“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.

Num texto de introdução a The Pickwick Papers, G. K. Chesterton diz que a história da arte desmente a ideia de que é impossível «pedir ao génio para trabalhar dentro de limites prescritos ou para servir um propósito alheio». Shakespeare, continua o autor, criou obras-primas «estragando comédias más e dramatizando romances falhados». Dickens, hoje louvado pela originalidade transbordante do senhor Pickwick, foi o quinto escritor escolhido para esse projecto de grande êxito, concebido de raiz pelo ilustrador Robert Seymour.

“Mr. Pickwick adresses the club”, ilustração de Robert Seymour, The Pickwick Papers

A literatura abunda em casos semelhantes – escritores que produziram obras de primeira água, não por um acesso de originalidade absoluta, mas em resposta a encomendas vindas de fora ou respeitando premissas determinadas por outras cabeças. Aos exemplos dados por Chesterton acrescento apenas o de Gógol, que escreveu a peça O Inspector e o incomparável épico da banalidade chamado Almas Mortas a partir de ideias de Puschkin. É memorável a carta em que, expressando o seu desespero com a falta de dinheiro, implora ao amigo um tema a partir do qual possa escrever a peça que «fará rir o próprio diabo». 

“O sacrifício de Isaac”, de Rembrandt

O princípio vale também para as artes visuais. Poderíamos construir, aliás, uma galeria espantosa de pinturas que seguem fielmente as indicações de textos literários. O sacrifício de Isaac pintado por Rembrandt é um exemplo possível tirado de uma lista interminável… Nalguns casos, a passagem da página para a tela parece obedecer a uma espécie de necessidade antropológica: fixar em imagens o que é mais importante na nossa cultura. Há obras literárias cujas personagens têm tal força, cujas ideias estéticas e morais se impõem de tal forma no seio de uma sociedade, que não resta outra hipótese aos pintores senão dar corpo aos fantasmas que assim reclamam materialização. Não por acaso, o Dom Quixote e a Divina Comédia originaram um sem-fim de representações pictóricas ao longo dos tempos. Em Portugal, sem surpresa, a epopeia de Camões pôs muitos pintores, desde o século XVII aos nossos dias, a dar ao pincel. 

Um conjunto particularmente interessante de pinturas relativas a cenas d’Os Lusíadas encontra-se no Museu Militar. Junto ao Tejo, em frente à estação de Santa Apolónia, o museu apresenta-se como o mais antigo de Lisboa. Como seria expectável, o recheio consiste sobretudo em material militar, artilharia, armamento, etc.; entre as peças de valor histórico, conta-se uma armadura que terá pertencido a Dom Sebastião. Dito isto, a pintura ocupa um lugar de destaque nas salas do edifício que, antes de ter a função que tem desde 1851, funcionava como Arsenal Real do Exército. 

Além de quadros menores sobre aspectos variados da história militar portuguesa, há telas de Veloso Salgado, como “A Pátria coroando os vencedores das campanhas liberais”; há retratos interessantes, como aquele de João Pinto Ribeiro, homem de relevo na Restauração da Independência, feito por Batistini; e há, sobretudo, explorações de episódios marcantes d’Os Lusíadas, assinadas por nomes como Carlos Reis, Condeixa, Columbano Bordalo Pinheiro e José Malhoa.

“A ilha dos amores”, de José Malhoa, Museu Militar

Este núcleo, embora composto por quadros de qualidade desigual, inclui alguns trabalhos verdadeiramente originais, que estão a milhas das desenxabidas representações patrioteiras que tantas vezes se agarraram aos Lusíadas para esconder a sua própria nulidade. Um deles, saído da mão de Malhoa, é uma mistura hábil de idealidade e carnalidade. Representa o episódio da Ilha dos Amores, «os famintos beijos na floresta» entre navegadores e ninfas depois da travessia heróica. Outra surpresa agradável é o retrato de corpo inteiro de Camões, também da autoria de Malhoa, cuja reprodução já tinha visto muitas vezes, sem me aperceber de qualquer encanto particular. O original tem uma força diferente: é um Camões cheio de garra – a melancolia das roupas pretas animada pela pose digna e atrevida – que honra bem o poeta por trás dos seus poemas.  

“Camões”, de José Malhoa, Museu Militar

Os trabalhos de Columbano Bordalo Pinheiro constituem, com os de Malhoa, a principal atracção do Museu Militar. “O Velho do Restelo”, “O Concílio dos Deuses” e “Vénus em auxílio dos Navegadores Portugueses” ilustram com rara sensibilidade passagens do relato camoniano. Mas o “Drama de Inês de Castro” – tela que fixa o momento em que, «Para o céu cristalino alevantando / Com lágrimas os olhos piedosos», D. Inês procura convencer D. Afonso IV a poupar a mãe dos seus netos – é outra coisa

“Drama de Inês de Castro”, de Columbano Bordalo Pinheiro, Museu Militar

Tratando-se de uma cena carregada de ideias fortes, na qual confluem, em espaço reduzido, emoções amorosas, cálculos políticos, o mundo inocente das crianças e o mundo de confusão que nós, adultos, habitamos, Columbano consegue ser muito expressivo e muito equilibrado em simultâneo. Os conselheiros do rei têm algo de odiável, mas não são caricaturas. Sentimos o dramatismo da cena, mas a situação-limite não se traduz nem em desespero nem em estoicismo da parte de D. Inês. O contraste entre as cores dos poderosos e as cores da vítima está lá, mas não é estridente. O modo como Columbano concentra tantas forças de sentido diferente, sem perder a compostura do todo, é prodigioso. 

Projeto Premiado

Simão Lucas Pires

Simão Lucas Pires nasceu em Lisboa, em 1990. Concluiu o mestrado em Filosofia na Universidade Nova de Lisboa e tem estudado sobretudo o pensamento de Blaise Pascal — em particular as reflexões acerca da extraordinária aspiração dos homens e da extraordinária incompetência para lhes dar resposta. A Trombeta Vaga é o seu primeiro livro.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *