
“Lisboa nos Arquivos” é uma série baseada nos fundos arquivísticos e bibliográficos existentes na cidade. Entre a abordagem historiográfica e a investigação jornalística, publicaremos todos os meses uma história da memória cultural de Lisboa, procurando assim contribuir para a sua biografia. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Marianne Baillie viu uma vez três varredores numa rua de Lisboa. A observação era digna de nota porque se tratava de uma espécie rara na paisagem citadina. Tinham um modus operandi deveras singular: “invariavelmente” varriam contra o vento. Portanto, a presença destes seres extraordinários nas vias públicas era meramente decorativa. Mas outras espécies tinham já adoptado aquela missão.
Baillie desembarcou em Lisboa em Junho de 1821. Acompanhava o marido numa estadia prolongada na capital e, à semelhança do que aconteceu com muitos outros visitantes estrangeiros, ficou horrorizada quando viu de perto aquilo que lhe parecia belo ao longe. Logo na primeira carta que escreveu à mãe, procurou descrever as suas primeiras impressões: estradas e passeios com pisos de sofrimento para pedestres, quadrúpedes e rodas, monturos dispersos por toda a parte, cheiros nauseabundos e a tradição nacional de lançar para as ruas toda a categoria de detritos (esquecendo, por vezes, o prévio “água vai!”, que de água pouco tinha).
“Homens e mulheres, crianças e porcos, cães, gatos, cabras, galináceos doentes e restos de suínos, tudo se mistura em amorável convívio, cada um igualmente gozando o que parece ser o seu elemento comum – porcaria!”.

Entre esta fauna, porém, destacavam-se elementos que todos os dias, a qualquer hora diurna ou nocturna, limpavam zelosamente a “porcaria” das praças, ruas, becos e travessas: os cães. “Os habitantes de Lisboa não dispõem de outros varredores!”, exclamava Baillie, certamente surpreendendo a mãe pela inventiva (e barata) solução para a manutenção de um nível razoável imundície na urbe.
Em alguns dos passeios que fez no centro da cidade (e que em algumas ocasiões lhe deixaram a cara salpicada da lama e de outras matérias menos recomendáveis que saltavam das rodas da carruagem), viu que os cães eram “rafeiros, de todas as cores e tipos, escanzelados, magros, nojentos e vorazes”, vagueando “em todos os sentidos, nos números mais alarmantes”. Baillie não especifica o censo canino (ninguém sabia, na verdade), mas os números deveriam rondar os milhares.
Devoradores competentes
Há séculos que os cães vadios povoavam a capital e tinham a incumbência, tão necessária à população, de varrer grande parte dos resíduos urbanos. Limpavam, mitigavam os odores que exalavam das estrumeiras e faziam desaparecer em pouco tempo os animais mortos que jaziam nas ruas. Desempenhavam mesmo uma acção profiláctica relativamente a doenças e epidemias. (E eram polivalentes porque em meados do século XIX serviam também como cobaias para as crianças aprenderem a catar piolhos e lêndeas.)

A presença constante de matilhas, e a sua actividade uivante nocturna, foi notada por quase todos os estrangeiros que escreveram sobre a cidade, em diferentes épocas. Incomodava-os e repugnava-os, mas a maioria concordou que eram úteis. Sobretudo na segunda metade de Setecentos, depois do terramoto, quando aumentou o despejo das “superfluidades imundas” nos lugares públicos e os habitantes demonstraram uma “barbaridade contrária aos povos civis da Europa”, lia-se num decreto de 1775 da Intendência Geral da Polícia.
Poucos anos depois, em 1779, nas horas de maior calor estival, só alguns seres vivos ousavam sair à rua: habitantes de “baixa condição”, cães e ingleses. William Costigan não era inglês, mas escocês (e este não era o seu nome, mas um pseudónimo que usou quando reuniu em livro escritos sobre a sociedade portuguesa), e decidiu passear num desses dias de canícula. De perto, viu que tudo era “sujo e nojento”, mas seria pior “se tudo quanto se pode comer não fosse devorado prontamente por milhares de cães vadios”. Interrompiam o descanso nocturno com latidos incessantes, mas trabalhavam diariamente como cantoneiros e essa utilidade e função merecia reconhecimento público.
E não se pode exterminá-los?
Quantos eram? Não se sabe. No último quartel do século XVIII, um visitante inglês receava ser apanhado nas suas caminhadas pelos “30 mil ou 40 mil” cães que vagueavam pela cidade. Poucos anos depois, um sueco estimava serem 80 mil, notando, porém, que estes animais raramente mordiam humanos e que a população, em jeito de agradecimento, deixava-lhes bacias com água para eles beberam nas soleiras das portas. Os encontros com as matilhas não eram perigosos – o maior perigo estava em calcorrear a cidade e poder levar, a qualquer momento, com imundícies na cabeça. E não só: andar a pé exigia alguma ginástica para contornar todos os obstáculos existentes nas vias: pilhas de lixo, animais domésticos à solta e outros de grande porte, como cavalos e burros, mortos e jazentes nas ruas.
Entre as muitas agitações ocorridas no século XIX, encontra-se a ideia de controlar a população canina da capital. A “boa ordem” era incompatível com um “número tão abusivo de cães”, escreveu o todo poderoso Rodrigo de Sousa Coutinho, secretário de Estado com grande influência sobre o príncipe regente D. João. O que propunha? Matar “todos os cães sem coleira com o nome do dono”. Isto é, quase todos.
O plano era (mais) uma importação francesa, contrária à vontade dos residentes, e praticamente inexequível num curto espaço de tempo. Mas a proposta fez caminho e as matanças começaram a ser feitas em períodos determinados. Em 1842, foram mortos 900 em apenas uma semana.
O príncipe polaco Felix Lichnowsky, que veio para Lisboa descansar de uma campanha bélica com os carlistas espanhóis, designou estas chacinas de “profícuos banhos de sangue”, criticando reiteradamente a população lisboeta por proteger estes animais. Eram “vagabundos”, que se hospedavam em qualquer lugar público, espojados ao sol nos passeios, fazendo a sesta. Durante as noites uivavam “lamentosamente”, e se alguém se aproximava reagiam com “um ladrar furioso”. Eram, enfim, uma singularidade lisboeta – “somente se encontram em Lisboa” – e a sua “extirpação total” não era aceite pelos habitantes.

Trinta anos depois a mesma queixa foi repetida por uma forasteira inglesa, Lady Jackson, que aproveitou para dizer que a “plebe” era “estupidíssima” (refira-se que o maior interesse do seu livro, “A formosa Lusitânia”, reside nas notas de Camilo Castelo Branco, que traduziu, corrigiu, verificou e deu raspanetes à autora). A viajante chegara a Lisboa quando os trabalhos de limpeza das ruas não eram já dos cães, mas de humanos, que varriam e usavam um antigo sistema de pipa para a lavagem do piso. Extinguiram-se assim, escrevia ela, as “sanguinolentas lutas” de cães pelo “refugo” lançado pelos residentes. Entre outras incorrecções, devidamente censuradas por Camilo, juntavam-se mais estas.
Por todo o século XIX continuou a rivalidade entre gangues caninos pelo domínio dos melhores locais de “refugo”. E as épocas oficiais de caça aos cães, muitas vezes com recurso a venenos, não tiveram efeitos evidentes na redução das matilhas. Apesar de ténues melhoramentos na limpeza urbana, os cães mantinham-se como os mais eficientes varredores.
Em 1862, a convivência menos pacífica com cavalos e cavaleiros levou a câmara a proibir a “divagação” de cães sem açaime pela cidade. Os que fossem apanhados a “vadiar” seriam “extintos” pelo “modo” que a autarquia julgasse “mais eficaz e conveniente” (não dizia qual). Apesar de mais esta condenação, as matilhas tardaram em desaparecer. Lentamente, deixaram de ser presença assídua nas ruas e praças, ao mesmo tempo que a limpeza passava a ser feita por animais de carga e carroças. Extinguiram-se os rafeiros, mas não as lixeiras.
FONTES
ARQUIVO MUNICIPAL DE LISBOA, Arquivo Histórico, Chancelaria da cidade, Livro de postiras antigas, doc. 4; Colecção de editais da Câmara Municipal de Lisboa, 1862-1869, doc.1; idem, fl. 337.
ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO, Intendência Geral da Polícia, , Livro 83.
BIBLIOTECA DA AJUDA, Documentos avulsos. Reais ordens. 54-XI-20, nº 134.
A.P.D.G., “Sketches of portuguese life, manners, costume and character”, 1826 (Internet Archive)
Carl Israel Ruders, “Viagem a Portugal. 1798-1802”, Biblioteca Nacional de Portugal (BNP), 1981.
Felix Lichnowskiy, “Portugal: recordações do ano de 1842”, 1845 (Internet Archive)
Hugh Owen, “Here and there in Portugal: notes of the present and the past”, 1856 (BN Digital)
Lady Jackson, “A formosa Lusitânia. Portugal em 1873”, Caleidoscópio, 2007.
Marianne Baillie, “Lisboa nos anos 1821, 1822 e 1823”, BNP, 2002
William Beckford, “Diário de William Beckford em Portugal e Espanha”, BNP, 2009.
William Costigan, “Retratos de Portugal. Sociedade e Costumes”, Caleidoscópio, 2007.
T.M. Hughes, “An overland journey to Lisbon at the close of 1846 with a picture of the actual state of Spain an Portugal”, London, 1847 (Internet Archive)
*A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria José Oliveira
Jornalista freelancer e doutorada em História Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Colabora regularmente com os jornais PÚBLICO e Expresso e faz investigação para cinema e televisão. O seu primeiro livro foi “Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial” (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Alfama, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios.

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