
“Lisboa nos Arquivos” é uma série baseada nos fundos arquivísticos e bibliográficos existentes na cidade. Entre a abordagem historiográfica e a investigação jornalística, publicaremos todos os meses uma história da memória cultural de Lisboa, procurando assim contribuir para a sua biografia. Este projeto foi um dos vencedores do programa “Lisboa, Cultura e Media”, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Estavam as ossadas do Marquês de Pombal postas em sossego numa capela do Bairro Alto, quando a I República decidiu não as deixar durar muito. Foi logo em 1911, quando as primeiras revoltas populares, por um lado, e as primeiras incursões monárquicas, por outro, coincidiam com o estabelecimento das fundações legais do regime recém-instaurado. Trabalhos não faltavam, portanto, aos dirigentes nacionais e locais. Cautelosamente, questionou-se a família e a resposta foi uma manifesta relutância à ideia. O assunto foi arrumado. Mas ficou em pousio.
Não existiram períodos prolongados de paz na I República. Quando a urna do Marquês voltou à agenda política o momento era, inevitavelmente, conturbado. Foi em finais de 1916, quando o Governo era de “União Sagrada” e o país preparava em Tancos os primeiros contingentes do Corpo Expedicionário Português, que, daí a poucos meses, estavam a combater e a morrer nas trincheiras da I Guerra Mundial. Nesta altura, o que restava de Pombal mantinha-se num pequeno caixão de pinho na capela das Mercês, na Travessa homónima, não muito distante do palacete onde se julgava que teria nascido (investigações recentes concluíram que nasceu em Sernancelhe). Estava ali desde 1856, por iniciativa dos descendentes, depois da morte em 1782, em Pombal. Mas ainda não tivera direito ao eterno descanso.
Em Novembro, a Comissão Juridiscional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas, criada logo em Dezembro de 1910 sob a dependência do Ministério da Justiça e dos Cultos (com uma designação explícita sobre os seus propósitos), decidiu que o caixão era “tosco” e “impróprio” para a “preciosa relíquia”. A 21, dois funcionários desta Comissão, acompanhados por um escrivão, foram à capela fazer uma visita de reconhecimento. O ataúde de pinho, de pequenas dimensões, encontrava-se no interior de uma urna maior, coberta com um pano de veludo preto com uma cruz bordada ao centro e franja em fio dourado, sustentada por dois elefantes de pedra. Desde os anos 30 de Oitocentos que a família do Marquês, proprietária da capela, tinha ali o seu panteão privado. Alguns dias mais tarde, a secretaria-geral do Ministério foi informada pela Comissão de que seria “de toda a conveniência cobrir a chumbo o caixão” e para acelerar o processo (e poupar despesas) propunham que se recorresse à Quinta do Bom Sucesso, em Sintra, onde existia “grande quantidade” daquele material (era então uma colónia penal e é hoje o Estabelecimento Prisional de Sintra).
Não tardou muito para que o Ministério e a Comissão investissem esforços e orçamentos para a construção de uma “urna condigna”, que, necessariamente, implicava a alteração da última morada do Marquês.
Determinou-se então que o caixão seria em “madeira de carvalho e bronze” e foram requisitados artífices, casas comerciais e joalheiros para apresentarem custos e prazos para executarem o projecto desenhado por António Augusto Gonçalves, fundador e director do Museu Machado de Castro (Coimbra). Tudo estaria finalizado num período máximo de três meses, decretaram, seguindo-se a trasladação dos restos mortais para o Mosteiro dos Jerónimos, que era então panteão nacional.
Nada disto foi cumprido: a ‘canonização’ de Pombal demorou sete anos, durante os quais o país teve 24 Governos, e as ossadas tiveram outro destino.
A preferência pelos sinos da Companhia de Jesus
Inicialmente, verificou-se algum zelo com a contenção de despesas. A Comissão, responsável pelo património das congregações proscritas, propôs que o bronze procedesse dos sinos das casas religiosas extintas. Mas não de qualquer uma. “Sendo possível de jesuítas”, lê-se num ofício daquela entidade, julgando porventura que Pombal ficaria satisfeitíssimo com esta reciclagem dos sinos da Companhia de Jesus.
Para “limitar a compra de madeira”, abater-se-iam carvalhos da Quinta do Bom Sucesso. E apenas a escolha do entalhador exigiria maiores gastos: José Emídio Maior, com oficina na rua Paiva de Andrade, ao Chiado, era “o melhor de Lisboa”.
Em breve, o prazo previsto de três meses revelou-se uma ilusão. Somente em Abril de 1917, a Comissão escolheu qual o cenóbio de onde procederiam os sinos, cabendo a distinção ao Convento do Barro, em Torres Vedras, onde a Companhia tivera um noviciado que entretanto a I República convertera em sanatório para tuberculosos. Dali foram transportados para Lisboa 250 quilos de bronze.
Nesta altura, o processo sobre a urna do Marquês, pertencente ao fundo arquivístico da Comissão, dá um salto de mais de um ano até Maio de 1918. E tem más notícias: o entalhador, inquirido sobre o andamento do trabalho e já com adiantamentos financeiros no bolso, apontava Julho para a entrega da urna. Passou o Verão, começou o Outono, e nada de caixão.
Em Dezembro, algumas semanas depois de firmado o armistício, a Comissão fartou-se do entalhador e a Procuradoria da República abriu um inquérito criminal por incumprimento de prazos. Mas não se entregou a tarefa a outro artífice e José Maior, que tinha já recebido 540 escudos, alargou novamente os prazos. No Verão de 1919, um funcionário da Comissão visitou a oficina no Chiado e verificou que faltavam ainda as ferragens na urna. Era “o melhor de Lisboa”, e provavelmente também o mais vagaroso.
As contrariedades não ficaram por aqui. Em Novembro, os descendentes de Pombal fizeram saber, através dos jornais, que se opunham à ideia de retirar as ossadas da capela das Mercês. Manuel de Carvalho Daun e Lorena, o 7.º marquês, enviara uma carta ao Presidente da República, António José de Almeida, manifestando a oposição da família e lembrando que já o seu pai recusara a trasladação em 1911, quando queriam levar Pombal para a igreja de Santo António. Aproveitava ainda para reclamar a posse legítima da capela, da qual tinha sido expropriado em 1914.
O jornal “O Século” noticiou então que o chefe de Estados agendara uma visita à capela, “para verificar in situ os vandalismos feitos ao lugar”. Quais? Não escreviam. Curiosamente, a capela estava encerrada há anos e o prédio adjacente ocupado pela Polícia Cívica e pelo Ministério do Trabalho. “O Século” não deu mais explicações sobre os “vandalismos” e também não voltou ao tema nos dias e meses seguintes. O Marquês de Pombal só viria a ser parangona do periódico quatro anos mais tarde.
Atrasos e despesas com os joalheiros
Os promotores da trasladação ficaram agastados com oposição da família, mas não desistiram. Há três anos que pugnavam por “honrar a dignificar” a memória de “tão ilustre português” com uma urna onde as ossadas ficassem “condignamente guardadas”. Não consultaram os descendentes, é certo, mas o país exigia que o Marquês tivesse o “devido respeito” e isso não existia enquanto estivesse num caixão “ordinário e tosco”. A família nada mais podia fazer.
Em Maio de 1920, os joalheiros Leitão & Irmão, com casa na rua Garrett, 136, juntaram-se ao entalhador: despistaram-se nos prazos (75 dias a contar desde Novembro do ano anterior) e no orçamento. Alegavam em carta que tinham aumentado os salários dos funcionários e as despesas da casa, pelo que pediam mais 100 escudos. Garantiam que continuavam a laborar nas ferragens em prata, para as quais tinham recebido oito mil quilos, igualmente provenientes de mosteiros e conventos, e perguntavam pela localização da oficina do entalhador, que, espantosamente, ainda não lhes tinha sido fornecida.
A 17 de Dezembro de 1920, José Emídio Maior informou a Comissão de que a urna estava concluída e com as pratas aplicadas, explicando em carta que um “estudo anormal com que não contava” dificultara-lhe a execução “rápida” da peça, encomendada em Fevereiro de 1917.
O que se seguia? Os trabalhos de cantaria para a peanha, contratados à Associação dos Canteiros por oito contos e executados numa oficina em Alcântara. Mas nem isto foi célere.
Um cortejo fúnebre de notabilidades
No XXXVII Governo da República, liderado por António Maria da Silva, concretizou-se, finalmente, o projecto do XIII Governo da República, chefiado por António José de Almeida, que, em Maio de 1923, era chefe de Estado. A ideia de sepultar Pombal nos Jerónimos foi nesse ano arredada pela Comissão, que entendeu que a igreja da Memória, edificada por ordem de D. José no local (na Ajuda) onde escapara a um atentado (em 1758), era o lugar “mais apropriado” e um “panteão digno do Marquês”. Os Ministérios da Justiça e das Finanças concordaram e deram autorização. Um processo que se arrastara por sete anos chegava ao fim, para alívio de todos os envolvidos, certamente, e só faltavam mesmo as cerimónias de transferência dos restos mortais.

Escolheu-se 13 de Maio, dia em que Pombal fazia 224 anos, providencialmente um domingo, o que poderia garantir assistência popular. Mas a temperatura estava amena e muitos lisboetas aproveitaram para passear nas redondezas, lotando o comboio que partia à hora do almoço do Rossio para Vila Franca de Xira e o eléctrico de Sintra. Houve também quem tivesse ido a pé, de automóvel ou carroça para Fátima, para as celebrações da “aparição” de Maria, mãe de Jesus.
Na Baixa não se viam muitos transeuntes – um homem perdera uma chave no Rossio, houvera desordens com pauladas em Alcântara e um funcionário menor da igreja dos Mártires roubara uma bengala com castão de prata ao prior. Era um domingo pacato em Lisboa.
A República quis transformar a trasladação numa cerimónia nacional, carregando na solenidade, mas o resto do país, pelo menos o que sabia ler, só soube do acontecimento nos dias seguintes, através dos jornais. A excepção foi Braga, que decidiu fechar escolas e estabelecimentos de ensino no dia 12, sábado. Precisamente nesse dia, a nova urna em carvalho com o bronze dos jesuítas, a prata das casas religiosas e as ossadas do Marquês foi transportada num armão desde a capela das Mercês até ao edifício da câmara municipal, atravessando o Chiado e percorrendo a principal artéria pombalina (rua Augusta). Ficou depois exposta, ornada com arranjos de flores naturais, no átrio dos paços do concelho. Ao início da tarde, foi descerrada uma lápide no Palácio Pombal, na rua do Século, com a inscrição (errada, sabemos agora) de que o Marquês teria ali nascido.

Alguns membros da família assistiram somente à exumação dos restos mortais e deposição no novo ataúde, dispensando tudo o resto. A 11, no interior da capela, abriu-se o pequeno caixão “tosco”, onde se encontrou pó, alguns farrapos e um par de sapatos. Foi soldado, lacrado e colocado dentro da nova e monumental urna, na qual foram gravadas as inscrições “Restos mortais de Sebastião José de Carvalho e Melo, 1º Marquês de Pombal. N. 13-V-1699. M. 8-V-1782” e “Urna da iniciativa da Comissão Jurisdicional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas – Ata da sessão de 29-IX-1916”. A tampa estava ornada com um ramo de louro e um rolo que simbolizava a lei de 3 de Setembro de 1759 e que devia a paternidade a Pombal (e o bronze aos campanários jesuíticos): a expulsão dos jesuítas, reproduzida pela I República.
Da Baixa até à igreja da Memória, onde o reverendo Matos Ferreira (único representante da Igreja) fez as devidas “encomendações”, a urna foi transportada no coche de D. José, puxado a cavalos, num cortejo onde não faltaram as notabilidades do regime. Abria com a cavalaria da GNR, seguindo-se o chefe de Estado e o Governo. Atrás iam juízes, autarcas, elementos do corpo diplomático, ordens militares, professores e funcionários dos hospitais civis, associações culturais e desportivas, bibliotecários, museólogos e arquivistas. Menos o entalhador.
FONTES
ARQUIVO DA DIRECÇÃO-GERAL DE REINSERÇÃO E SERVIÇOS PRISIONAIS: Comissão Jurisdicional dos Bens das Extintas Congregações Religiosas, Processos Administrativos, Urna para os restos mortais do 1º Marquês de Pombal (também disponível em GNOSI Património Cultural da Justiça – www,gnosi.justica.gov.pt)
ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO: Empresa Pública Jornal O SÉCULO, 2º trimestre de 1923.
HEMEROTECA DIGITAL: A Capital – Diário republicano da noite, Maio de 1923; revista Ilustração Portuguesa, números 899 e 900, 12 e 19 de Maio de 1923.
A autora escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Maria José Oliveira
Jornalista freelancer e doutorada em História Contemporânea pela Universidade Nova de Lisboa. Colabora regularmente com os jornais PÚBLICO e Expresso e faz investigação para cinema e televisão. O seu primeiro livro foi “Prisioneiros Portugueses na I Guerra Mundial” (Saída de Emergência). Nasceu na Figueira da Foz, vive em Alfama, e quando anda na rua olha para as fachadas dos prédios.

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