Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Ó Ana Bárbara Pedrosa, pára de me dar ordens. O teu nome não dá jeito à zanga, mas podes crer: estou aos berros, com os dedos a bater no teclado com força, a suar em dobro — 30 graus de calor, mais 30 de fúria desobediente. Desobediente. Isso lembra-nos alguém de quem gostamos, a Patrícia Reis, a Maria Teresa Horta, que é uma poeta das grandes. Mas não me distraias. Não mandas nada.

Dizer “Ana Bárbara Pedrosa, pára de me mandar” até parece mais carinho do que zanga, comparado com quando tu dizes: “Quive, tu não és de nada, és um gatuno”. Quem te deu esse nome não sabia que um dia ias enfurecer um gajo que não se zanga por nada. Tens sorte: enquanto dizemos o teu nome, a fúria vai-se desvanecendo no meio dos suspiros.

Primeiro inventaste esta: “tens tanta vida em bruto à tua volta, dentro de ti, que nem precisas de inventar, já dá romance”. E agora vens com essa de que a cidade me oferece um romance pronto, do tipo “é só chapar a vida”. Esse “só” e esse “nem” são as palavras que mais me irritam. Soas a chefe. “É só fazer um parágrafo”, “é só dizer isto”, “é só aquilo”. Como se fosse piscar o olho e sair um best-seller.

Impossível não é ter um best-seller. Num país onde se imprimem 200 cópias de um livro, é fácil esgotar. Basta pensar: tenho 13 irmãos, todos com filhos (mais de cinco filhos cada); os meus sobrinhos, muitos já pais. Custa vender 200 cópias? Não custa. O problema é que eu não escrevo coisas do tipo 1001 maneiras de conquistar uma mulher com sucesso. Primeiro, porque não se conquistam mulheres — não estamos à moda Trump a querer Groenlândia ou Cuba. Segundo, porque nunca tive jeito para conquistar o que quer que seja. Ainda hoje tento seduzir as minhas filhas para que acreditem neste projecto de pai que aprende todos os dias a cuidar de duas meninas.

Repara como a fúria desconcerta e nos leva quase à insanidade. Mas o que estou eu aqui a escrever? É caso para copiar Saramago (e não o Jorge, mesmo que Amado por todos): Que farei eu com Ana Bárbara Pedrosa?

É verdade, às vezes esqueço-me que isto vai parar à internet e pode cair em olhos curiosos. Imagine, que a Maria e o David, a Malika e a Mayla, leiam isto na tal coisa incerta que é o futuro e fiquem a pensar que andamos à pancadaria na Praça do Comércio ou no Patrice Lumumba? Mas olha, o melhor desta zanga guardo para Lisboa — estarei aí em breve. 

Antes disso, deixa-me dizer: esta pirraça também vem da inveja da tua lata. Grande gatuna tu és. Andavam todos a acreditar que o vilão sou eu, mas não sabem o que eu sei. Que o digam os vendedores de artesanato do FEIMA, que saíram em prejuízo quando se meteram contigo. Nunca vi coisa assim: uma branca, portuguesa, num mercado feito para sacar dinheiro aos turistas, a regatear até levar peças por metade do preço. Cinquenta por cento de desconto, não em um, mas em quatro, cinco objectos. E ainda sair com uma bacela, à boa educação moçambicana. És craque na gatunagem, reconheço. Nem o Geny Catamo conseguiria tal jogada mágica, mal sabe simular penaltis, o coitado, génio, quase melhor do mundo no futuro, com certa. Eu devia aprender contigo em vez de invejar, maldizer e praguejar. Mas pronto, também não perco nada, nem penses que me arrependo. Ainda me verás a sacar um truque de mestre e conseguir um desconto de sessenta por cento nos vendedores no Rossio, na Praça da Figueira, no Intendente. 

Já ali na Vila Algarve, eu pronto para entregar os meus 20 meticais — o suficiente para o chapa entre Maputo e Matola — só para nos livrarmos do assédio e da chantagem. Só de pensar que ia fazer essa loucura levado pela tua lata, fico com mais raiva ainda. Se é para chapar um romance, faço como o Thomas Empl: meto-te como personagem — não a que entra pelo buraco, mas a que fica ali a zanzar à volta do tormento e não dá em nada. Daquelas personagens que ninguém percebe por que raio estão no livro. Ou como uma vírgula perdida, daquelas que caiem no lugar errado, que escapam à boa vontade do escritor.

Se tivesses ficado pela expressão mais bela que já ouvi sobre o ser amoroso, ainda te obedecia — entontecido, claro, pelo encanto do David. Ficava davidado, a bem da expressão.

E essa história de começarem a tapar os mamilos de meninas nas praias? Que horror. Fico a imaginar a Malika e a Mayla comigo na praia e eu, em vez de estar feliz por aquele tempo — tempo de pai e filha, que hoje é uma conquista —, preocupado com mamilos, pernas, umbigos, o tamanho do sorriso. Deus me livre. E olha que nem sou grande religioso, sou homem de pouca fé, para ser sincero. Mas valha-me Deus de tal aberração.

Já me basta a confusão quando vou ao teatro, ao museu ou a qualquer espaço com as meninas e elas dizem: “pai, quero fazer xixi”. Esta sociedade nunca educou os homens para serem pais de meninas. Aliás, nunca nos educou para sermos pais. A ideia é ser “chefe” de família, “ter” mulher, “ter” filhos — e filhos mesmo, varões, machos, que vão andar por aí, ter filhos com várias mulheres, resolver tudo à força quando alguém lhes diz uma verdade incómoda. Ser “chefe”, como ter moedas no bolso para comprar amendoim torrado na rua. Pai é outra coisa. Pai é pagar contas, sim, mas também é estar, cuidar, aprender — todos os dias — com coisas pequenas e grandes ao mesmo tempo. Se deixar davidar, ficar malikado.

E digo mais: lá em casa já era estranho quando nos punham a todos a lavar louça, roupa, limpar, cozinhar. Quantas vezes as minhas irmãs iam namorar e eu ficava a lavar pratos (e como odiei os namorados por isso!). Lavei tanta loiça que isso ficou gravado no corpo. Até hoje, onde quer que eu viva — mesmo na casa que construí — sou eu que lavo a louça.

Mas os mamilos não. Os mamilos não vou mandar cobrir.

Se é para acabar com a promiscuidade, então decretava-se uma lei simples: proibir homens de tirar o pénis em plena avenida para urinar em árvores, paredes e caixotes de lixo, como acontece em Maputo. Na Guerra Popular, deves te lembrar da avenida mítica deste país. Não pelo romance A cor da tua sombra que esse ainda ninguém leu. Mas porque ninguém vai a Maputo e não vai à Guerra Popular, o nome a condizer com as nossas vidas.


Eduardo Quive

Vive na Matola, mas é mais fácil dizer que é de Maputo, onde passa mais tempo. Entre muitas coisas, a literatura ocupa a maior parte da sua vida, de diferentes formas. Ora a escrever ficção, poesia ou a inventar coisas para reunir pessoas. É autor de Para onde foram os vivos (poesia), Mutiladas (contos) e A cor da tua sombra (romance).

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