Semanalmente, publicamos um diálogo entre Lisboa e Maputo. Uma ideia que nasceu de residências literárias feitas pelos escritores Ana Bárbara Pedrosa e Eduardo Quive: ela em Moçambique, ele em Portugal. Como, além dos quilómetros, parecem muito distantes um do outro, e uma vez que a língua os une, resolveram estreitar as pontes através de frases. Maningue giro (ou “muito giro”) é o título desta série a quatro mãos.

Chelas chegou a Maputo? Que luxo. Conheci a Sara Correia meio pelo Spotify, meio pela Mensagem de Lisboa. Ouvia-a no ginásio, mas estava longe de saber que aquela voz de mulher vinha de uma cara de menina. É injusto que alguém tenha voz tanta para cantar assim, mas que se lixe: não é a coisa mais bela que alguém abra a boca para fazer beleza? Escritores são mais de tentar fazê-la em silêncio, e mesmo assim pode haver uma vírgula a fugir para o sítio errado.

De todas as coisas da tua última carta, a que mais me espantou foi teres achado que eu alguma vez te tomei por um macho mandão. Se assim fosse, não estaríamos aqui hoje – nem teria olhado para ti. Ou então olhava e pensava ou dizia em surdina: “Ai, que horror. Parece Satanás.” Homem de perna aberta a falar alto, a cuspir para o chão? Venha o diabo e leve esse demónio. E que bom, depois de tantos séculos a pensar em como criar as filhas, andarmos finalmente a pensar em como criar os filhos. É uma preocupação que tenho com o meu. Não para já: agora é um bebé fofo a ser fofo e a encantar e deslumbrar e atirar beijinhos pela rua. Ou seja, a davidar. Mas isto de ter filhos põe-nos o coração no futuro: que será deles sem nós e, sobretudo, que farão quando não estivermos a ver? Já me inquieto só de pensar nas notificações online a baterem-lhe como pancada, e sei lá que influências tentarão chegar-lhe, e a partir de que idade devo começar a mostrar-lhe os maus exemplos só para que ele não os siga. Até quando devo preservar-lhe a inocência? Quando rebentou o caso Gisèle Pelicot, a internet andava maluca a perguntar-se: e se fosse a tua filha? E eu só queria saber: a sério, e se fosse o teu filho? Se se puser aí o ónus, resolvem-se os problemas na raiz. Talvez a solução para os males do mundo, e para esse machos mandões a quererem vingar-se nos outros, seja miminho de mãe durante muito tempo. Assim continuarei o que puder, e é assim que vamos passando vírus e bactérias uns aos outros – desde que os meus filhos nasceram, o mimo é tanto que já somos VIP nos hospitais do centro de Lisboa.

Seja como for, há muito encanto na delicadeza de um homem. Em parte, porque foge à educação brejeira; em parte, porque a delicadeza é classe. Noto a diferença nas expressões de masculinidade, essa palavra da moda aqui, entre o Minho e Lisboa. No Minho, falam mais alto, usam vozes mais grossas, e parece haver um bisturi entre os sexos. Uma coisa démodée. Em Lisboa, talvez pela mistura, as diferenças já parecem esbatidas, e o próprio sotaque manso ajuda a amansar. A maneira como falas dos homens de Maputo põe-nos, pelo menos na minha cabeça, do lado dos primeiros. Ora, associar o comando à posse de uma próstata é coisa que parece vir do fim do mundo, e o sexismo parece a única forma de discriminação ainda bem aceite nas sociedades ocidentais. Já não passa pela cabeça de ninguém dizer que os pretos assim ou assado, mas as pessoas continuam a dizer que as mulheres assado e os homens assim. E nas praias, já viste como é? Começaram a tapar os mamilos de meninas, e elas de peito liso como os irmãos da mesma idade – dois, três, quatro. Também fazem isso aí? É uma aberração que sexualiza crianças.

Discordo da ideia de que a Vila Algarve não serve para lugar de memória colectiva. Aliás, só o facto de estar ali em esqueleto já faz lembrar alguma coisa – é impossível passar sem reparar nesse colosso, e um guarda lá sozinho ajuda a perceber que é mais do que pedra empilhada, esmorecida. Tive de googlar molwenes (que horror), assumi que zumbis fossem zombies, os fantasmas não existem (e os espíritos em cima do rio também não), mas tudo o resto que listaste é vida a acontecer (“drogados, vagabundos, dementes, sem-abrigos”). Assim que vi aquilo tudo, vi a vida exuberante, mesmo que tanto daquilo fosse decadente. Cada pequeno detalhe transbordava de vida e de História, e tu passas por ali todos os dias e não percebes que aquele edifício é um romance que a tua cidade te oferece? É só chapar a vida, nem precisas de inventar. Estás a dois passos – a 300 páginas, vá – de poderes ser o Jorge Amado de Moçambique. Em vez de Capitães da Areia, Capitães do Cimento. Lança-te a isso enquanto eu continuo a minha novela gráfica sobre o mesmo chão, que não consegui viver só da prosa e gostei muito da forma como o tempo se imiscuiu num edifício.

Falas de um país sem adolescência e dos escritores como espécie de adolescência – assim é difícil que alguém nos dê alguma bola. É bem verdade que há alguma coisa de incompreensível, bizarro até, nisto de sermos adultos a querer inventar problemas só para depois os resolvermos; a pôr personagens a fazer tal para depois decidirmos que etc.; a irritarmo-nos com gente que só existe dentro das nossas cabeças, regra geral consumidas por névoa; mas eu nunca teria o desplante de nos chamar adolescentes. Há muito desplante em ti a que não me arrojo, mas arrojo-me a continuar nessa onda de achar que há outra verdade escondida em tudo. Espécie de adolescente, está bem, mas principalmente espécie de alcoviteira à janela: deixa-me meter Portugal na imagem a la Moçambique que fazes da literatura.

Vivi até à tua última carta a achar que tínhamos passeado os dois em Maxaquene. O Google desfez-me o equívoco; afinal, foi Malhangalene. Assim sendo, chateia-me não termos ido a Maxaquene. Já me chateava não termos ido ver o futebol; agora, chateia-me ainda mais saber que me desviaste de propósito. Também não deixa de me espantar o desplante com que achas que me fintaste à Ronaldo. Vá, haja um pouco de humildade para com o melhor do mundo, o Messi europeu: no máximo, fintaste-me à Dominguez, ou lá como se chama o jogador que vimos no Piri Piri, e já dava para me deixares de pernas bambas. Nunca fui boa a defender fintas, muito menos a fintar: quando jogo à bola, gosto é de chutar com força. Sempre achei que tinha dentro de mim um Rochemback. Infelizmente, nunca ninguém concordou – eis-me então romancista, o que nem sempre envergonha. Mas, para referências futuras, podemos apostar no Geny Catamo para ponte comum futeboleira? Seja como for, achava que tínhamos perdido o Moçambique-Eswatini por motivos de força maior, por golpe de azar, não golpe de Quive. E vai ser difícil engolir esta: em que outra altura da vida julgarás tu que voltarei a ter a oportunidade de ver em casa uma eliminatória para a Copa africana sob cinzas pelo ar?! Só de escrever isto, já estou irritada contigo. Não vamos aguentar mais mês e meio de cartas sem cortarmos relações, pá.


Ana Bárbara Pedrosa

Veio para Lisboa estudar Literatura em 2012. Daqui só saiu para o Brasil, onde, à portuguesa, teve saudades dia e noite. Regressada, escreveu Lisboa, chão sagrado e a cidade foi a diva onde se perderam personagens. Anos depois, numa casa em Benfica, foi ao Médio Oriente e escreveu Palavra do Senhor. No mesmo sítio, meteu a cabeça em Vizela e escreveu Amor estragado. Para os de cá, tem sotaque minhoto; para os de lá, engravatado.

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *