Registos do projeto MyPolis Gerações. Foto: MyPolis

As cidades fazem-se de camadas e Lisboa não fica de fora. Ao caminharmos pelas suas  ruas, cada prédio e cada escadaria contam a história de quem por ali passou. No entanto,  vivemos num tempo em que as gerações parecem habitar ilhas isoladas: os jovens  confinados aos seus ecrãs e às escolas; os mais velhos, muitas vezes, entregues ao silêncio do isolamento social. 

Se repararmos bem, a vida constrói-se verdadeiramente a partir da troca. As avós que orientaram os pais, os pais que ensinaram os filhos – seja ao partilhar uma receita, uma expressão da língua ou uma forma de fazer e construir algo. É um ciclo de aprendizagem que corre o risco de se quebrar se não criarmos espaços de encontro. 

Quem se lembra dos cadernos de receitas das nossas avós? Ainda existirão? E quem  consegue arranjar aquela porta que insiste em guinchar? Talvez o meu avô resolvesse  isso num ápice. “Num ápiceˮ – eis uma expressão que já não oiço há muito tempo. 

Desta urgência em cuidar das trocas intergeracionais, contribuir para a redução do  isolamento social e garantir que certos ensinamentos perdurem no tempo, nasce a  convicção de que a polis – a cidade – só é plenamente democrática quando é pensada com todos e para todos.

O projeto MyPolis Gerações, da organização de impacto social MyPolis, tem provado que, quando juntamos jovens e pessoas idosas em situação de vulnerabilidade, o resultado não é assistencialismo: é transformação urbana e social. 

Quando vemos 55 jovens e 13 seniores a unirem-se para propor a renovação de um campo de basquetebol na Escola Patrício Prazeres ou a lutar por melhor acessibilidade no Metro de Lisboa, percebemos que a cidadania não tem idade.

Os mais velhos trazem a memória e o conhecimento do passado; os mais novos trazem a energia e a familiaridade com as novas ferramentas de participação. 

Registos do projeto MyPolis Gerações. Foto: MyPolis

Mas há algo que os números não captam: a dimensão afetiva.

Nesta jornada, as pessoas idosas deixam de ser “estatísticas de isolamentoˮ, para se tornarem “avós emprestadosˮ. Criam-se laços de cuidado e pertença que humanizam a cidade. Como diria Elsa Gaspar, do Centro Social de São Boaventura (Lisboa): estes seniores, que enfrentaram vidas marcadas por desafios, tornaram-se mentores dos jovens de forma natural. 

Valorizar a pessoa sénior no espaço público é um ato de justiça e de inteligência coletiva.  Precisamos de cidades que não sejam apenas dormitórios ou centros de consumo, mas  verdadeiros lugares de encontro intergeracional.

Se queremos fortalecer a nossa democracia e a nossa literacia cívica, o caminho passa  por: ouvir quem já viu muito e dar voz a quem quer transformar o mundo. Afinal, a cidade  do futuro está a ser desenhada hoje – num banco de jardim, numa conversa entre quem  está a começar e quem tem uma vida inteira de saber para partilhar.


Marcela Farias

Gestora de Impacto Local da organização de impacto social MyPolis

O jornalismo que a Mensagem de Lisboa faz une comunidades,
conta histórias que ninguém conta e muda vidas.
Dantes pagava-se com publicidade,
mas isso agora é terreno das grandes plataformas.
Se gosta do que fazemos e acha que é importante,
se quer fazer parte desta comunidade cada vez maior,
apoie-nos com a sua contribuição:

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *