Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.
Está tanto calor aqui que não consigo ir à rua sem perder a alegria de viver. Podia não me queixar disso a ti, que decerto está pior em Maputo, mas tu, sendo matolense, deves achar que esses 32 graus são coisa branda. Pois é, fica a informação para os leitores: ontem de tarde, devolvemos-te à tua legítima dona, que não é a África austral, mas a Francine.
A tua viagem a Portugal foi inútil. É bem verdade que estiveste em festivais e debates e em apresentações de livros, e que foste entrevistado para podcasts, jornais online e programas de televisão, mas, caraças, uma semana e tal em Portugal e ainda nem experimentaste o McDonald’s? Que raio de guias arranjaste? Eu tentei, mas pelos vistos agora preferes seguir as dicas do teu amigo Pedro, amante de tofu, que passou a adolescência a comer bifes de trinta centímetros, a que lá em casa chamávamos bifes sola de sapatos, não por causa do tamanho, mas porque ele os fazia tão mal que aquilo era duro, incomestível. Eu, que era mais nova, e que, já agora, tinha medo de lume, comia e calava, que é como quem diz que comia e reclamava, vá, mas não deixa de me espantar que um rapaz que comia massa com arroz ou com batatas fritas, ou que banhava fusilli em ketchup, de repente te dê conselhos gastronómicos e tu te ponhas a aceitá-los. Não me lixes: quando cá voltares, vamos a um McRoyal Bacon. E também não te faria mal nenhum experimentar sushi: de que te serve vir a Lisboa se não provas a típica gastronomia lisboeta? A vida não é só livros, cogitações sobre o mundo, triângulos sociológicos.
Achei graça à ideia de vires para ficar de vez, não porque a ideia tenha graça, mas porque se ignora que pertenças a um certo chão. Esse certo chão não é a Matola, muito menos é Maputo; esse chão é a Francine e as crianças. Portanto, o peso semântico do “Vais para ficar de vez?” para mim não revela a profundidade de um ir de vez que é mais do que ir: revela que não se cogita o mundo à volta, ou que se julga natural partir-se sem amarras, como se um coração se visse alado por estar a voar num avião. Além disso, será que Portugal está convidativo, com um xitukulumukumba a meter medo a tudo e todos? Dei esta voltinha ao parágrafo só para escrever xitukulumukumba – duvido que alguém com um passaporte igual ao meu alguma vez tenha escrito esta palavra. Tive de ir ao Google ver o que significava, e não vou explicar o significado ao leitor, mas como soa a coisa do mal talvez se perceba de quem se trata.
Nunca consigo ser demasiado pessimista em relação ao xitukulumukumba e aos xitukulumukumbazinhos (também se pode dizer assim ou é mia coutice minha?), porque, paredes-meias com a cidadã, vive neste corpo uma escritora. Gosto de histórias, sabes? E se forem maradas, melhor ainda. Não deixa de me espantar o quão ficcional parece a vida parlamentar em Portugal. Quem vê o hemiciclo fica maluco como o Mélio ao ver-me de calções na embaixada: nunca até há pouco se tenham visto no país javalis engravatados. E não deixa de ter graça a forma como parecem pensar sempre ao lado. A Rita Matias, imagina, acha que a habitação em Lisboa é cara porque muitos indianos aceitam viver encavalitados na mesma casa, no Martim Moniz ou coisa assim: ora, com cada um deles a dar 200 paus, claro que a renda aumenta. Como pode um português competir com isto, pergunta ela. Eu nunca tinha visto ninguém pensar ao contrário – olhar para um problema e, em vez de querer resolvê-lo, inventar outro. Olhar para estrangeiros que vivem engaiolados como bichos e ainda os culpar por viverem apesar dos dias, por arrancarem a vida a cada manhã. Claro que um T1 arrendado pelo mesmo preço a um só norte-americano acabadinho de chegar de Sillicon Valley já não lhe faz confusão nenhuma. E o Pedro Pinto como líder parlamentar do terceiro partido mais votado, segundo com mais eleitos? Absurdo. E sim, sei que a frase parece absurda, mas o método de Hondt é mesmo assim. Sinto que há uma humorista por explorar dentro de mim, ali encafuada entre a romancista e a cidadã, e olho para aquela gente toda enraivecida e só vejo sketchs, sketchs e mais sketchs. Desde homens a gamar malas no aeroporto (tem cuidado com a tua, quando vieres outra vez) a deputadas (Rita outra vez) que enchem a boca de discursos sobre portugueses de bem enquanto casam com um tipo, por sinal segurança de Ventura, que é condenado por ter espancado um homem, o ter deixado desmaiado e, a seguir, lhe ter sacado dez euros – dez euros! – ao bolso, parece que tudo cabe ali. Isto para não falar do tipo da prostituição de menores, que ainda conseguiu a proeza de pagar vinte euros à criança através de… MBWay. Enfim, eu muito espantada quando o Mia nos estava a contar aquela história do toque de ombros que encolhia genitais em Cabo Delgado, e em Portugal temos bizarrias semelhantes – imagina o que é ver esta amálgama de gente e achar que isto é o futuro, que os berros são um projecto de país.
Não sei para que me perguntas como se vestem os príncipes. Sei que eu queria ter andado de fato, mas achei que ia destoar demasiado das tuas camisas às cores. Além disso, eu bem sabia que a pergunta não ia servir para nada: se eu dissesse um vestido branco, terias andado com um? Chamo vestido a djellaba. Imagino um príncipe sempre uma coisa meio saudita, ou pelo menos árabe, talvez por causa do meu amigo Mehdi. Já te falei dele? É dinamarquês, mas também francês e marroquino. O tamanho é da Escandinávia, mas os traços são do norte de África. Não espanta, por isso, que também ele me pareça um príncipe. E enquanto passeávamos os dois por Marrocos, ao som das mesquitas, só lhe faltava mesmo o djellaba. Ao ver-lhe a silhueta, lembro-me de ter pensado que tinha um ar principesco, mas ele teimava em andar de calças e camisola, e às vezes fazíamos tanta confusão entre viagens que demos connosco uma vez trocados: eu com a roupa dele, ele com a minha. Ou seja, eu à larga, ele apertado. Mas paciência.
De resto, que achaste do 25 de Abril? Topaste que a Cátia te pôs um caldo verde à frente só para te obrigar a trabalhar? Quando voltares, lá vais tu à casa dela fazer uma matapa. Podes fazer uma versão sem folhas de mandioca para mim, se fazes favor? Misturas amendoim, leite de coco e marisco e pronto. Não sei, fazes qualquer coisa, mas com as folhas não me convences. Não foi isso que comi no Piri Piri? Faz-me impressão comer coisas verdes, e ainda me lembro de ter andado por lá a caçar a carne à carapaça do caranguejo sem sorte nenhuma. Se te armares em esquisito e disseres que sem folhas não dá, ou se quiseres meter couve, não contes comigo – vou ao McDonald’s e trago-te batatas fritas para experimentares.
Chega de escrever. Mas, já agora, a Francine disse-te hoyo-hoyo quando chegaste?

Ana Bárbara Pedrosa
Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

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