobiliário, promovido pelo grupo Alves Ribeiro.

O voto favorável, e decisivo, da então presidente da Junta de Freguesia de Carcavelos, Zilda Silva, foi inclusivamente alvo de uma moção de censura por parte da Assembleia de Freguesia. Significou, de acordo com a Associação defensora do espaço, a diferença entre a preservação e possível requalificação do que resta deste pinhal e a sua destruição.

Em perspetiva, de acordo com um dos membros da associação, Pedro Jordão, a zona efetivamente verde terá a dimensão de duas vezes a Praça do Comércio em Lisboa. A do novo edificado, 17 vezes. A 18 de julho deste ano chegou a luz verde da autarquia para o projeto. Ana Marques, porta voz da Associação SOS Quinta dos Ingleses, diz que “a partir deste momento a quinta pode ser vedada e o abate de 5000 árvores começar”.

A Associação assume que este pinhal de árvores centenárias é ínfimo à escala global. No entanto, a ideia de que é localmente que começamos por mitigar os problemas ambientais é o que os move, servindo isso de força motriz para preservar a pouca mancha verde que resta na freguesia. É indiscutivelmente ali que está o pulmão de Carcavelos, morada de biodiversidade essencial na absorção do dióxido de carbono, regulação da temperatura local e promoção de um microclima. E remata com uma questão, mais simples do que as leis: “Faz sentido a construção tão perto do mar, quando se prevê que dentro de poucas décadas tenha de se realojar quem ali vive?”

En 2021, o presidente da Câmara Municipal de Cascais, Carlos Carreiras, afirmou ao jornal Público que não tem capacidade financeira para o pagamento de uma eventual indemnização caso o projeto não avance, classificando-a como “incomportável”, dado que os promotores “têm direito adquirido sobre aqueles terrenos”.

Foto: Rita Ansone

“Teremos todo o interesse em preservar a área da Quinta dos Ingleses desde que o Parlamento cumpra a sua parte e crie um instrumento jurídico que permita ao governo travar o processo”, disse na Comissão de Ambiente, Energia e Ordenamento do Território da Assembleia da República.

O Governo discorda, tendo o secretário de Estado da Conservação da Natureza, das Florestas e do Ordenamento do Território, João Catarino, dito que o Município é a única entidade a conseguir “reverter todo o processo”, pois foi esta que elaborou e aprovou o Plano que o permite.

A Associação SOS Quinta dos Ingleses irá ao Parlamento pela terceira vez, na esperança de travar o projeto, procurando a classificação daquela área como paisagem protegida. Anteriormente, devido à dimensão de 54 de hectares, considerou-se que não cumpria os requisitos para ser paisagem protegida de interesse nacional, podendo, no entanto, sê-lo ao nível municipal – caso assim a CMC deliberasse. Esta batalha está próxima de um desfecho, onde todas as partes envolvidas utilizarão os instrumentos legais ao dispor.

É nesse sentido que esta intervenção de Superlinox aparece: para chamar ainda mais a atenção numa altura em que ainda se pode fazer alguma coisa.

Leonardo Rodrigues

Leonardo Rodrigues

Nascido na Madeira, o seu coração ficou por Lisboa. Estudou comunicação na FCSH – UNL e fotografia no Cenjor. Depois de muitos ofícios, é a contar histórias que se sente bem. Acha que não existem histórias pequenas, anseiam é por ser bem contadas. Quando não está a escrever, é aprendiz de jardineiro. @leonismos no Twitter.

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